23 janeiro 2009
A alucinação de J.Anhaia
- Fábio, tudo bem?
- Tudo. Tudinho mesmo. E por aí, como vão as férias?
- Pois é... Foi por isso que eu liguei...
Nessa hora, eu imaginei "pronto! Aí vem crônica!" Não deu outra:
- ...lembra da lâmpada que piscava no quarto? Continuou ele.
A pergunta era retórica, claro que eu me lembrava. Virou uma das crônicas mais famosas deste diário e até publicada em livro. Nessa hora, peguei papel e caneta para anotar.
- Só um minuto seo José - e ajeitei a caneta na mão e o papel sobre a mesa - lembro sim! O que acontece? A lâmpada voltou a falar com o senhor?
- Que nada. Mas, sabe aquelas horas em que você vai dormir e fica olhando para o teto?
- Sei não, seo José. Quando eu vou para a cama eu fecho os olhos.
- Pois é... eu também. Mas eu costumo ficar um pouco olhando para o teto antes de dormir. É para esperar o sono chegar, sabe?
- Imagino... Mas e a lâmpada? Transmitiu algum sinal do além?
- Não! Esqueça a lâmpada. Só lembrei dela porque o caso é parecido.
- E qual é a história dessa vez?
- Uma noite, quando eu estava olhando para o teto do quarto, vi o céu todo estrelado, lá mesmo no forro. Eu enxerguei milhões de estrelas, como se fosse uma noite superestrelada.
- O senhor grudou estrelinhas fosforescentes no teto?
- Não, não. Era o céu mesmo. Vi galáxias gigantes no teto do quarto.
- O que o seu médico disse sobre isso?
- Isso não é caso pra médico. É caso para quem entende do espaço. Por isso, eu estou ligando pra você.
- E eu lá sou ufólogo, seo José?
- Não. É que você entendeu o caso da lâmpada. Acho que você pode decifrar esse também.
Pronto, virei analista de fenômenos sobrenaturais do quarto interestelar de J.Anhaia, pensei com meus cadarços. Ele continuou:
- Descobri também que se eu apertar um pouco os olhos com os dedos, o negócio fica ainda mais brilhante.
- Seo José, o senhor está tomando muito remédio?
- Não. Não é remédio, não. Faça isso, aperte o olho também. Você vai ver só que impressionante!
- Pare de apertar a vista, seo José! O senhor vai acabar furando a bola do olho!
- É de leve! Só um pouquinho, até começar a brilhar. Dá para enxergar longe. É a coisa mais linda!
- Às vezes quando a gente coloca carpete em casa, a cola solta uns gazes... - provoquei.
- Não é cola, nada. Eu nem bebo mais antes de dormir. O que será isso, hein?
Para responder uma pergunta tão profunda, precisei parar, ponderar, analisar as variáveis, compor uma equação e responder da maneira mais racional possível:
- Seo José, para ser franco acho que tudo isso não passa de uma continuação do episódio da lâmpada. O teto do seu quarto é simplesmente um portal interestelar com uma maçaneta defeituosa. A maçaneta deve ser a lâmpada, as suas ondas mentais ao tentar dialogar com a dita-cuja devem ter forçado a lingueta, o que arrebentou o fecho e acabou escancarando o portal. Eu sugiro que o senhor pare de apertar os olhos e (como dizia a mãe da menina Caroline) afaste-se da luz. Caso contrário, o senhor poderá parar em outra galáxia ou mesmo em outra dimensão.
Ele deu-se por satisfeito:
- É por isso que eu gosto de conversar com você, Fábio. Você tem sempre uma explicação plausível para tudo!
No dia seguinte quando ele contou a história a uma colega de trabalho, ela retrucou:
- Eu vi no Globo Repórter que enxergar estrelas é desnutrição e problema de pressão.
Ele ficou indignado:
- Eu não acredito nessas histórias mirabolantes que a TV conta!
15 janeiro 2009
O mundo sem Lua
O mundo sem a Lua
Sem a Lua não haveria mais lobisomens. Os vampiros iriam dominar sozinhos as florestas e as histórias de terror. A quantidade de gente mordida por esses monstros aumentaria muito e espalharia a AIDS até para quem transa de camisinha. O Ministério da Saúde iria fazer uma campanha de vacinação contra hepatite do tipo vampiresca e o dos Transportes espalharia cartazes para os vampiros: “Se for dirigir, não morda os bêbados”.
O homem não precisaria mais pisar em lua nenhuma, por isso, podia parar de apostar corridas espaciais e Houston não teria mais problema nenhum.
São Jorge ficaria sem casa e o seu dragão teria que ir para um parque de diversões nos Estados Unidos. O santo poderia fazer apresentações no parque do Beto Carrero ou pedir emprego para o papa para ser garoto propaganda da Igreja.
E o melhor de tudo: sem a Lua ninguém mais teria que fazer redações sobre ela.
11 dezembro 2008
Gabriel e as pilhas
– É que a gente não pode jogar pilha no lixo, Gabriel.
– Por que não?
– Porque o lixo que vai no saco é enterrado. Aí, vai sair uma aguinha suja das pilhas. Essa aguinha vai sujar a terra, vai escorrer para o rio e matar todos os peixes – disse eu orgulhoso de estar inculcando a última palavra em consciência ecológica naquela cabecinha fresca.
– Deixa eu ver – respondeu o pequeno estendendo uma mãozinha bolachuda pedindo um objeto para análise.
Dei-lhe a mais colorida de todas, imaginando que ele iria fazê-la de brinquedo, talvez um foguete espacial ou um canhão laser para o seu carrinho de polícia. Em vez disso, ele segurou a pilha, olhou-a por todos os ângulos girando-a com a mão fechada e finalmente juntou-a ao ouvido dando uma chacoalhadinha. Franziu a testa decepcionado:
– Mas eu não estou ouvindo nenhuma água aqui dentro!
Fiquei congelado olhando aquela carinha brava ansiosa por resposta. E agora, Fábio, seu jumento? Explica para ele como é que os metais pesados se decompõem e contaminam o solo. Como uma pilha seca, sem nenhum barulho de líquido dentro, pode soltar um xixi mortal para o planeta? Por que eu não chacoalhei uma pilha na orelha da minha professora de química do colégio? Essa saia-justa era para ser dela! Tive vontade de responder: “pergunte para a mãe da sua amiguinha Júlia que é PhD em Química! Ela vai provar pra você que eu não sou mentiroso!” Também pensei em: “vá procurar no Google, seu espertinho! Você sabe melhor do que eu que é lá que estão todas as respostas do mundo!” Mas por fim optei por uma saída adulta:
– Vamos brincar de carrinho?
– Vamos!!!
Ainda sinto que devo uma aula de química ao meu afilhado. De qualquer maneira, entendi finalmente o aviso das embalagens de pilhas: “mantenha longe do alcance de crianças”.
09 dezembro 2008
Os reverendos do calendário
Um desses ainda vai pegar você no confessionário e arrancar um a um todos os seus pecados! O calendário foi uma decisão prafrentex da Santa Sé que com isso deve atrair não só as moças à Igreja, mas uma imensa comunidade gay até então discriminada pelo santo führer. Os reverendíssimos aparecem em poses canônicas e com olhares penetrantes que estimulam a conversão. Trajam batinas negro-asfalto desenhadas pelo estilista Armando Pepino no século XVI. O talento desse artista é notado pelo corte das peças que deixam transparecer o alongado desenho de Pepino.
As beatas que já adquiriram o calendário dizem que será impossível chegar até abril sem ter sonhos proféticos com os padres de janeiro e março. A fiel Giovanna Peluzzo, por sua vez, não vê a hora de chegar novembro de 2009, mês da graça do padre David, “aquele monumento do altar! Um corpo desses salva qualquer alma,” medita a devota.
O Diário da Tribo lança agora uma campanha para que freiras-gatas posem descalças em cenas de penitência. O novo calendário ajudaria a preservar um segmento da sociedade em vias de extinção, o dos heterossexuais do sexo masculino. De quebra, os olhares inconfessáveis das madres Teresas vão reacender o desejo de voltar ao seio da madre Igreja. Jogue o calendário da Pirelli no lixo, e encha com santidade a sua borracharia! Amém e aleluia!
04 dezembro 2008
Diálogo do Natal Passado
- Filho, aconteceu uma tragédia. O seu presente estava num trenó que desapareceu enquanto sobrevoava a região amazônica no caminho para cá. Parece que o transponder do trenó era de brinquedo e, por isso, o Papai Noel não percebeu que um avião Bandeirante vinha em sua direção e...
- O trenó bateu?!
- Isso mesmo, meu filho, o Bandeirante está inteiro, mas o lote de presentes se perdeu na floresta. Ainda não se têm notícias do Papai Noel.
- Não!!! E o meu presente? Você não pode comprar o meu presente numa loja? Este ano eu tinha pedido o Banco Imobiliário!
- Infelizmente eu não posso, meu filho. A lei é clara: quem dá presentes no Natal é o Papai Noel. Eu não tenho autorização para dar presentes pra ninguém nesta época do ano. O papai poderia ser preso por exercício ilegal da profissão de Papai Noel. É isso que você quer?
- Não. Quer dizer... mas se você for preso depois de me dar o presente, eu vou poder ficar com ele, né?
- Só se eu já tiver pagado a loja! Se eu estiver na cadeia, não vou conseguir pagar as prestações do Banco Imobiliário.
- Mas, papai, não é justo! Devia ter uma lei deixando a gente comprar presentes se o Papai Noel não puder trazer. Como um juiz pode deixar na cadeia um pai que compra um presente pro filho?
- Meu filho, preste atenção no que eu vou dizer: um dia você dará um jeito de ter o seu próprio banco. E quando isso acontecer, você vai fazer as suas leis e nenhum juiz do mundo vai dizer que você está errado e nem vai deixar te prenderem.
- Mas eu quero o meu banco agora...
E saiu contrariado pensando nas hipotecas, aluguéis e multas fictícias que deixaria de ganhar em seu joguinho novo por causa de um estúpido acidente aéreo.
E o pai ainda gritou pra ele:
- E não espere muito nos próximos anos! Parece que as chances de encontrarem o Noel com vida são muito pequenas...
A mãe, que ouvira toda a conversa atrás da geladeira, aproximou-se do marido:
- Você tem certeza que fez a coisa certa?
- Claro! Fique tranqüila. Isso vai fazê-lo ficar mais forte. Nosso filho ainda vai aparecer nas capas de todos os jornais! Anote isso! Esse Danielzinho Dantas vai nos dar muito orgulho!
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Mensagem de Natal do Diário da Tribo:
Para que o seu capetinha de hoje não se torne o salafrário de amanhã, presentei-o com o bestseller "O Vendedor de Palavras", à venda nas boas redes mundiais de computadores.
27 novembro 2008
O Diário da Tribo virou livro!!!
O lançamento mundial está marcado para a semana que vem e as encomendas já podem ser feitas pelo site da editora Baraúna.
São 40 das melhores crônicas humorísticas que já fiz entre publicadas neste nobre Diário da Tribo e outras inéditas.
O Vendedor de Palavras - Crônicas de um país de tanga na mão e corda no pescoço é o Diário da Tribo feito para você ler no ônibus, no metrô, na fila do supermercado ou no conforto e tranquilidade do seu vaso sanitário. Compre já o seu! Apenas R$19,50.
14 novembro 2008
Os cadernos da contrabdução
Depoimentos de ETs vítimas de terráqueos
Era uma tarde estrelada de domingo. Estávamos passeando por Orion XT 4753 quando papai percebeu que o reator de seu novo Zébulon Ralóide estava ficando sem antimatéria. Ele nos avisou sobre o problema e avistou pelo retrovisor uma região periférica da Via Láctea que lhe parecia amistosa (para papai, todo o universo era amistoso!). “Vamos lá”, disse ele todo ansioso por conhecer um sisteminha planetário novo.
De longe avistamos uma bolinha azul pouco esfumaçada. Mamãe achou um tanto azul demais para o gosto dela e chegou a pedir para que papai estacionasse numa bolota vermelha um pouco antes. Papai lhe respondeu que era bobagem, que o azul era bem mais bonito e que o vermelho deveria ser superpopuloso, violento e todo poluído, problemas típicos da formação de vida não-inteligente. Não foi a primeira vez que papai se meteria em problemas por não escutar mamãe, mas com certeza foi a última.
Papai decidiu pousar numa zona de transição entre as áreas azul e bege do planeta. Esse é um procedimento padrão para avaliar de perto qual a superfície mais segura para descer. Foi aí que ele cometeu seu segundo erro, ele escolheu a área bege. Depois descobri que a azul era 100% líquida e habitada por seres inofensivos. A bege, bem menor, abrigava criaturas esquisitíssimas cuja impressionante periculosidade nós ignorávamos completamente.
O Zébulon pousou sobre uma elevação de onde se avistava uma espécie de antena branca em formato de cruz. Focando melhor o paraventoestelar do Zébulon, descobrimos depois que a antena era, na verdade, uma reprodução ampliada da espécie que habitava o planeta em uma pose de braços abertos.
Percebemos isso quando saímos do veículo. Umas doze criaturas, parecidas com a antena branca, cercavam a nave. Começaram a emitir sons muito estranhos e mamãe, sempre muito esperta, deduziu que aquilo era algum tipo de linguagem. “Não fale asneiras, mulher”, respondeu papai à hipótese de mamãe. “são só animais com fome. Pegue a caixa de lépigos crocantes e jogue para eles”.
Sempre mais sensata, mamãe não obedeceu e ligou o tradutor multiuniversal paralelo que sempre levava dentro da bolsa. Mesmo assim, só conseguiu receber palavras sem sentido: “Perdeu! Perdeu, mano! Passa a chave. A barca é nossa!” [a transcrição completa e precisa encontra-se anexada aos autos]. Ao ouvir a tradução, papai abriu um risinho de deboche, “Ainda tentando contato com a vida selvagem? Eu disse que são apenas grunhidos”, e jogou um pacote de lépigos na direção da cabeça daquele que imaginou ser o chefe do bando. Foi aí que a coisa ficou feia.
O bando começou a disparar rajadas de mini-setas metálicas. Papai teve o corpo inteiro atravessado por elas e vi mamãe levar uma no tórax e ter todos os seus três dedos da mão esquerda arrancados por uma das setas. Eu voltei assustado para o banco da frente do Zébulon, e apertei o botão de emergência. O veículo abriu o portal de retorno e disparou de volta para casa.
Nunca mais vi meus pais. Anos mais tarde, recebi um relatório da última missão de observadores que passou pela região. Dizia que mamãe estava bem e tinha sido eleita deputada estadual com a ajuda do pessoal que atirou nela. Papai estava respirando por aparelhos num lugar chamado Souza Aguiar. Em sua ficha, ele estava identificado apenas como “desconhecido. Integrante do bloco Caras do Outro Mundo”.
Depoimento de Galigórnion Y Zptxon Jr., filho de Landríktcia Y e de Galigórnion Zptxon.
Se você também tem algum parente ou amigo vitimado pelas criaturas abomináveis da Terra, envie sua comovente história para a gente.
30 setembro 2008
O porco do Cansado
Pois voltemos ao porco. Estava ele a caminhar pela rua e arfar o focinho sem, contudo, abanar o pequeno rabo espiralado. Não sei do conhecimento de anatomia suína do leitor, mas talvez seja adequado esclarecer que, devido ao formado da cauda ou quiçá à ausência de musculatura específica para tal fim, os porcos não costumam contar com uma grande coordenação rabial. Por isso, o rabo balança apenas com o chachoalhar do lombo ao qual se prende sem nenhuma interferência voluntária do animal. Feita a explanação biológico cultural, o fato é que o porco, ao contrário dos outros animais do Cansado, despertava não somente a piedade dos vizinhos, como também a gula de um deles.
Pança, que também tinha outro nome de batismo esquecido pelo tempo, começou a lançar olhos para o porco. Foi quando o bicho começou a crescer e a engordar com os cuidados do povo. De leitão magro de cofrinho de quermesse, o dito criou bochechas e dobrinhas tornando-se um belo e rechonchudo porco, digno de entupir as artérias do mais glutão americano comedor de bacon. Há semanas, Pança só enxergava um lombo com farofa passar em frente de sua varanda todo fim de tarde. Aquilo era tentação demais para quem não tinha nem para o colchão-duro do açougue da esquina.
Um belo dia, o gordo Pança decidiu atrair o belo e gordo porco. Pegou os melhores restos de comida do almoço colocou-os numa lata e a esquentou para que cheirasse por todo o quarteirão. Em pouco tempo, uma silhueta suína apontou no horizonte, no começo da rua, e aproximou-se saltitante, sem perder, porém, a pachorra indispensável à peculiar porquice. Bem em frente à casa do Pança, o focinho arfou frenético, parou o porco que vinha bem atrás dele e o direcionou ao portão do Pança, que estava aberto. O larápio levou o porco para os fundos da casa. E ninguém mais soube do porco do Cansado. Daquela noite em diante, a vizinhança ouviria uma gritaria infernal entre o Pança e a sua mulher. Ninguém entendia por inteiro as frases do arranca-rabo, mas entre um palavrão e outro eram nítidas as palavras "porco" e "cansado".
Por fim, numa madrugada sem lua nem estrelas, um grito estridente, rápido e contorcido foi ouvido da casa do Pança. Ninguém foi ver o que era. Alguns fizeram uma prece de despedida e até choraram pelo porco do Cansado. Naquela noite não houve gritaria. Na manhã seguinte, a mulher do Pança passou de porta em porta avisando que haveria feijoada no almoço, que todos estavam convidados e que não, ela não precisava de ajuda, faria tudo sozinha na cozinha, mas que não faltasse nenhum vizinho porque a comida era muita.
E lá estavam todos. Sentados em uma longa mesa no meio da rua, os vizinhos se acomodaram fitando a mulher do Pança com olhares acusadores, mas sem falar nada para não perder aquela refeição de aroma inebriante que já invadia todas as casas. Nada menos do que cinco panelões cheios foram enfileirados na mureta da casa do Pança. Quando todos se sentaram, uma criança foi a única que notou uma ausência na mesa e perguntou à cozinheira: "onde está o Pança?" A mulher virou a cabeça como se olhasse para a própria casa: "ele se foi! Estou comemorando a minha separação!" respondeu a mulher com descaso. E ninguém mais no bairro soube do homem.
No mesmo dia à tarde, alguns vizinhos foram à casa do Cansado motivados pela estranheza de ele não ter ido reclamar do assassinato de seu porco e nem ao menos reivindicar seus restos mortais na feijoada. A porta, como sempre, estava aberta. Bateram nela. Ninguém apareceu. Entraram e o cheiro de fezes de animais quase os derrubou. Encontraram no quarto um esqueleto em cima da cama. Estava perfeitamente limpo e com várias marcas de dentes que pareciam ser de um porco. "Enfim, descansou!" foi só o que um deles disse.
Dias depois da inesquecível feijoada de despedida do Pança e da descoberta arqueológica na casa do Cansado, um berro foi ouvido na casa que patrocinara o regabofe. A ex-mulher do Pança havia saído para o trabalho, de modo que a casa deveria estar supostamente vazia, e os gritos, supostamente extintos. Os vizinhos mais intrépidos encostaram o ouvido na porta da casa do Pança e bateram: "tem alguém aí?" Como resposta, ouviram um nítido e indefectível "óinc!".
25 setembro 2008
O Saci
Saci (Pernetus pulantis)
Originário das florestas supra-tropicais e meso-equatoriais de altitude mediana do Brasil, o saci é uma criatura afrodescendente enquadrada como portadora de necessidades especiais por lhe faltar um dos membros inferiores – geralmente uma das pernas.
A espécie se caracteriza por uma carapuça rubro-sangue da cor vermelha viva puxando para o escarlate. O saci é tabaco adicto consumidor de grandes quantidades de nicotina e de outras ervas maneiras que auxiliam na descontração e no desanuviamento das idéias sacízicas. Como entidade folclórica espada, ele jamais enrola (ou leva) fumo, prefere socá-lo no pequeno orifício de um cachimbo que não sai de sua boca nem durante o exame de próstata.
Até meados do século XX, suas comunidades viviam de atividades assombrativas rurais quando passaram a receber direitos pelo uso de imagem nos livros de Monteiro Lobato. Com a adaptação dessas obras para a TV, alguns sacis entraram para a folha de pagamento da Rede Globo como figurantes ou intérpretes de si mesmos. Conhecida como época áurea do sacizado, o fim da década de 1960 colocou os “coisa-cuisins” globais nas baladas no Leblon e em bundalelês nos apês de Walter Clark, acompanhados por Dona Benta, Sinhá Anastácia e Tio Barnabé.
Com o encruamento da ditadura militar, os sacis entraram para a lista de perseguidos por comunismo do SNI, especialmente por causa da cor de sua carapuça. Muitos foram torturados e obrigados a ficar de três sobre tampinhas de Grapete. Outros foram extraditados para a Europa onde lecionaram na escola de Magia e Bruxaria de Hogwartz, na periferia de Londres, e acabaram servindo de inspiração para outro extraditado folclórico compor a canção London, London.
De volta ao Brasil, após a anistia, os sacis jamais conseguiram se recolocar. A Rede Globo já era dominada pelas mulas-sem-cabeça que narravam jogos de futebol, corridas de Fórmula 1 e apresentavam programas dominicais de auditório com meninas de biquíni equipadas com peitos balançantes. Para piorar, as novas leis anti-fumo, que proíbem a tragada em locais públicos e privados, igrejas, casas de tolerância e de burlesco, áreas de proteção ambiental e regiões tombadas pelo patrimônio histórico e arquitetônico, deixaram aos sacis pouquíssimos habitats disponíveis para a sua procriação. Refugiados em comunidades quilombolas, esses encarapuçados sobrevivem hoje com o auxílio bolsa-família-perneta. Os que se abrigaram nas periferias dos grandes centros vivem de pequenos furtos e de uma vergonhosa aposentadoria por invalidez.
15 setembro 2008
O banco que é a cara (do trânsito) de São Paulo
Não tenho nada contra os bancos. Na verdade, eles rendem excelentes crônicas. Principalmente quando não atendem a gente. Pena que eles não gostem tanto assim de mim. Não é nada pessoal. Creio que eles até me amem, porque são os que mais escrevem cartas pra mim. O que eles não suportam é a quantidade de dinheiro que eu deixo neles. Acho que isso os irrita tanto que os únicos "seres" que costumam me atender é a internet ou a voz eletrônica do telefone. Via de regra, não há uma vivalma para falar comigo.
Esta crônica é fresquinha. Nasceu hoje à tarde na fila do banco. Eu tinha muitos outros serviços para fazer, sim senhor. Graças à Nossa Caixa, eles acumularam para amanhã e vocês ganharam isto:
(Fábio Reynol - De uma agência da Nossa Caixa) - Acabo de completar meia hora de espera no banco Nossa Caixa. Estou na fila do atendimento tentando encerrar a minha conta corrente. Se eu não fizer isso agora, corro o risco de entrar para o rol de devedores que não pagaram tarifas as quais eles nem sonhavam que existiam. Este mês, por exemplo, perdi vinte reais a título de "recadastramento". Culpa minha. Esqueci de fechar a conta a tempo.
Por falar em tempo, agora já são 40 minutos de cadeira. O suficiente para eu digitar este texto no teclado minúsculo do celular. A demora seria por falta de atendentes? Não creio. No momento há apenas uma mesa ocupada com um cliente, porém, existem outros cinco funcionários para “atender”. A atendente que está à minha frente sentou em sua cadeira há 20 minutos, passou dez organizando uma papelada, dois atendendo o próximo cliente da fila, mais dois rabiscando papéis e até agora está falando ao telefone.
Ao lado dela trabalha um rapaz. Quando eu cheguei, ele estava com uma cliente, mas a mulher saíra de sua mesa há 20 minutos. Ele foi então à impressora, do lado oposto da agência, olhou a pilha de senhas e voltou para a sua mesa onde rabiscou três folhas de papel, passou mais cinco minutos digitando algo no computador e sacou o telefone. Juntou-se à sua colega e ficou ligando para clientes. Por sinal, a maioria dos destinatários não estava. “Posso ligar em outro horário?” “Será que ele pode me retornar?” “O senhor não sabe se ela se interessaria em...” foram algumas das conversas que eu consegui ouvir. Parece que os clientes que não se dirigiram ao banco não estavam querendo ser atendidos. Enquanto eu e mais três panacas que estavam precisando do serviço éramos magnificamente ignorados pelo setor.
Além desses, havia uma terceira atendente que conversava com uma senhora quando eu cheguei. Quando a cliente foi embora, a funcionária se perdeu no fundo da agência. Voltou há cinco minutos, sentou um pouquinho, rabiscou também alguns papéis (deve haver algum bônus oferecido pelo banco por isso) e, como num milagre, chamou a próxima senha, ainda bem longe da minha.
Porém, entre os funcionários do atendimento, a que mais me tem chamado a atenção é uma quarta mocinha que, durante esses 45 minutos em que eu estou aqui, está... atendendo! Tudo bem que ela está com o mesmo cliente durante todo esse tempo, mas mesmo assim é reconfortante ver um trabalhador fazendo o seu trabalho. É como ver um padeiro fazendo pão e a polícia prendendo bandidos. Coisas raras no Brasil. Se entre cada quatro brasileiros, um fizesse digna e honestamente o seu trabalho, estaríamos com a cadeira do Canadá no G8. Mas não posso dizer se a moça era realmente esforçada ou se o caso era difícil demais para ela dispensar o cliente e se juntar ao atendimento telefônico - modalidade muito mais tranqüila do que olhar para as caras feias dos clientes da agência.
Desde que cheguei só ouvi chamarem a primeira senha após 15 minutos de cadeira. O pior: cantaram o número “336”; o meu era o “444”! Se eles demorassem quinze minutos para chamar cada cliente eu seria atendido em duas horas! A coitada que esperava ao meu lado me acalmou: “a maioria já desistiu e foi embora!”, avisou-me aliviada. Ufa! Sorte minha que os bancos de hoje são somente para os heróis da resistência ou para os caras-de-pau que ficam digitando crônicas no celular.
Opa! Acabaram de chamar a minha senha, 50 minutos cravados!
“Eu gostaria de encerrar a minha conta, por favor.”
“Mas por que o senhor quer fazer uma coisa dessas???”
“Posso responder por escrito?”
26 agosto 2008
As pessoas e as coisas
Essa atitude de consumo pertence a uma multidão que vai às lojas semanalmente tentar tapar buracos interiores com as últimas novidades do mercado. O fetichismo cresce pari passu com o aumento do número de quinquilharias à disposição nas vitrines. Em tudo o que compramos existe algo que a publicidade não conta e que não vem discriminado na nota fiscal, é por que compramos. Por trás de cada produto adquirido ou serviço contratado há um motivo único e pessoal que ultrapassa a finalidade prática daquilo. Uma calça é muito mais que uma calça se ela vier com uma etiqueta vistosa de uma marca famosa. A qualidade do produto em si fica para um segundo ou terceiro plano. Quer fazer um teste? Você compraria uma calça de grife e retiraria a etiqueta externa? Afinal, a calça é a mesma, a qualidade, idem, mas o fetiche estaria desfeito.
A distorção do consumismo, poucos percebem. Só usamos a calça jeans de dois mil reais para mostrar aos demais passantes que temos poder para ostentar aquela etiqueta na nádega. A publicidade prega que a marca lhe empresta o prestígio global da empresa. Porém, o que ocorre é o oposto. A corporação usa gratuitamente o seu espaço glúteo-publicitário, e até o seu prestígio que você não acredita possuir, para vender um peixe que não é seu. O pior, você pagou caro para disponibilizar a sua bunda-propaganda. Muito mais do que o “excelente corte” e o “maravilhoso tecido” que você usa como argumentos para justificar a compra, você está atrás é do valor que a marca comercial poderia agregar à sua imagem.
E por que nos sentimos “mais” se estamos com um tênis “X” ou com a camisa da grife “Y”? A resposta é simples: porque não conhecemos o nosso próprio valor. O mercado nos ensina que competência é dirigir um conversível, respeito é o que se tem ao vestir etiquetas famosas e admiração é o que você recebe ao ver as horas num mostrador de platina e diamantes. Sem essas coisinhas fundamentais, você é apenas uma pessoa como outra qualquer, mesmo que não exista no mundo inteiro uma pessoa igual a outra qualquer.
Preferimos acreditar que compramos sempre aquilo de que precisamos, mas isso não é verdade na maior parte das nossas expedições aos shoppings centers. Por trás de muitas bolsas novas estão relacionamentos mal resolvidos, por trás de carrões caros e potentes estão inseguranças inconfessáveis, por trás de trajes vistosos estão frustrações recalcadas e quantas inutilidades eletrônicas servem de catarse para dores que não queremos enfrentar?
Você não consegue se livrar disso? Pelo menos olhe para o último supérfluo que você adquiriu e reconheça o que realmente quis comprar. Com o tempo, você vai aprender a dar o devido valor a cada coisa e a distinguir poder aquisitivo de caráter. Se tiver perseverança, vai encontrar tesouros reais e, se tiver sabedoria, não os perderá. Se esse dia chegar, um celular será apenas um celular, mas você será muito mais do que apenas uma pessoa.
12 agosto 2008
Arrumando as malas
Olhou para o apartamento vazio e viu que ainda tinha muito. Abriu uma conta conjunta com o seu filho mais velho. Tirou todo o dinheiro que tinha em sua própria conta bancária e a encerrou. A nova conta o sustentaria pelos próximos quatro meses e o que sobrasse, o filho daria cabo. Pôs à venda o próprio apartamento, impôs como única condição que desocuparia o imóvel depois de seis meses. Encontrou um comprador interessado que lhe adiantou metade do dinheiro, passou esse valor à moça da faxina do condomínio, para que terminasse de construir sua casa. A moça chorou quase sem acreditar no que estava acontecendo. A metade final do pagamento, dizia o contrato, deveria ser dividida em partes iguais e paga diretamente aos filhos.
Olhou para o seu amado carrinho, que por tanto tempo o acompanhou. O pequeno bólido foi reformado, pintado, recondicionado, todo forrado em couro e minuciosamente lavado e cuidado. O que faria com ele? Encontrou um colecionador metódico que cuidaria dele e por um bom preço o vendeu. Doou o valor a um asilo, para que acalentasse os que não tiveram a mesma sorte de poder morrer na melhor fase da vida.
Estava, enfim, sem amarras nem apegos. Completamente livre e preparado para o seu destino e, como nunca antes em toda a sua vida, estava imensamente feliz. Ficou imaginando por que só agora ele havia descoberto a verdadeira felicidade. “Tanto tempo perdido!”, pensou. Mas o prazo para a morte chegar passou e ela não veio. Resolveu então voltar ao médico para saber se ainda haveria um ou dois meses de prorrogação de seu restinho de vida. Qual não foi sua surpresa quando o médico voltou com seus exames e disse que a doença mortal simplesmente desaparecera de seu corpo. Ficou esfuziante, completamente feliz, tinha encontrado enfim, o sentido da vida e, com mais anos à disposição, poderia falar disso ao mundo e fazer as pessoas felizes. O mundo seria outro quando descobrisse a alegria que ele sentiu. Saiu do consultório em disparada, olhou para a sua vida toda que passava diante de seus olhos, mas não olhou para os lados ao atravessar a rua. Foi atropelado por um caminhão sem freio que descia em disparada. Morreu na hora. O motorista do caminhão estava sóbrio, mas o mecânico que reparou os freios, não.
11 julho 2008
Extraordinário: Brasil está com um banqueiro na cadeia!

13 junho 2008
As celebrações da vida
O que eu poderia dizer? 51 anos é mais do que eu já vivi. Por um instante me imaginei partilhando a vida e salsichas com alguém por mais de meio século, mas o homem voltou a desabafar comigo: “Não tem nenhum dia em que eu não pense nela. É duro, viu? Não é só a salsicha, ela fazia uns doces maravilhosos. A menina que trabalha lá em casa também faz, mas não é a mesma coisa.”
Não, não é. Ele sabe que não são doces nem salsichas que lhe fazem falta, mas a pessoa a quem essas coisas remetem, alguém com quem partilhou 51 anos de caminhada e que não voltará. Mesmo assim, ele precisa jantar salsichas e comer doces para celebrar os momentos que ele teve e que atestam que ele viveu.
Todos nós precisamos de celebrações próprias para marcar alegrias e tristezas, celebrações de chegadas e de adeus. O problema é que não temos esse costume. A internet, o telefone, o shopping center acabam se tornando os altares para expurgar nossas dores. Não temos uma celebração para o fim de um namoro, para um divórcio, para a perda de um emprego nem para os pais que sofrem um aborto, por exemplo.
Quando sofri o fim de um lindo namoro, minha amiga Beth percebeu o tamanho da minha dor e se ofereceu para, no Dia dos Namorados, fazer sua especialidade na minha casa, uma lasanha com manjericão. Com a minha mãe, compramos juntos os ingredientes e cozinhamos aquele prato. Em volta de uma bonita mesa, comemos e bebemos. Sempre debochada, Beth tirou sarro da minha situação, fez piada da vida e nos empanturrou com uma maravilhosa massa. Ela foi a sacerdotisa daquela celebração que marcou o fim de uma bela parte da minha vida. Revigorado, recobrei esperanças, realimentei sonhos, continuei a vida e vivi histórias ainda mais belas do que aquela que havia deixado para trás.
A partilha do pão com os amigos é a nossa maneira de agradecer aos céus por tudo de bom que vivemos, tudo de belo que somos e tudo de importante que perdemos e tivemos de deixar para trás. Levantar uma taça de vinho serve também para encerrar algo maravilhoso que vivemos e já não temos, não para lamentar, mas para transformá-los em tinta a fim de escrever capítulos ainda melhores que os passados, mesmo que nunca iguais. Nossos banquetes de despedida devem celebrar a vida e dizem mais a nós mesmos do que a qualquer outra pessoa. Por isso, o prato principal pode ser caviar, pizza, lasanha ou salsicha.
10 junho 2008
A assombração de J. Anhaia
Na mesma hora, seo Jota fez o que qualquer pessoa faria naquela mesma situação: tentou um contato telepático com a lâmpada. “Dizei o que quereis!” perguntou à ditacuja. Estava meio envergonhado, pois há muito não conjugava nada na segunda pessoa do plural. Acabou se sentindo orgulhoso por ainda lembrar como se fazia isso. Sabia que um dia na vida usaria aquela forma verbal que a maioria dos colegas achava inútil. Ele, porém, o mais esperto da turma, sabia que aquela era a conjugação adequada para se falar com Deus e com o Além. Como o Todo Poderoso não tinha muito tempo para prosear com ele, precisou desse contato sobrenatural para seo J. desenferrujar o verbo. Sem obter resposta, repetiu: “Dizei o que quereis!”. A lâmpada respondeu como toda lâmpada de fino trato responderia, com o mais absoluto silêncio. O leitor há de convir que eu não me daria ao trabalho de escrever essa história se ela terminasse por aqui. De fato, não termina.
O caso é que, na noite seguinte, um pouco menos bela do que a sua antecessora, a rotina de cutucar, deitar e piscar se repetiu. Mais uma vez, seo J. tentou conversar telepaticamente com a lâmpada, porém, agora de um modo mais eloqüente: “Dizei o que quereis, oh lâmpada!” O “oh lâmpada” era outro resquício dos tempos de grupo escolar. Até se lembrava do nome daquilo, “vocativo”. Jamais esquecera a sua mestra nas primeiras letras, dona Elzinha, dizendo que o pomposo “oh” era coisa de linguajar chique e sempre indicava o tal vocativo. Mirando a lâmpada, sentiu-se imensamente feliz por ainda estar afiadíssimo no português a despeito das décadas que passou longe dos bancos escolares. Foi bem quando ele estava nesse êxtase lingüístico, sintática e semanticamente relaxado que a lâmpada, que dessa vez deve ter percebido que era mesmo com ela, resolveu responder. “A tua alma!”, disparou a marota enquanto ainda piscava quase estourando os cátodos de tanto rir.
Seo José quase teve uma parada cardíaca. Com o coração disparado, fitava o teto piscante esperando ver a qualquer momento o anjo da morte. A essa altura, a lâmpada já sentindo sua consciência luminosa pesada, não respondeu às demais tentativas de comunicação de seo J. e até parou de piscar. Sem mais nenhuma novidade, seo José resolveu apelar para o bom senso e pensar que aquilo era coisa da própria imaginação. Virou de bruços e dormiu. Uma semana depois, cansada do marasmo, a lâmpada resolveu voltar a piscar só para espantar o tédio. Seo J. já recomposto do primeiro susto, sentiu-se determinado a encarar o próprio destino, e fez a mesma pergunta sem dispensar os rococós lingüísticos: “Dizei, novamente o que quereis, oh lâmpada!” “Tua alma, oh José!” (a lâmpada também havia gostado desse negócio de vocativo). Com o coração na mão, seo José enfrentou o medo e começou a perguntar à lâmpada o porquê daquilo, quando seria a sua hora e todas aquelas perguntas que qualquer pessoa faz quando a lâmpada do seu quarto avisa que chegou a sua hora. Por sua vez, a lâmpada se divertia dizendo que se conformasse, que a vida era daquele jeito mesmo, que ninguém fica para semente, que não estava autorizada a revelar a data e a hora exata da partida e por aí afora. Uma bela amizade telepática estava nascendo.
Quando a lâmpada já achava que finalmente tinha encontrado um amigo, a coisa degringolou. Na noite seguinte, a neta de seu José entrou no quarto para pegar os chinelos do avô. Ao apagar a luz, a menina notou o pisca-pisca frenético da lâmpada e gritou na hora para seo J.: “Vovô, essa é uma daquelas lâmpadas vagabundas que a companhia de energia distribuiu?” “É, minha filha, por quê?” “É que lá em casa essas porcarias também nunca apagam. Ficam piscando a noite toda!” Na mesma noite na hora de dormir, a lâmpada, magoadíssima por ter sido chamada de vagabunda e de porcaria, resolveu botar um fim naquele relacionamento. “Morrerás hoje, José Anhaia!”, disparou sem dó, a ofendida. “Anhaia?!” Respondeu seo J. assustado, “mas meu nome é José Divino!” A lâmpada emendou: “Desculpe, foi engano! Assombrei a pessoa errada!” E, sem dar mais explicações, ela parou para sempre de piscar e de teleprosear.
27 maio 2008
Ao contrário de seu trânsito, Sampa não pode parar
Mais imóvel que os imóveis
Morar no carro não seria tão ruim. A estado poderia extinguir, por exemplo, o IPVA na capital, já que o “V” do imposto refere-se à palavra “veículos” o que passa a idéia errônea de locomoção. Os carros paulistanos passariam a pagar IPTU, o imposto que incide sobre os imóveis. Esse tributo está tão desatualizado que na época em que foi criado os carros realmente andavam, inviabilizando a cobrança. Hoje, porém, eles costumam se mover menos que as balançadinhas das construções durante o último terremoto.
Em São Paulo, encontrar uma pessoa no trânsito é mais fácil do que achá-la em casa. Primeiro porque qualquer paulistano que ponha o nariz para fora de casa passa mais tempo no meio de transporte do que em casa. Depois, no caso de cobranças, é impossível falar com o morador em sua residência. Por outro lado, no trânsito de São Paulo, ele não tem para onde fugir e pode ser rapidamente localizado pelo motoboy cobrador. Caso o devedor não pague, o motoboy ainda leva o retrovisor como garantia.
Os endereços seriam práticos e diretos: “Monza preto, DTW 7903, trajeto Moema-Vila Carrão, Capital.” Sem casas de alvenaria, haveria mais espaço para mais carros ficarem parados no trânsito. Os donos de kitnets mudariam para um Fusca, os milionários trocariam suas coberturas por amplas Kombis motor-homes e a classe média sonharia em morar num Corolla Fielder dentro de um estacionamento fechado com portaria 24 horas.
A única construção residencial a ficar em pé seria a mansão de Nicolau dos Santos Neto. Impedido pela Justiça de enfrentar o trânsito infernal da cidade, Lalau é obrigado a se virar da melhor maneira que pode nos 18 hectares de sua propriedade. Ele poderia substituir sua casinha por uma limusine com piscina e ofurô, mas ele iria se sentir numa prisão, coitado!
08 maio 2008
Ronaldo e os travecos: mais um caso de comoção nacional
O nosso ídolo foi encontrado com três travestis totalmente equipados com munição real e sem medo de usá-la. Os contratados afirmaram que o atleta demonstrou de maneira magistral a sua já famosa intimidade com a bola. Naldinho, por sua vez, disse ter dado pra trás assim que viu o grande problema em que se metera. Já os três vestis responderam que foi justamente ao perceber enormidade do problema em que fora metido que ele optou, por livre e espontânea vontade, em dar pra trás.
Ronaldo segue tranqüilo, ciente de que fez a coisa certa. Enquanto seres iningravidáveis, os travestis podem meter o jogador em muita saia-justa, mas jamais lhe meterão um DNA. As cachorras de plantão podem tirar seus ovulinhos da chuva e suas perseguidas da reta. Lucianta Gimenez está inconsolável, terá que sobreviver de programas intelectuais de auditório e da ridícula pensão de Mick.
O mais fabuloso dessa história é a revista Veja ter dado uma capa para discutir para que lado Ronaldo gosta de dar e a Globo ter conseguido uma exclusiva para ouvir o arrependimento e as dores provocadas pelas boladas. E o País se comoveu ao saber como seus ídolos se divertem e onde a imprensa vai buscar assunto para discussões tão cruciais para o destino da nação.
24 abril 2008
O equivocado despertar do Inconformismo
Os poderosos roubaram ambulâncias, construíram palácios, criaram impostos, desviaram dinheiro, tiraram vidas, mantiveram privilégios. O povo doente foi a pé aos hospitais falidos, construiu barracos, tapou buracos, juntou as sobras e na cabeça levou. O Inconformismo deu uma roncadinha e virou para o outro lado.
Os poderosos criaram uma guerra dentro do país. O povo ficou na linha de fogo. Chacinas viraram rotina. Granadas e balas cruzaram as cidades. O Inconformismo quase acordou com os tiros, esboçou um bocejo, mas voltou a ressonar.
Quando tudo estava dado por perdido e a Esperança já estava na sala de embarque do aeroporto, algo surpreendente aconteceu. Uma criança branca da classe média foi morta. Não pela guerra das ruas, mas por uma muito particular e mal resolvida. Dessa vez, num só movimento, o Inconformismo saltou da cama e correu para a rua.
Muitos que nunca haviam gritado na frente dos palácios em defesa da própria dignidade, tiraram o pijama, saíram de suas casas e foram à porta da delegacia só para gritar “assassinos” a dois desconhecidos condenados pelo senso comum.
Furibunda, a Sensatez, que nunca havia conseguido acordar o marido, olhou pela janela e berrou:
- Que raio você está fazendo aí fora?
Com a cara mais lavada do mundo, ele respondeu:
- Te troquei por outra!
A Sensatez morreu na hora enquanto o Inconformismo e a Incoerência se enlaçaram num beijo apaixonado.
18 abril 2008
Casas Abadia
- Que cueca que nada, o Amador que se vire com as dele, eu fui é atrás de uma plasma, mas saí foi com um prendedor de roupa da Nike fabricado na China. Quando eu entrei já não tinha nada que prestasse.
- Eu saí com duas cuecas Pierre Cardin que devem ser carérrimas na França! Fiquei até com dó de dar pro Nivaldo. É muita cueca para pouco recheio.
- É ruim, hein! Eu é que não agasalho aquela mixaria do Amador. Vou é esperar a liquidação da Maria do Pó, deve ter muita calcinha de responsa por lá.
- Sério? Me avise que eu vou também, as minhas estão com mais rombos que a Previdência! E o Nivaldo que encasquetou que quer o saca-rolha do Cafofo do Reitor, pode? Eu é que não vou pra Brasília só para comprar um saca-rolha, né? Ele que espere a promoção do Rombo da Unifesp pra ver se sobra um por lá.
- Você já faz demais pro seu marido, se eu fosse você, mandava ele se virar com um abridor elétrico de lata do Nando Beira Mart.
- Eu vi um desses no shopping outro dia. Quase comprei.
- Você tá louca? Os preços de lá são um crime!
11 abril 2008
Terceirização de mentes
Querido brasileiro, vai aqui uma ajuda para você administrar melhor essa massa gosmenta e subutilizada guardada dentro de sua cachola, o cérebro. Não é de hoje que você terceiriza suas faculdades lógicas por comodismo, negligência ou pura preguiça. O que me incomoda, no entanto, não é a terceirização em si, mas os valores aviltantes que estão cobrando por ela. Há várias maneiras de deixar os outros pensar por você, por isso pelo menos pechinche na hora de escolher quem vai tomar as suas decisões. Veja aqui algumas das milhares de alternativas de terceirização cerebral. Pense bem e escolha a sua. Ou melhor, deixe que outra pessoa pense, apenas escolha a mais barata!
Igrejas
Preço: de 10% a 100% dos seus rendimentos
O serviço de salvação de almas é um dos mais dispendiosos para administrar a sua cabeça. O problema é que a maioria das denominações religiosas pratica a venda casada: só salva sua alma se você abrir mão de pensar por si. Muitas se baseiam numa alegada incompatibilidade fé x raciocínio, entendendo-se por fé a crença cega em tudo aquilo que a autoridade religiosa disser que é verdade.
Por esse motivo, a maioria delas também pratica outra irregularidade comercial, o monopólio da verdade. Como esse monopólio é o único praticado por várias empresas simultaneamente, o CADE não toma providências a respeito
Televisão
Preço: Obesidade, letargia, perda de capacidade analítica e de julgamento
Eis uma máquina perigosa. Se você ficar na frente dela por muito tempo vai notar (ou melhor, não vai nem perceber) que suas roupas, seu cabelo, seu almoço, seu modo de agir, suas gírias e até o seu ponto de vista saíram de dentro dela. Você já se sentiu inconformado com um escândalo de dossiês sem nem saber o que é um dossiê? A TV já dominou a sua mente. Já sentiu aquela inexplicável compulsão por uma blusa lilás? Dê uma olhada nos trajes da heroína da novela das sete. Você acha que o carro dos seus sonhos foi escolhido por você? Pare de assistir comerciais e o seu gosto vai mudar rapidinho.
Formadores de opinião
Preço: Injustiças civil e social, submissão e conformismo. País em posição de decúbito ventral.
Essa entidade amorfa e nebulosa que atende pelo nome de “formadora de opinião” faz exatamente o que o seu nome diz. Ter uma opinião própria exige um esforço mental descomunal para a maioria dos cidadãos desta terra. A solução mais prática é comprar uma opinião pronta. Sim, comprar. Ao contrário do que a maioria da população acredita, pegar a opinião alheia não sai de graça.
Escolher em quem votar, discernir o que você considera justo ou injusto e criticar informações em vez de absorvê-las são tarefas que não cabem mais a você, mas aos seus formadores de opinião. Políticos demagogos, donos de jornais e revistas, seus amigos e até o seu cunhado chato podem assumir o controle de suas decisões. Você nunca se perguntou por que aqueles que dizem representar você no Legislativo nunca defendem os seus interesses? Simplesmente porque eles estão trabalhando para os legítimos donos da sua opinião.
Você não quer mais ser explorado? Não existe milagre, terceirização sai caro mesmo. Avise seus contratados que você não precisa mais de seus serviços. Vai dar mais trabalho? Claro que sim. Agora você vai ter usar o livre arbítrio e tirar a bunda do sofá. Quando paramos de comer em restaurante, temos que começar a cozinhar em casa. Prepare a sua própria informação. Não aceite NADA pronto. Analise, julgue, debata e... pense! Isso dói menos do que você imagina. Você vai ver que a opinião feita em casa, dentro de sua própria caixa craniana, cheira melhor e é bem mais saudável.
Lição de casa
Dê uma espiadela na Argentina. O grau de autonomia intelectual também pode ser medido pelo número de panelas chacoalhadas nas ruas sempre que há uma decisão pública contra os interesses da maioria. Não foi na TV que os vizinhos do sul aprenderam que bater nas panelas é um modo de botar feijão dentro delas.
