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30 junho 2010

As arenas de 2014


As arenas de 2014
Fabio Reynol

O Brasil acaba de divulgar a lista dos sete estádios que serão construídos com IPI reduzido para a Copa de 2014 e da bola oficial do torneio do país do futebol que deixará a Jabulani com vergonha de ser tão redonda:

Macumbowl
Salvador (BA)
Imitando uma imensa tigela de oferenda cheia de pipoca, o Macumbowl terá um espaço exclusivo para despachos aos orixás atrás de cada gol. Uma praça de alimentação especialmente montada vai fornecer galinhas pretas, velas, cachaça e quiabo para caruru. Máquinas automáticas fornecerão acarajé e vatapá.
Batizado por um clã local de "ACM Forever", o Macumbowl será carinhosamente apelidado pelo baiano de "Forévis do ACM". Está sendo construído sem nenhuma pressa.

Trembão
Piranguinho (MG)
Batizado de maneira a indicar de forma inequívoca a sua localização, o Trembão será mais mineirim que o Mineirão. Ícone da mineirice nacional, esse estádio contará com uma bela fachada em formato de queijo meia-cura. Será a primeira arena do mundo com cobertura de doce de leite caseiro. Máquinas de cafezim espalhadas pelas arquibancadas manterão a torcida acordada em partidas emocionantes entre o XV de Jequitinhonha e o Atlético de Borda da Mata. Projetado pela iniciativa privada, será cem por cento financiado pela Casa do Pão de Queijo.

Piritubowl
Pirituba (SP)
Encravado no coração da borda extrema da periferia da cidade mais conurbada do Brasil, o Piritubowl será o orgulho de todo piritubano que poderá ceder sua garagem como estacionamento nos dias de jogo. A lonjura de sua localização permitirá a venda de pacotes turísticos aos torcedores que levarão de dois a três dias para chegar ao estádio se optarem pelo trem brasileiro de alta velocidade.

Beiramar
Bangu (RJ)
Ao contrário do que o nome sugere, o estádio fica a 80 km da praia mais próxima. Financiado pelas maiores empresas do Rio de Janeiro, o PCC e o Comando Vermelho, o Beiramar é uma homenagem a Fernandinho, um dos mais destacados homens de negócio do país. Será o único estádio de 2014 a contar com sistema de segurança particular. Vigilantes armados com granadas de mão, M16 e lançadores de mísseis garantirão a paz e a segurança dos torcedores segundo afirma o responsável pelo empreendimento, o gerente de operações Marquinho do Pó, “Num tem treta, manô, aqui é nóis!” garante o especialista.

Rombo Nacional
Brasília (DF)
Chamado de "Corruption Bowl" pelos estrangeiros, o Rombo será totalmente construído com dinheiro desviado da Previdência Social. Símbolo da moderna gestão brasileira, custará o equivalente a três viagens a Marte ida e volta com escala na Lua. Dotado de revestimento em mármore carrara, terá lustres de cristal baccarat e cinzeiros Prada especialmente escolhidos pela Reitoria da UnB. Toda a infraestrutura de acesso ao estádio será financiada pelo dinheiro obtido com a venda de deputados.

El Pinicón
Foz do Iguaçu (PR)
O primeiro estádio trinacional do mundo sairá de uma empreitada conjunta entre Brasil, Argentina e Paraguai com cada país fornecendo o que tem de melhor. A rigorosa pontualidade brasileira aliada à qualidade dos materiais paraguaios e sob a coordenação da simpatia argentina fará de El Pinicón a encarnação do retumbante sucesso do Mercosul.

Bomba Nacuia
Pelotas (RS)
Maior estádio de duplo sentido do mundo, o Bomba Nacuia será construído no formato de uma imensa cuia de chimarrão com uma ajumentada bomba encravada adentrando por sua abóbada. Será encimado por um gigantesco teto retrátil que abre e fecha, entra e sai, sobe e desce cobrindo e descobrindo a torcida e enchendo a gauchada de orgulho. Uma praça de chimarrão com bebedouros de água quente completarão essas nababescas instalações dos pampas.

As novas bolas Ardidas
Como reza a tradição mercadológica futebolística, em 2014 o Brasil terá a sua própria bola. Evolução da Jabulani, a verde-amarela Jabaculê será mais torta que a ética do Congresso Nacional em uma homenagem às saudosas pernas de Mané Garrincha. Será vendida com exclusividade por camelôs nos melhores semáforos do país. Falsificações poderão ser encontradas em lojas especializadas e adquiridas mediante módicas propinas.

25 outubro 2007

Uma Relação de Língua

É com o coração enxaguado nas águas do Tejo e aromatizado com as essências da bacia do Tietê (onde os paulistanos tomam seus banhos tchecos durante as enxurradas de março), que vos anuncio a maior parceria Brasil-Portugal desde que Felipão colocou Portugal acima do Brasil na última Copa e que Zeca Baleiro se juntou a Sérgio Godinho para ficar cantando as velhas que ainda dão no coro.

Menos famoso que Baleiro, o sudestino que vos escreve, Fábio Reynol, uniu letras com a luso-portuguesa menos rica que Godinho, Ana Pessoa, escritora-blogueira e tradutora nas horas vagas. Nasceu assim o projeto Brasil-Portugal, Uma Relação de Língua.

Radicada na Bélgica, Pessoana alimenta fantasias e o blog Belgavista. O nosso primeiro trabalho em conjunto é o folhetim "O fiscal", no qual intercalamos as autorias dos capítulos para assim acabar de vez com o mito de que Portugal e Brasil falam a mesma língua.

E aí? Vamos ficar com a língua de fora ou com a língua de dentro? Com vocês, o primeiro capítulo de "O fiscal":

O fiscal
Capítulo I – Fábio Reynol


Reticente e incomodado foi o fiscal de palavras ter com a portuguesa que usava mal, segundo ele, o português. Muito mais incomodado do que reticente, a bem da verdade, a ponto de deixar as reticências ao largo para atravessar a Rua Atlântica a fim de tirar satisfações com a mulher. A pedra no sapato do homem era um pedaço de papel de pão no qual a mulher havia escrito: “De facto, um óptimo negócio. Compre.”

Eis a razão da hesitação do fiscal: ele não era o destinatário do bilhete. Esse fato o transformava num intrometido e o colocava na obrigação de explicar como o papel que não lhe dizia respeito havia parado em suas mãos. Seu dever de defender a boa língua portuguesa, no entanto, falava mais alto do que a vergonha de assumir a própria indiscrição.

Outro empecilho dessa empreitada era a sua bizarra profissão que, pelo simples fato de ela não ser reconhecida por ninguém com exceção dele próprio, era motivo de chacota e desdém por aqueles que eram interpelados por um dito fiscal de palavras. Mas quanto a isso, ele já estava acostumado e não seria esse o impedimento para cobrar o zelo esperado de uma mulher nascida no nobre berço da língua.

Abra-se um parêntese necessário. A nomeação de um fiscal de palavras se dá, naturalmente, a alguém que conheça a língua, mas principalmente a uma pessoa que acredite que terá autoridade sobre as demais para cobrar e ver cumprir o bom uso da palavra. Em outras palavras, um louco. Fechemos o parêntese.

Lá foi ele, chapéu na cabeça e prova do crime no bolso. Esta obtida de maneira vil e ilegal, como já frisado. Atravessou a Atlântica sem molhar os pés e bateu na porta da casa sentindo ares de uma autoridade policial. A porta entreabriu-se.
- O que deseja? Respondeu a própria suspeita colocando a cara na fresta.

- Minha senhora, eu sou fiscal de palavras da língua portuguesa. Disse ele mostrando uma folha amarela e surrada, a mesma que tinha sido carimbada em cartório e que havia sido rejeitada pela secretaria da Academia Brasileira de Letras e rechaçada pela Embaixada Portuguesa em Brasília, ambas as instituições se recusaram a dar mais combustível a tal insanidade.

- O que deseja? Repetiu a mulher sem se dar ao trabalho de ler o conteúdo da folha.


- Este bilhete é de sua autoria? (continua no Capítulo II)


20 junho 2007

A Sala de Entrevistas Íntimas

Aconteceu numa dessas visitas de escolares ao Senado Federal brasileiro pelos idos de 2085:
- Aqui é a sala de entrevistas íntimas – explicava o guia sem apresentar um pingo de constrangimento. No início, sua face enrubescia nesse ponto da visita, todavia a convivência com os membros da casa o fez absorver e reproduzir com requintes de despudor os semblantes dos parlamentares.
- Para que serve a sala de entrevistas íntimas? Este era outro momento embaraçoso para o guia no começo de sua carreira. Em pouco tempo, porém, percebeu que pudor era um predicado não só indesejável naquele local como também era totalmente incompatível com qualquer função que pudesse lá ser exercida. Isso incluía as funções do presidente da casa às da mocinha responsável pelo cafezinho superfaturado lá degustado.
- Nesta sala – respondeu abrindo a porta - membros da imprensa e do Senado podem se relacionar trocando as mais íntimas informações sem riscos de serem interrompidos ou incomodados por uma CPI ou pela Comissão de Ética. Neste espaço, os membros são livres para um relacionamento franco, direto e aberto com os órgãos de imprensa. O guia adorava elaborar essas frases de duplo sentido. Era uma vingança em alto estilo à deputação em que se tornara o serviço parlamentar no Brasil (esta também era uma frase do guia).
- Por que uma cama? Mesa e cadeiras não seriam mais apropriadas? Perguntou outro aluno com uma falsa ingenuidade estampada na face. O guia já estava acostumado e preparado para perguntas muito mais capciosas do que essa.
- O mobiliário anterior era o de uma sala de reuniões padrão. Os parlamentares, porém, começaram a reclamar de terríveis dores nas costas. A gota d’água foi quando um senador de sobrepeso acabou arrebentando a mesa e caindo sobre a jornalista que o entrevistava. O microfone escapou incólume, mas a moça, coitada, teve outra sorte. Acredite, a imprensa fica furiosa quando quebram suas costelas. A repercussão negativa durou meses e fez a assembléia aprovar o novo mobiliário que também incluiu o banheiro com sauna e hidromassagem.
- Para quê o espelho no teto? Essa já foi uma provocação clara e grossa de outro pré-adolescente, mas que a experiência do guia já o fazia responder com elegância.
- O espelho? A imprensa tem a necessidade de olhar todos os ângulos da notícia. O parlamento, por sua vez, gosta de encarar quem lhe prende o rabo. Devolveu o guia, surpreso com a maestria da resposta recém-inventada e continuou o tour sem perder o rebolado: - É importante que vocês saibam que o Senado foi o pioneiro na adoção das salas de entrevistas íntimas. Esse modelo foi depois copiado pela Câmara dos Deputados, pelas assembléias estaduais e até por centenas de câmaras municipais por todo o país.
- Por que o Senado foi o primeiro? – agora o guia se espantou com a pergunta franca e sem malícias.
- Foi por causa de um problema do início deste século, quando um presidente do Senado se embaraçou ao ser descoberto pagando uma pensão a preço de ouro para uma filha que teve com a imprensa. Ele havia tirado dinheiro da própria propina, pedindo para seus lobistas fazerem o pagamento. A partir daí foi sendo elaborada uma legislação para o resguardo parlamentar que primeiro vetou o uso de verbas propinatórias no pagamento de pensões, depois foi promulgada a lei 523.724/2023, que instituiu a obrigatoriedade da vasectomia ou do ligamento de trompas parlamentar.
- Desde então, isto aqui virou uma putaria... – disparou o mais encapetado da turma.
O guia, inabalável, de modo algum perdeu a classe:
- Pelo o que vejo o senhor é bem fraco em História. A putaria, meu caro, sempre existiu neste país. Nós só eliminamos a hipocrisia!

03 abril 2007

Aqui ninguém é santo


Querida Santidade o Papa,

Quem vos escreve é uma alma brasileira, 100% verde amarela, pertencente ao vosso rebanho do sul do Equador, terceiro quadrante, diocese de Aparecidinha. Entro em contato com a ousada tentativa de desfazer um mal entendido. Fiquei sabendo que vossa viagem a estas terras incluirá a cerimônia de lançamento do primeiro santo brasileiro. Talvez por vossa origem germano-saxofônica passe-vos despercebido uma verdade muito peculiar à cultura brasileira: a santidade não pega em nós. Pelo visto, vossa assessoria não vos comunicou esse infeliz detalhe.

Trata-se de um fenômeno fisico-bioquímico ainda não elucidado pela ciência e inexplorado pela religião. O fato é que somos completamente imunes às leis, às regras e, por conseguinte, à santidade. Ser santo e brasileiro é uma impossibilidade física, uma contradição natural, duas condições que jamais serão satisfeitas ao mesmo tempo. Por isso, não estranhai as gargalhadas quando falar da santidade nacional. Sua Santidade nunca se perguntou por que o maior país católico do mundo jamais teve um santo registrado em cartório eclesiástico? Nossos santos ou são importados (estamos sempre em déficit em nossa balança espiritual) ou são clandestinos, como a Escrava Anastácia ou o Santo Padim Padi Ciço.

Não somos subdesenvolvidos por acaso. Temos clima, terras e recursos para vivermos todos na opulência, mas temos a consciência de que quando isso acontecer, teremos que trabalhar e cancelar o carnaval, a praia e a cerveja. E é claro que Deus não nos deu uma terra linda dessas para ficarmos trancados dentro de uma fábrica ou de um escritório. Como vedes, nossa inteligência está acima da média mundial, porém ela não atenua a nossa alergia à santidade.

Sua Santidade vai entender a nossa santidade quando perceber que ser santo não tem a ver com fazer milagres. Se assim fosse a nação toda viraria altar, porque todo brasileiro é milagreiro por natureza. Veja o exemplo de dona Raimunda, cria seis filhos esperando o sétimo ainda no bucho. Com trocados que recebe lavando roupa, ela alimenta e cuida de todos tendo o cuidado de manter afastado o ex-marido alcoólatra que aparece de vez em quando para pedir dinheiro. Todos os dias ela pratica a multiplicação dos pães, anda sobre as águas do esgoto da sua rua e cura sem remédios os filhos doentes. Já viu alguém fazer isso? Todavia, a Santa Sé jamais dará sua chancela oficial à Santa Raimunda porque ela mora com o terceiro marido, virou evangélica e agora a convenceram a usar camisinha.

Desculpe, seu papa, mas nós não levamos nada a sério. A esculhambação, não o futebol, é o nosso esporte nacional. Descendentes de Vital Brasil, sabemos que a vacina vem do veneno, por isso a nossa santidade é cheia de pecados. Perdemos a missa, jamais a piada! Não somos sérios, graças a Deus.

Espero que esta mensagem chegue a tempo. Porém, se a canonização for mesmo inevitável (a esta altura do campeonato os pastéis de Santa Clara já devem ter sido encomendados) peço-vos a gentileza de designar o novo santo para apadrinhar nossos apagões. Além de nos ser útil, gera até boa rima: “São Galvão, Padroeiro do Apagão”. Se Sua Santidade chegar em meio ao apagão aéreo, me entenderá com toda certeza. A meu ver, no entanto, o ideal seria mesmo reconsiderar essa equivocada decisão.

Canonizai-nos todos, ou não beatificai ninguém!