Gastronomia em tempos de crise
Fábio Reynol
Não é porque o bolso apertou que devemos nos privar dos bons prazeres da mesa. Gastronômicos, fique bem claro! Não me refiro às taras de quem gosta de saborear o kamasutra em vez do kanikama sobre a mesa de jantar. Este artigo é para quem aprecia a culinária requintada, mas foi apanhado de jeito pelo estouro da bolha-hipotecária-financeira-imobiliária-interbancária mundial dos EUA-Europa e periferia limitada.
Meus caros, há mais prazeres ocultos nas prateleiras populares dos supermercados do que sonha a vossa vã gastronomia. Quem está com a corda no pescoço há de descobri-las com uma ajudinha deste gourmet pós-graduado em paçoca em Piranguinho (MG).
Primeira lição da crise: esqueça o caviar, o escargot, as geléias de pimenta e as demais melecas dos empórios de Higienópolis. A culinária pop pode ser muito mais gosmenta e saborosa do que suas similares da high society.
Um excelente substituto para o caviar é o chamado ovo de galinha, que tem esse nome devido à ave da qual se oriunda. Alimento finíssimo, o ovo galináceo deve ser manipulado com delicadeza e quebrado sobre uma frigideira pré-aquecida com óleo requentado de, no máximo, três semanas de uso. Ao abri-lo, deve-se ter o cuidado de não perfurar a gema a qual terá um papel importante mais adiante.
Ao esbranquiçar a clara, o ovo deve ser cuidadosamente retirado e o excesso de óleo, absorvido por um jornal velho. O acompanhamento ideal é arroz bege-quase-marrom ajeitado no prato sobre uma generosa quantidade de feijão. Não se preocupe se o arroz empapar, com a crise, o arroz empapado está voltando à moda. Por isso, não compre arroz de primeira ou não sobrará para o feijão.
Uma vez escorrido, destaque o ovo do jornal. Algumas notícias poderão ter grudado no verso da iguaria, por isso escolha bem a seção do jornal onde o ovo escorrerá. Prefira os cadernos de cultura e lazer, as páginas de política e de polícia costumam causar indigestão e até perda de apetite.
Coloque o ovo sobre o bolote de arroz, centralizando a gema. Com uma faca pontuda perfure a gema até a ponta encostar no fundo do prato. Com a faca e um colherão, faça movimentos circulares, ondulatórios e misturatórios de forma que ovo, arroz e feijão forme uma só massa compacta e indestrutível. Sirva em um prato fundo ou coma direto da panela.
Esse acepipe deve ser acompanhado por uma garrafa (pet) de Tubaína Tutti-frutti (acidulante BTX-zileno e corante CDIII-tuleno) safra 2009. Não aceite safras anteriores, ou a fermentação poderá ser brutal. Sirva em copos de requeijão Nadir Figueiredo previamente limpos. Se lhe restou alguma influência internacional, mande importar do Maranhão o refinado guaraná Jesus encontrado na cor rosa e no inconfundível sabor indecifrável. A requintada bebida maranhense deixa no palato um gosto nada suave de chicletes trufados.
Bem-vindo ao andar de baixo! Bon appétit!
IMPORTANTE: O Diário da Tribo não se responsabiliza por reações adversas que a perda de capital possa trazer à alimentação. Se persistirem os sintomas, um agente funerário deverá ser consultado.
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17 fevereiro 2009
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