Estavam um de frente pro outro na mesa do restaurante.
- Tu me amas? - ele perguntou.
- Sim, eu te amo.
- Quanto?
Ela olhou para cima como quem consulta uma memória velha e voltou-se pra ele:
- Lembras quando chegaste de viagem de surpresa e eu lhe servi o último bife que havia em casa? - perguntou ela.
- Lembro, cheguei depois que tu tinhas jantado.
- Pois então. Eu não havia jantado. É desse tanto que eu te amo.
- Tu me amas, mesmo?
- Sim, te amo.
- Como?
Ela olhou pela janela, coçou o queixo como fazia quando pensava muito. Depois, escorregou os dedos pela toalha da mesa e lhe disse:
- Sabes quando eu te dei aquele perfume e me disseste que nem mesmo tu conseguirias encontrar algo tão teu?
- Sim.
- É desse modo que te amo.
Ele baixou os olhos para a mesa quieto, muito compenetrado como se estivesse se alimentando de cada palavra. Então, levantou o rosto numa expressão marota, olhou nos olhos dela e disse:
- Tu não me amas, mesmo, não é?
Ela dobrou a cabeça para o lado bem devagar e seus olhos, fixos nos dele, iluminaram-se de um modo que ele nunca vira antes. E meneou o rosto de um jeito que o estremeceu enquanto respondia sorrindo:
- Nem um pouco.
Emudeceram ambos. Ela, saboreando cada um daqueles segundos. Ele, repetindo inebriado em seu coração ˜nem um pouco", guardando em si a maior declaração de amor que já recebera.
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25 maio 2014
12 junho 2013
Prefiro namorar
Prefiro namorar
Fábio Reynol
Sempre considerei o estatus de namorado muito maior que o de marido e o título de namorada, com uma carga mística tão exuberante que deixa a palavra esposa quase sem expressão.
Casamento é estado civil, namoro é estado de alma, próprio daquele que se enamora. Casado pode ser o amante não praticante, o operário que cumpre a rotina, a menina que não teve escolha, o rapaz que escolheu mal.
Namorado, não.
Namorado é alcunha daquele que ama e do qual se supõe um alguém que o ame de volta. Sem documentos, orçamentos ou listas de supermercados. Independente de aluguel, gasolina ou emprego. Com ou sem uma casa para morar.
Não há namorado que não pratique o namorar, verbo que, por poética e etimologia, só existe com amor no meio e só serve para se referir a dois seres que estão no meio do amor.
Já o casar é um verbo que às vezes encontra o amor, às vezes, não. Pode ser uma junção de terras, uma aliança de reinos, um contrato prático, um acerto de heranças, uma mudança de classe, uma saída confortável, um greencard expresso, uma foto num porta-retratos, uma demonstração de poder, uma vitrine de estatus...
O namorar não entra na jurisdição dos cartórios nem pode ser regido por leis. Como filho do amor, o namoro é neto da liberdade e só com ambos existe. Terminar um namoro não exige advogados nem juízes, é preciso apenas um não. Começar um namoro não pede festas ou cerimônias, somente um acordar para si e um olhar para o outro, e quem sabe um beijo na praça para que a natureza vos declare “NAMORADOS”...
Fábio Reynol
Sempre considerei o estatus de namorado muito maior que o de marido e o título de namorada, com uma carga mística tão exuberante que deixa a palavra esposa quase sem expressão.
Casamento é estado civil, namoro é estado de alma, próprio daquele que se enamora. Casado pode ser o amante não praticante, o operário que cumpre a rotina, a menina que não teve escolha, o rapaz que escolheu mal.
Namorado, não.
Namorado é alcunha daquele que ama e do qual se supõe um alguém que o ame de volta. Sem documentos, orçamentos ou listas de supermercados. Independente de aluguel, gasolina ou emprego. Com ou sem uma casa para morar.
Não há namorado que não pratique o namorar, verbo que, por poética e etimologia, só existe com amor no meio e só serve para se referir a dois seres que estão no meio do amor.
Já o casar é um verbo que às vezes encontra o amor, às vezes, não. Pode ser uma junção de terras, uma aliança de reinos, um contrato prático, um acerto de heranças, uma mudança de classe, uma saída confortável, um greencard expresso, uma foto num porta-retratos, uma demonstração de poder, uma vitrine de estatus...
O namorar não entra na jurisdição dos cartórios nem pode ser regido por leis. Como filho do amor, o namoro é neto da liberdade e só com ambos existe. Terminar um namoro não exige advogados nem juízes, é preciso apenas um não. Começar um namoro não pede festas ou cerimônias, somente um acordar para si e um olhar para o outro, e quem sabe um beijo na praça para que a natureza vos declare “NAMORADOS”...
29 agosto 2007
Admite
Admite
Fábio Reynol
Lamento admitir, mas o Nelson Rodrigues tem razão, o amor não morre. Nunca. Por mais que o enterremos, o afoguemos, tentemos esfaqueá-lo, esquartejá-lo ou incinerá-lo, ao contrário do frágil ódio, o amor perdura. O amor que foi continua sendo. Mesmo se a decepção, a traição, o rancor, o ciúme, o egoísmo ou a morte tenham destruído um relacionamento, o amor que um dia aconteceu é para sempre.
Podes sentir ciúme dos “ex”s de tua amada. Aqueles que passaram pela vida dela carregam um todo dessa mulher que tu nunca vais ter. Do mesmo modo, as ex-namoradas de teu marido das quais “roubaste” o cargo de esposa, roubaram de ti românticos capítulos da juventude desse homem que jamais terás. Mesmo que hoje ele as odeie, as despreze e nunca mais as veja, um todo de cada uma delas está presente nele. Para sempre.
Quem pode roubar de nós o primeiro beijo roubado? O primeiro é o primeiro. Se tu não foste o autor do primeiro, tu serás, no máximo, o primeiro de língua, o primeiro na padaria, o primeiro com aparelho nos dentes... O primeiro mesmo, meu caro, já foi e dela ninguém tira. Admite.
Admite o quão verdadeiros foram as confissões cafonas ao pé-do-ouvido, as primeiras flores recebidas, as fugas e desculpas para ver o “grande amor da minha vida”, o beijo flagrado naquela tarde embaixo da mangueira e que só foi o que foi porque teve um beijo, um abelhudo e uma mangueira que jamais voltarão. Não precisam. São eternos. Ainda que o amado tenha sumido, o abelhudo, morrido e a mangueira, sido cortada.
Admite que teu amado de hoje foi aprimorado pelas outras mulheres que ele amou. Que as flores que recebes hoje são filhas do primeiro buquê que ele comprou cujo perfume ainda está nele. Admite que a paciência dele com tua TPM foi conquistada por outra menina que não contou com a mesma complacência. Que as delicadezas que ele hoje tem contigo não vieram das conversas com os amigos, mas de aulas práticas ministradas por almas do sexo feminino.
Admite que tua mulher não virou mulher em teus braços e que nem por isso é menos encantadora do que aquela primeira que te fez homem. Aceita o fato de que o olhar carinhoso que hoje te derrete foi ensaiado em outros rapazes e que os beijos que agora recebes são jóias lapidadas por outras bocas. Graças a elas, não recebeste um diamante bruto.
Admite que teu amado não é teu. Há nele algo tão “ele” que jamais terás, feito de partes que outras tiveram, feito de um todo que também levarás.
Admite que tua amada não é tua. Há nela um Bruno, um Carlos, um Luís tão dela quanto ela mesma. Amores verdadeiramente amados que nunca morrerão e que a fazem ser quem é, que fazem todos ser quem são.
Admitir isso é o começo do amor.
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