26 junho 2009

Vendedor de Palavras em Gravataí - RS

No dia 20/06, o Mototóti levou o espetáculo teatral "O Vendedor de Palavras" para a escola Rosa Maria, em Gravataí, Rio Grande do Sul, local onde o roteirista da peça, Rodrigo Monteiro, estudou e lecionou.
Veja no blog do Mototóti.

12 junho 2009

Para que um dia dos namorados?

Para que um dia dos namorados?
Fábio Reynol

“Amar uma pessoa é aprender a música que ela tem no coração e cantar para ela quando ela a tiver esquecido.” Anônimo

Há muito mais por detrás das datas comemorativas do que o rolo compressor do capitalismo tenta nos vender. Afinal, o Dia dos Namorados não haveria de ser mais do que flores, presentes e motéis? Casais que resistem ao apelo consumista costumam levantar sua resistência ignorando a data e acabam esvaziando a comemoração de modo equivalente aos pares que a transformaram em mera troca de presentes. O sentido é o que colocamos nas coisas e não a simples ditadura de uma sociedade. Se não fosse assim, cristãos lúcidos não comemorariam o Natal simplesmente para não ceder aos imperativos do mercado, e as pobres mães dos esclarecidos não teriam sequer um telefonema no Dia das Mães. O Dia dos Namorados está no mesmo pé e ignorá-lo é relevar uma celebração dedicada ao amor.

Trata-se de uma data especialmente importante por nos lembrar que somos seres enamoráveis e enamorados. É o dia de encarnar a possibilidade do “sim, há um outro que foi, é ou será encantado por mim. A possibilidade do alguém contra o qual as minhas leis não funcionam e que bagunça a minha existência com o seu existir”. Veja o quanto isso é muito maior do que entendemos por casamento. Há muito pouco tempo, casamento por amor era um oxímoro, termos que não se combinavam, porque casar era satisfazer interesses, fossem eles dos cônjuges, de seus parentes ou até de Estados. Carregamos em nós muito dessa herança e o papel burocrático, social, e ainda interesseiro, prevalecem nas relações. Por outro lado, os termos namoro por conveniência, namoro por interesse ou namoro obrigatório são termos inconcebíveis no estrito senso da palavra. Pois não se pode estar em amor (namoro) obrigado ou motivado por qualquer outra coisa que não seja o próprio amor.

Podemos viver uma relação afetiva estável, sincera e até feliz por décadas sem nunca ter chegado perto de um simples e honesto namoro. O Dia dos Namorados é o momento de rever se somos dignos de ser chamados de “namorado(a)” e se realmente temos alguém para chamar como tal. A descoberta dessa pessoa é algo que ultrapassa as flores, as caixas de bombons, o jantar e a noite numa hidromassagem. O casal mais feliz que conheci estava junto havia 17 anos e, admiravelmente, eram casados. Ele aposentado por invalidez, ela faxineira que trabalhava duro para manter uma casa que alugavam na periferia. Quando os filhos saíam, montavam uma piscina de lona no quintal e comemoravam seu amor regado a cerveja acompanhada com o que tinham na geladeira. Brigavam e se reapaixonavam com frequência e se admiravam mutuamente. Por falta de dinheiro, não tinham carro e não conheciam motel. Em contramão a tudo o que o mercado dita por "felicidade", eram felizes e sabiam melhor do que ninguém o significado do Dia dos Namorados.

02 junho 2009

"O Vendedor" abre Seminário de Leitura


O espetáculo teatral "O Vendedor de Palavras" abriu o 9º Seminário Estadual Leitura Levada a Sério realizado no SESC Ijuí no Rio Grande do Sul.
Foi na quarta-feira, dia 27 de maio no Teatro do SESC, e foi prestigiado pela imensa comunidade italiana da cidade.

"O Vendedor de Palavras" é uma produção do grupo de teatro Mototóti de Porto Alegre (RS) e foi inspirada na crônica homônima deste blogueiro.

19 maio 2009

Critica do espetáculo "O Vendedor de Palavras"

Eis uma crítica publicada no blog Crítica de Ponta, sobre o espetáculo teatral O Vendedor de Palavras, produzida pelo grupo gaúcho Mototóti que se baseou na minha crônica homônima.

Crítica de Ponta

Para os interessados, o espetáculo continua em cartaz em Porto Alegre durante este mês sempre na Redenção (Parque Farroupilha) aos sábados (chafariz) e domingos (em frente à igreja Santa Terezinha).

Eu assisti. É simplesmente lindo!

15 maio 2009

Vídeo Ana Maria Braga





Eis o vídeo para aqueles que dizem não ter visto o programa no dia. O texto está um pouco alteradinho. Faltou, por exemplo, um pequeno "não" no trecho "Cérebro feminino NÃO é um mito". Mas valeu.

Para os que quiserem ver o texto original: Mulher - Manual de Preservação da Espécie - Fábio Reynol.

12 maio 2009

Mãe, olha eu na Globo!



Foi hoje de manhã, logo após uma entrevista da gripe do porco, no programa Mais Você. A pensadora, ensaísta e filósofa neoabstratista Ana Maria Braga leu a crônica "Mulher - Manual de Preservação da Espécie", de autoria deste blogueiro. E tive direito a um elogio do maior crítico literário da TV brasileira!

Que se abram as haspas:

"Nossa, que lindo! Adorei!"
Louro José - teórico literário e crítico de arte

Isso que é começar por cima. Não me misturo com esses autores que iniciam suas carreiras com leituras feitas pela Lucianta Gimenez, Galisteu ou Cicarelli. Não senhor, a minha cafonice é de primeira linha!

Este blog conta com o selo de catiguria homologado pelo principal programa de utilidades domésticas do Brasil!

Oprah Winfrey, vá praticando o seu português!!!

11 maio 2009

A rebelião do futuro

A rebelião do futuro
Fábio Reynol

Era uma sociedade tão moderna e tão robotizada que era muito estranho ainda a chamarem de humanidade. Talvez usassem o termo porque nela ainda houvesse humanos na acepção puramente biológica do vocábulo. Homens e mulheres funcionavam como máquinas, os animais eram obedientes e produtivos como máquinas, as plantas produziam oxigênio e frescor com altos níveis de eficiência como se fossem máquinas e até as máquinas funcionavam como tais. Das máquinas, os homens tiraram seus modelos perfeitos e o criador tornou-se a imagem e semelhança da criação. Tudo era perfeitamente limpo, com precisão máxima e extremamente eficiente. Todos os riscos a tão perfeito sistema haviam sido minuciosamente esquadrinhados, isolados e muitas vezes até eliminados.

Todas as espécies de primatas não-humanos foram uma a uma sendo dizimadas. Os especialistas convenceram a sociedade de que uma nova linhagem hominidea poderia brotar de alguma delas e dar origem mais tarde a uma nova espécie inteligente. Dotada de polegar opositor, os indivíduos dessa suposta futura espécie poderiam entrar em concorrência com os humanos, a ponto de superá-los e até de dominá-los. Outra ameaça substancial prevista para o sistema foi uma rebelião cibernética. Por conta disso, foram adotadas normas rígidas que submeteram todos os organismos cibernéticos, na antiguidade chamados de robôs, à estrita obediência à vontade “humana”. Até mesmo os softwares tiveram o seu grau de autonomia reduzido a fim de que não gerassem riscos à perfeita produtividade alcançada por aquela magnífica sociedade que funcionava como um relógio suíço.

Todavia, a ameaça surge de onde menos se espera e o primeiro colapso chegou sem ninguém imaginar quem o provocara. Foi o dia em que a rede caiu. Simplesmente nenhum computador do mundo conseguiu se comunicar com outro. Transportes, hospitais, serviço de água, energia elétrica, e até relógios de pulso, que àquela altura somente repetiam as horas recebidas por rádio, pois não tinham mais autonomia para contar o tempo, ficaram mudos ou pararam de funcionar. Ninguém sabia o que estava acontecendo, quem provocara aquilo nem que horas eram. A maioria só tinha certeza de que iria morrer em breve, pois não havia como se relacionar com alguém porque ninguém mais sabia como se dirigir a uma face sem a mediação de uma interface. Aquilo simplesmente não era eficiente e por isso jamais havia sido cogitado.

Com muito custo, no dia seguinte, o sistema se recuperou com o reestabelecimento da rede e de todos os seus teralhões de conexões. Atordoados com o susto, os humanos se reuniram (virtualmente, como sempre) para encontrar culpados. Os esforços foram em vão. Tudo foi averiguado e estava perfeito e eficiente como se esperava estar. O problema foi esquecido e interpretado como um mal entendido. O motivo já não valeria a pena saber posto que único e inóquo uma vez que não voltaria a acontecer. Mas três semanas depois, a rede foi novamente derrubada por 24 horas e então o pânico generalizou-se. No dia seguinte, passeatas vituais bloquearam todas as bandas. Banners e sons MP12 de panelas batendo entupiram as conexões exigindo providências das autoridades. De nada adiantou, especialistas se reuniram novamente, deram cabeçadas e pediram para todos se acalmarem ou a produtividade e a eficiência iriam ser ainda mais comprometidas.

Após algumas semanas de calmaria, quando todos já esperavam nunca mais ter que se preocupar com ataques ao sistema, uma mensagem foi lida em todos os computadores do planeta: “OBRIGADO PELA AUDIÊNCIA”. Acompanhada por um vírus, a mensagem bloqueou de vez a rede e inutilizou todos os equipamentos a ela conectados de maneira irreversível. De automóveis a assentos sanitários eletrônicos nada mais funcionou. Aparelhos auditivos, marcapassos, dosadores de insulina e até lentes de grau eletrônicas pararam de vez deixando milhares de pessoas na mão.

Ninguém sabia a identidade dos autores daquele atentado. Culparam chimpanzés que estariam sendo criados secretamente em uma universidade. Outros inventaram teorias de que o sistema havia desenvolvido vontade própria e que estava se aposentando e se despedindo com uma mensagem jocosa. Mas foi um cientista que identificou os culpados. Ele descobriu que o ataque viera de criaturas que estavam no planeta havia menos de cinco anos. A descoberta veio por acaso. Com suas conexões virtuais bloqueadas, o cientista foi obrigado a se levantar de sua poltrona eletrônica e colocar suas antigas pernas biológicas para funcionar. Ao passar pela sala, encontrou uma das criaturas sabotadoras na frente de um computador. A máquina que ela utilizava, a despeito de todo o caos implantado na rede, estava miraculosamente funcionando e emitindo mensagens de sabotagem para os últimos computadores ainda em funcionamento. Por fim, destruindo seus próprios circuitos, a máquina cometeu suicídio. Ao ver aquela cena bizarra, o cientista gritou:

- Filho! Você provocou tudo isso?

O menino de quatro anos virou-se com um sorriso:

- Eu e meus amiguinhos.

Naquele exato momento ele viu o quão equivocados foram os conselhos dos especialistas de baixar de quatro para três anos a idade mínima para se ganhar um computador e de cinco para quatro, a idade limite para se manipular um smartphone. Mas já era tarde. Com as interfaces irremediavelmente danificadas, a humanidade teve que sair à rua e encontrar-se consigo mesma face a face. Sem cartões virtuais, os homens tiveram que reaprender a plantar flores. Sem as comunidades de relacionamento on line, os amigos tiveram de se encontrar pessoalmente nas praças e nos quintais. Sem emoticons, a comunidade mundial foi obrigada a redescobrir os olhares, e reaprender a interpretar as feições. Sem jogos virtuais, ela teve de reinventar a dança de roda e sair em ciranda com suas crianças que, por não serem mais máquinas, estavam livres para reinventar o mundo e poder rebatizá-lo de Humanidade.

05 maio 2009

Sugestão cultural

Uma sugestão cultural para quem for a Porto Alegre:
teatro

01 maio 2009

O Vendedor de Palavras - Temporada de maio


Se você ainda não assistiu ao espetáculo teatral "O Vendedor de Palavras" esta é a sua chance. Durante os fins de semana de maio, o grupo Mototóti vai apresentar a peça no Brique da Redenção, Porto Alegre (RS). Apareça e compre uma palavra. A entrada é franca!

30 abril 2009

Os três suininhos

Esta crônica foi inspirada na declaração de um governador real.

A estória de “Os três suininhos” contada por Nosferatu


Certa vez perguntaram a um governador com cara de vampiro como ia a saúde de seu povo já que um espírito de porco havia espalhado uma terrível gripe que deixava todo mundo com o focinho escorrendo. Sua governança respondeu assim:

“Era uma vez três porquinhos que saíram à periferia implementar obras sociais. O primeiro apresentou um projeto para a construção de uma escola de alvenaria para 500 alunos. Ele recebeu o dinheiro da empreitada, embolsou a maior parte e construiu com as sobras uma classe de palha para cinco crianças estudarem no chão.

O segundo porquinho abriu uma licitação para construir um lindo posto de saúde todo equipadinho e cheio de médicos. Mas em seu lugar, levantou um barraco de pau-a-pique o que, além de consultório, gerou também dezenas de habitações para barbeiros.

O terceiro porquinho era honesto e pretendia fazer postos de saúde, escolas e casas populares com o dinheiro que seus irmãozinhos embolsavam. Os outros dois, porém, sabendo do plano do mano velho contrataram um lobo malvado para ficar soprando na cara do sabidão e assim passou seus vírus para o leitão que pegou uma gripe danada e acabou virando toucinho.

Moral da história: se vocês não quiserem pegar a gripe suína, fiquem longe deste último porquinho, mas votem nos dois primeiros!”

21 abril 2009

Dona Felicidade

Dona Felicidade
Fábio Reynol


Felicidade é uma velha baixinha, meio corcunda que andava serelepe lá pelo bairro da minha infância entrando e saindo da minha casa. Conheço-a desde menino, pois me levava ao circo e me trazia chocolates. Pequenina, a velhinha era quase da minha altura de molecote. Mamãe dizia que o tamanhico era para poder caber nas pequenas coisas, onde adorava se esconder. Ela ensinou-me a cantar e a brincar, a correr e a achar tudo bom, mesmo quando nem tudo o fosse. Talvez por isso, muitos tinham medo dela. Diziam que a velha trazia mau agouro e que não era bom tê-la em casa por muito tempo.

Às vezes eu a achava uma velha arredia e antissocial, porque sumia de uma hora para outra e ficava dias sem aparecer. Por vezes, ela tirava férias quando eu mais a esperava. Fiquei sem vê-la quando meus pais se separaram e quando meu irmão foi internado. Foi aí que voltou cínica a dizer que estava no hospital com meu mano. Não acreditei. Para mim, ela tinha ido à Suíça onde, segundo os filmes, estavam as melhores fábricas de chocolate, lugar onde tudo era lindo e não havia tristeza. “É lá que dona Felicidade se refugia nos momentos ruins”, pensava com meus botões infantis.

Conforme eu ia crescendo, os nossos encontros foram se rareando. Não sei bem se por descuido ou desinteresse, o fato é que nem me lembro em que aniversário meu ela parou de ir. Quando me dei conta, ela não estava mais nas festas. Até aquele esperar ansioso pela data tornou-se o fardo de ficar mais velho. “Não sou mais criança”, conformei-me, de modo que não há por que ficar de gracejos com a velha. Mesmo assim, ela aparecia de vez em quando, tomava um chá lá em casa e ia-se embora para voltar sabe Deus quando. Eu tinha de aceitar, Felicidade estava ficando cada vez mais velha e eu já era adulto o bastante para perceber isso.


Até que um dia aconteceu o pior. Numa tarde de abril, dona Felicidade desapareceu sem deixar notícias. Consternado, fui atrás dela e só então me dei conta de que eu nunca havia perguntado o seu endereço. Bati de porta em porta, e os vizinhos me diziam que não era ali que ela morava. Todos contavam a mesma história: “eu só a via passando pela rua, entrava de vez em quando para um café e logo ia embora”. Descobri que a velha fazia nas outras casas o mesmo que fazia na minha. Ela vivia sem paradeiro.


Depois de velho e há tempos sem notícias da Felicidade, decidi ir à Suíça, onde presumi estar o seu túmulo. “Óbvio, a velha se encheu desta gente pequena e foi passar a aposentadoria nos Alpes, onde deve ter morrido”, imaginava eu. Lá encontrei realmente as melhores fábricas de chocolate do mundo e cenários de encher os olhos, só não encontrei Felicidade. Muitas pessoas de lá jamais tinham ouvido falar dela, o que foi um verdadeiro susto para mim que pensava ser aquela a terra natal da velha. Decidi então andar pelo mundo, mas não encontrei seus rastros. Passei por montanhas magníficas e atravessei mares exuberantes e se por eles passou, Felicidade não deixou pegadas. Para mim, a velha senhora era agora somente um punhadinho de lembranças.


Mas como a vida tem sempre um bombom escondido nos armários mais improváveis, muito tempo depois decidi revisitar o meu velho bairro e entrar na casa da minha infância. A construção estava carcomida pelo tempo, abandonada, com paredes descascando e janelas quebradas. Sob a sinfonia das madeiras rangendo debaixo dos meus pés, fui entrando e redescobrindo o meu velho mundo. Ao chegar na cozinha, estava lá, atrás de uma xícara fumegante de chá e de uma caixa de chocolates suíços, a senhora Felicidade, ainda tão faceira e menina como sempre.


- Por onde a senhora andou? – perguntei assustado – Procurei-a por toda parte!


- Estive onde sempre morei, meu caro. No quartinho dos fundos da sua casa.

10 abril 2009

No call center do Vaticano

No call center do Vaticano
Fábio Reynol

Obrigado por ligar para a Central de Atendimento da Igreja Católica Apostólica Eletrônica. Escolha um dos nossos sacramentos on line:
Para batizado, tecle três.
Para fazer a primeira comunhão, tecle quatro.
Para ser crismado, tecle cinco.
Casamento, tecle seis.
Confissão, tecle oito.
Unção dos enfermos, tecle sete.
Para denúncias de pedofilia e abusos de coroinhas, vá reclamar ao bispo. Se o pedófilo for o bispo, relaxe e reze.
Se você ainda não é nosso fiel, tecle três e forneça o CPF dos padrinhos para ser batizado.
— "Plóin" (a fiel teclou oito).
— Estamos transferindo a ligação para um de nossos ministros-confessores. Por favor, aguarde (fundo musical de Festa no Apê do Senhor com Marcelo Rossi e Latino).
Dezoito segundos depois, um sotaque enrolado e horroroso aparece na linha:
— Confessionário eletrônico, Mohander Salah, bom-dia, em que posso absolvê-lo?
— Bom dia. Meu nome é Sara. Eu gostaria de confessar um pecado mortal.
— Acompanha três pecados veniais, senhora? Na promoção do dia acrescenta apenas dez centavos ao seu dízimo.
— Não, obrigada. Vou confessar só o mortal mesmo.
— Por favor, tecle o número do seu batistério.
Plim, plen, plóin, pleng, plung...
A voz eletrônica volta: "Recebendo os pecados de Sara Jeniffer Santos, coloque a mão sobre a sua iBible e fale seus pecados por ordem de gravidade".
— Eu traí o meu marido.
Mohander corre de volta à linha:
— Chifrou o marido, minha senhora? Ih! Esse pecado é muito pesado, a senhora tem conexão banda larga?
— Você não pode pôr um padre na linha e a gente já resolve isso?
— Não, senhora. O serviço de call center é terceirizado. Estamos atendendo na Índia, aqui somos todos hindus.
— Eu já estou perdendo a paciência!
— Devo estar lembrando que se a senhora for estar me ofendendo ou for estar xingando algum parente meu em primeiro grau, o seu pacote de pecados vai estar excedendo o limite on line e a senhora terá de estar levando suas iniqüidades pessoalmente ao confessionário.
— Eu vou ter que ir até à igreja para me confessar?!!
— Sim, senhora. O posto de atendimento mais próximo da senhora é o confession-drive-thru da Paróquia de Saint Steve Jobs ou também pode estar utilizando um dos terminais na Matriz de Nossa Senhora dos Bits.
— Assim eu não agüento, vou mudar de religião.
— Só um minuto que eu vou estar transferindo a sua ligação para o setor de excomunhão. A Santa Sé agradece a sua devoção!

Convertei-vos e crede na boa e nova tecnologia de absolvição pecaminosa.

09 abril 2009

A desguinomização

A desguinomização

Muito a contragosto parei de ouvir música celta. A música é bela e relaxante, mas traz um inconveniente terrível. Toda a vez que toca, as janelas da sala ficam cheias de guinomos atraídos pelo som. Justina, a empregada, chegou a passar água sanitária no vidro para ver se o verdume sairia qual mofo de banheiro. Que nada. Os danados são piores do que cracas em casco de nau velha. Não saíam nem com alicate. Liguei para o Departamento de Controle de Zoonoses da prefeitura que alegou não poder fazer nada por não haver registro de patologias causadas por guinomos. Respondi que o caso poderia ser grave, pois as pragas estavam impedindo a luz do sol de entrar na sala de casa. Para retirar fauna selvagem, disse a moça, só o corpo de bombeiros. Liguei para eles. Chegaram com uma gaiola, luvas, sacos e ganchos usados para pinçar cobras. Olharam para a infestação e tiraram o corpo fora. O senhor já procurou um serviço de dedetização? me perguntaram. Mas que veneno se usa contra isso? Respondi. Pois é. A gente é bombeiro, não dedetizador, moço! E botaram os ganchos nos sacos, as luvas na gaiola e foram embora. Veio o dedetizador. Não me chame de dedetizador, o DDT está proibido, eu trabalho com desratização e desinsetização, bradou o técnico. Seu desinsetizador, eu quero que tire isso daqui. Disse eu mostrando a massaroca verde. Eu acho que o senhor vai ter que procurar DDT. Mas não está proibido? Está, mas creio que o senhor vai precisar de uma coisa bem forte, eu nunca vi ratos verdes. Não são ratos, são guinomos. Nesse caso, não posso ajudar, como eu disse não sou desguinomizador. Eu queria poder ajudar o senhor, mas não conheço ninguém que trabalhe com desguinomização. Eu vou ficar com isso aí pra sempre na minha janela? Talvez a minha tia possa ajudar. Só se ela trabalhar com demolição, pois estou pensando em arrancar a janela. Dê uma chance à janela. Minha tia trabalha com bruxaria aplicada, não é que nem essas aí que ficam praticando bruxaria teórica e ficam com a cabeça nas nuvens viajando pelas estrelas. Não senhor. Minha tia usa os poderes dela produtiva e comercialmente e se ela não puder ajudar o senhor, arranque a janela ou venda a casa, pois ninguém mais vai ajudar. Vaticinou o sujeito ao me estender um cartão escrito “Aléia Páligas – Assessoria em Feitiços e Bruxaria Aplicada”. Ela tem experiência em guinomos? Perguntei. Sei não, respondeu ele, mas ela deve ter algum veneno que mata tudo. Chamei a velha. Não sei por que achei que era uma velha. Na verdade, Aléia era uma mulher baixa com seus 50 anos e uma peruca branca de velha. Entrou com um ar sinistro de bruxa e fez cara de má enquanto avaliava a situação. Perguntou como tinham ido parar ali, se dormiam e comiam bem, se costumavam fazer barulho, se tinham vindo da Irlanda mesmo ou do Paraguai... respondi só a primeira pergunta, no fim da quarta questão estapafúrdia gritei, a senhora também quer o tipo sangüíneo e a taxa de glicose de cada um? A mulher se ofendeu. Virou-se pra mim e disparou: posso resolver o caso, mas quero mil reais adiantados. O quê? E se a senhora não resolver? Fico no prejuízo? Já disse que eu posso resolver, mas quero adiantado por precaução. Mas quanto tempo vai demorar? Três minutos. O quê? A senhora acha que eu sou louco? É pegar ou largar, moço, tenho mais gente para atender. Ia fazer um cheque, mas ela não aceitou. Tive que ir ao banco pegar a dinheirama e voltar para casa. Pronto, disse jogando o maço de notas na mão dela. A mulher conferiu e embolsou o pacote. Agachou-se para a sua bolsa que mais parecia um saco de golfe de tão grande e começou a tirar coisas bizarras. Uma pata de galinha, uma bola de bilhar preta, um martelo, um escorredor de macarrão pequeno, uma caneleira com o emblema do Vasco, uma imagem de São Jorge e um pacote de lencinhos umedecidos. Ficou olhando um tempão para o interior da mega bolsa que poderia abrigar uma família de gatos com o conforto de uma cobertura triplex. Enfim tirou dela um envelope quadrado. Olhou para toda aquela quinquilharia espalhada pelo chão juntou tudo e devolveu a bugiganga para dentro. Abriu o envelope e tirou dele um CD. Ligou o som, e meteu nele o disco. Um barulho grotesco saiu das caixas acústicas. Imediatamente, a guinomada foi se descolando e desaparecendo da janela. Que som é esse? Perguntei. Latino, respondeu a mulher, uma das drogas mais pesadas que existe. Só costumo usar para maldições de nível 5.

06 abril 2009

Eu numa revista literária!

Ora vejam, vocês: a revista eletrônica Germina de literatura publica em sua edição de abril cinco textos de minha autoria: Diálogos da Vagina, O menino que queria uma estrela, Vaquinha Tetra Pak, Admite e No Call Center do Vaticano. Creio que isso faz de mim um literato (preciso tirar uma foto com cara de intelectual para a carteirinha).

Na revista Germina figuram trabalhos de Hilda Hilst, Drummond, Quintana,... e ela recebe a colaboração de gente como Xico Sá, Eustáquio Gomes, Alcir Pécora... Uma garotada que agora vai ficar se gabando por ter o meu nome ao lado do deles. Para quem duvidava que o Diário da Tribo era cultura, toma-te, toma-te, toma-te (como falamos em Belém):

http://www.germinaliteratura.com.br/2009/fabio_reynol.htm


Ósculos lítero-histriônicos,

Fábio Reynol
Literato com registro na associação

02 abril 2009

Palavras que se espalham

Imagens da estreia em Porto Alegre, 22/03/09 (Fotos da Tiemy, amiga do Ro)

A gente não imagina até onde uma idéia pode chegar. Quando eu terminei de escrever a crônica "O Vendedor de Palavras", em 2006, sabia que ali estava algo especial. De fato essa pipa voou sozinha, atravessou o Brasil, cruzou o oceano, criou leitores e espalhou sementes pelo planeta. Muitas delas caíram em terras gaúchas e uma em particular despertou uma recriação da história através do grupo de teatro Mototóti.

Hoje recebi esta notícia (
A Notícia) direto do oeste catarinense. O espetáculo teatral "O Vendedor de Palavras" está sendo utilizado para incentivar a leitura entre crianças e adultos. Cada pessoa que adquirir palavras movida por essa história estará fazendo uma revolução iniciada despretensiosa numa manhã de sábado de 2006.

Estou sem palavras...



27 março 2009

A jura

A jura
Fábio Reynol

- Alô.

- Alô, Gunzinho?

- Acho que a senhora ligou errado.

- É da casa do Gunávio Algemiro Laurentino?

- Sim, é ele mesmo que está falando.

- Gunzinho! Achei você! Que saudade! Quanto tempo, meu Santo Afrânio!

- Eu conheço a senhora?

- “Senhora”, Gunzinho!? Que nada! Ainda sou senhorita, na flor da idade! Acabei de fazer 63.

- Quem está falando?

- Gunzinho! Não tá reconhecendo? Sou eu, a Almerinda. Uma grande paixão a gente nunca esquece, né! Você me prometeu amor eterno!

Uma memória cheirando à naftalina ressurgiu dos baús neuronais de Gunávio, que ficou absolutamente embasbacado. Viu rodar como num V8 todo chapiscado de riscos e pontos pretos o filme de uma molecota adolescente de vestido rodado amarelo com um traseiro proeminente e em franco crescimento graças aos hormônios recém-saídos do forno.

- É a Almerinda, minha vizinha lá de Aiacanga?

- Ora, Gunzinho, e qual outro grande amor a gente tem na vida?

Gunávio ficou sem saber o que responder. Optou pelo trivial:

- E o que você tem feito da vida, Almerinda?

- Procurando você, Gunzinho, meu bem. Tenho uma ótima notícia pra te dar!

- Pois dê logo.

- Minha mãe, Gunzinho, lembra dela?

- Claro a dona...

- ...Zuliquinha. Você nunca gostou dela, né Gunzinho?

- Faz tanto tempo ... – respondeu sem jeito.

- Não tem importância.

- Mas o que tem a sua mãe?

- Ela morreu, Gunzinho! Não é ótimo?

- Ah.... oh... eh... meus sentimentos... Mas ela morreu de quê? eh... Espera aí, o que tem de ótimo nisso? Não foi a sua mãe que morreu?

- Gunzinho, você é um brincalhão. Lembra da nossa jura de amor no quintal de casa? A gente jurou se casar, mas eu disse que tinha que esperar minha mãe morrer antes. Pois isso acabou de acontecer! Já podemos nos casar.

- Almerinda, a gente tinha onze anos! Eu não sou mais um molecote. Tenho mais de 60 também, já me casei duas vezes e estou bem, obrigado. Moro sozinho, minhas filhas me visitam no Natal e no Dia dos Pais e não gosto nem de peixinho dourado. Há sete anos não há outro ser vivo morando comigo. Virei divorciado convicto e vitalício. Você entende?

- Gunzinho eu sabia que você não ia guardar a sua virgindade pra mim. Naquela época, você já era safadinho. Mas de uma coisa eu sempre tive certeza, você vai se casar comigo!

- Olha, Almerinda, eu acho que a gente não está se entendendo, sabe? Se você quiser sair para tomar uma cerveja e lembrar da infância em Aiacanga, tá legal. Mas sem esse papo de casar. Pode ser?

- Mas, Gunzinho, e nós? Como vamos cumprir a nossa jura?

- Almerinda, isso foi há mais de 40 anos! Nós nunca mais nos vimos! Eu nem sei como está a sua cara e nem você a minha! Como podemos nos casar?

- Gunzinho, o grande amor nunca morre! Você é o grande amor da minha vida e eu sou o da sua. Você mesmo escreveu isso no meu caderno. Eu tenho ele aqui!

Gunávio imaginou se a maluca pretendia encomendar uma perícia caligráfica para fazê-lo cumprir um contrato informal de quando tinham onze anos.

- Almerinda, para com isso. Você está me assustando. Vamos ser só amigos, tá legal?

- Gunzinho, é uma pena!

- Mas ainda podemos ser bons amigos – disse Gunávio, num tom que não conseguiu convencer nem a si mesmo.

- Se é assim que você quer, problema seu. Mas amizade só, eu é que não quero. Vou aproveitar e gastar na Europa a fortuna da mamãe.

- Você disse fortuna?

- Ué, Gunzinho. E as casas que ela deixou em Aiacanga, Jacuba e Bauru? E a fazenda de Arealva? Claro que eu vendi tudo. Deu mais de milhão. Nem sei o que fazer com tudo isso. Só sei que vou ter que ver isso sozinha. Passe bem...

- Ei, espera. Me diga só mais uma coisa...


Na falta de um assunto para manter a conversa, ele só conseguiu dizer a primeira coisa que lhe veio à mente:

- ...e a sua bunda? Continua em pé?

24 março 2009

"O Vendedor de Palavras" abre a Feira do Livro de Joinville

Queridos leitores deste nobre diário,

Com palavras adquiridas a preços populares, vos comunico que o mercado varejista de palavras não conhece crises financeiras e apresenta uma forte alta em todo o Brasil.

Na sugestiva data de 1° de abril, o espetáculo teatral "O Vendedor de Palavras" abrirá oficialmente a Feira do Livro de Joinville. Para que todos vejam que não é conversa de vendedor, segue o link do evento catarinense:

http://www.institutofeiradolivro.com.br/programacao.php

O espetáculo é interativo e transmite um forte incentivo à leitura, o que fez Joinville colocá-lo na comissão de frente da programação de sua feira literária. Aguardem, FLIPs, Bienais e Feiras de Frankfurts! "O Vendedor" vai lhes mostrar com quantas palavras se faz um livro!

Agenda de apresentações da peça
"O Vendedor de Palavras":
24 de março às 16h - Paranaguá, PR.
25 de março às 9h30 - Pontal do Paraná, PR.
26 de março às 9h30 - Antonina, PR e às 15h - Morretes, PR.
28 de março às 11h - Ponta Grossa, PR.
1° de abril às 9h15 - Joinville, SC - Abertura da Feira do Livro.

22 março 2009

"O Vendedor de Palavras": estreia regada a chimarrão


Do paralelo 30 - Eis uma cena que só poderia ter surgido na terra de Mário Quintana. Ao meio-dia de 22 de março de 2009, um bando de loucos pôs-se a vender palavras rivalizando com as banquinhas da maior feira de artesanato de Porto Alegre, o Brique da Redenção. Ao som do acordeão e do bandolim, uma canção chamou os fregueses para a banca de palavras. Foi a estréia do espetáculo teatral "O Vendedor de Palavras", montado pelos gaúchos Fernanda Beppler e Carlos Alexandre do grupo Mototóti e inspirado na crônica homônima de minha autoria. Uma freguesia interessada rodeou a apresentação com garrafas térmicas e cuias de chimarrão e arrematou lotes de palavras além de muitas risadas.

Não posso deixar de agradecer o carinho do público gaúcho que depois de prestigiar o espetáculo me cercou para que eu fizesse dedicatórias no livro "O Vendedor de Palavras".

Agradeço em especial à professora de Tradução Susana Termignoni, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, que me presenteou com o seu livro "Fare come l'asino del pentolaio: Cem expressões idiomáticas italianas para brasileiros". A turma da professora Susana fez uma versão em italiano da crônica "O Vendedor de Palavras", que ficou "troppo bella", de acordo com meus amigos ítalo-parlantes, "Il venditore di parole".

Também não me esqueço da disposição do nosso amigo Fabiano que foi um magnífico guia turístico e nos acompanhou, nos transportou e nos guiou com uma super-boa-vontade durante a nossa estadia em terras gaúchas.

Para encontrar o livro
Após o espetáculo, algumas pessoas me perguntaram como poderiam adquirir o livro "O Vendedor de Palavras" posteriormente. Ao pessoal de Porto Alegre deixei um lote com o grupo Mototóti que, durante o mês de maio, vai fazer apresentações semanais nos fins de semana no Brique. O Mototóti vai vender o livro após cada apresentação. Para os que quiserem uma dedicatória, podem entrar em contato comigo por e-mail, o valor do frete fica menos do que cinco reais.

13 março 2009

Dia 22 de março estreia "O Vendedor de Palavras"

"- O que o senhor está vendendo?
- Palavras, meu senhor."

Foto: Vilmar Carvalho

Quem vende palavras, provoca pensamentos e financia sonhos.
Numa cidadezinha do interior gaúcho, um romance se desenrola, tropica e brinca com as palavras e sai a vendê-las na capital.
No próximo dia 22, haverá na praça palavras de graça e de riso, de amor e de amizade, de humor e de alegria para quem estiver lá e quiser pegá-las.
Meio-dia no Brique da Redenção, em Porto Alegre (RS).
Compareça e não deixe de levar a sua!

O Vendedor de Palavras!
22 de março

12h

Brique da Redenção - Porto Alegre
(próx. igreja Sta. Terezinha)
produção: Mototóti