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14 maio 2007

Ainda vendendo palavras

Como elogio da própria boca é vitupério, uso a boca de outrem para me auto-elogiar.

O trecho abaixo é um "abre" para o Vendedor de Palavras, crônica minha publicada no espaço underground Lágrima Psicodélica. (http://lagrimapsicodelica.blogspot.com).

Aproveito o comentário para avisar que não publico crônicas em arquivos Power Point. Se alguém receber alguma mensagem com musiquinha melosa com paisagens ao fundo não foi obra minha. Uma campanha por um mundo menos piegas!

"O texto a seguir foi-me enviado por e-mail e há muito não me cai em mãos algo tão bom.

É ótimo quando nos enviam coisas assim e, melhor ainda, sem aquelas apresentações em pps com letras em profusão caindo em cascata à frente de uma paisagem e com Kenny G tocando ao fundo. São minutos intermináveis. Atualmente, basta o campo 'Assunto' apresentar títulos como 'Muito Lindo', 'Lindo Demais', 'Linda Mensagem' ou, pior, qualquer uma destas acompanhada de '(Com Som)' que mando pra lixeira sem dó. Mas não adianta, sempre aparece um outro contato que te envia novamente!

Aqui, nada mais temos que um texto inteligente, edificante, esclarecedor e exposto de maneira direta. E recheado de humor.

Um primor.

Sinceramente, não conheço o autor, Fábio Reynol, mas já vou pesquisar o cara.

Me vendeu suas palavras direitinho, o sacana."

14 março 2007

Palavras contagiosas


Imagem gentilmente furtada da Casa do Zé Carlos (link ao lado)

Numa linda manhã de agosto dei à luz um spam. E parece que a luz gostou demais do spam que lhe dei. A concepção deu-se num sofá diante da TV, local que muitos acreditam ter sido abandonado pelo pensamento crítico. Pois foi bem ali que me surgiu com cabeça, corpo e membros “O Vendedor de Palavras”, inspirado em uma entrevista de Nélida Piñon.

A criança cresceu, tomou corpo e viaja o Brasil de norte a sul. Até chegou a Portugal. Já ajudou a levar sol a fins-de-semana chuvosos, ilustrou aulas de português, alimentou debates em turmas de graduação em Comunicação Social, fez ler gente que não gosta das letras e ainda dá muitas flores e frutos mundo afora.

Há um forte vírus por trás das palavras que contagia de coisas boas quem o recebe. Algo bem mais poderoso do que os spams de trojans, vírus destrutivos, publicidade indesejada e mensagens negativas. Que se proliferem os microorganismos da felicidade incubados nas letras para “esclarecer de qual combustão a paixão é feita, para que a vista lhe escureça de repente e as palavras tenham febre*”.

Um febril abraço a todos, em especial aos leitores cujos e-mails ainda não consegui responder,

Fábio Reynol

* artigo “Conhece-te a ti mesmo”, Nélida Piñon.

11 setembro 2006

O vendedor de palavras

Para os que pensam que vivo somente de anedotas, eis uma crônica com toda a ironia que este país merece.

O vendedor de palavras
por Fábio Reynol

Ouviu dizer que o Brasil sofria de uma grave falta de palavras. Em um programa de TV, viu uma escritora lamentando que não se liam livros nesta terra, por isso as palavras estavam em falta na praça. O mal tinha até nome de batismo, como qualquer doença grande, "indigência lexical". Comerciante de tino que era, não perdeu tempo em ter uma idéia fantástica. Pegou dicionário, mesa e cartolina e saiu ao mercado cavar espaço entre os camelôs.
Entre uma banca de relógios e outra de lingerie instalou a sua: uma mesa, o dicionário e a cartolina na qual se lia: "Histriônico - apenas R$0,50!".
Demorou quase quatro horas para que o primeiro de mais de cinqüenta curiosos parasse e perguntasse.
- O que o senhor está vendendo?
- Palavras, meu senhor. A promoção do dia é histriônico a cinqüenta centavos como diz a placa.
- O senhor não pode vender palavras. Elas não são suas. Palavras são de todos.
- O senhor sabe o significado de histriônico?
- Não.
- Então o senhor não a tem. Não vendo algo que as pessoas já têm ou coisas de que elas não precisem.
- Mas eu posso pegar essa palavra de graça no dicionário.
- O senhor tem dicionário em casa?
- Não. Mas eu poderia muito bem ir à biblioteca pública e consultar um.
- O senhor estava indo à biblioteca?
- Não. Na verdade, eu estou a caminho do supermercado.
- Então veio ao lugar certo. O senhor está para comprar o feijão e a alface, pode muito bem levar para casa uma palavra por apenas cinqüenta centavos de real!
- Eu não vou usar essa palavra. Vou pagar para depois esquecê-la?
- Se o senhor não comer a alface, ela acaba apodrecendo na geladeira e terá de jogá-la fora e o feijão caruncha.
- O que pretende com isso? Vai ficar rico vendendo palavras?
- O senhor conhece Nélida Piñon?
- Não.
- É uma escritora. Esta manhã, ela disse na televisão que o País sofre com a falta de palavras, pois os livros são muito pouco lidos por aqui.
- E por que o senhor não vende livros?
- Justamente por isso. As pessoas não compram as palavras no atacado, portanto eu as vendo no varejo.
- E o que as pessoas vão fazer com as palavras? Palavras são palavras, não enchem barriga.
- A escritora também disse que cada palavra corresponde a um pensamento. Se temos poucas palavras, pensamos pouco. Se eu vender uma palavra por dia, trabalhando duzentos dias por ano, serão duzentos novos pensamentos cem por cento brasileiros. Isso sem contar os que furtam o meu produto. São como trombadinhas que saem correndo com os relógios do meu colega aqui do lado. Olhe aquela senhora com o carrinho de feira dobrando a esquina. Com aquela cara de dona-de-casa ninguém jamais desconfiaria. Passou por aqui sorrateira. Olhou minha placa e deu um sorrisinho maroto se mordendo de curiosidade. Mas nem parou para perguntar. Eu tenho certeza de que ela tem um dicionário em casa. Assim que chegar lá, vai abri-lo e me roubar a carga. Suponho que para cada pessoa que se dispõe a comprar uma palavra, pelo menos cinco a roubarão. Então eu provocarei mil pensamentos novos em um ano de trabalho.
- O senhor não acha muita pretensão? Pegar um...
- Jactância.
- Pegar um livro velho...
- Alfarrábio.
- O senhor me interrompe!
- Profaço.
- Está me enrolando, não é?
- Tergiversando.
- Quanta lenga-lenga...
- Ambages.
- Ambages?
- Pode ser também evasivas.
- Eu sou mesmo um banana para dar trela para gente como você!
- Pusilânime.
- O senhor é engraçadinho, não?
- Finalmente chegamos: histriônico!
- Adeus.
- Ei! Vai embora sem pagar?
- Tome seus cinqüenta centavos.
- São três reais e cinqüenta.
- Como é?
- Pelas minhas contas, são oito palavras novas que eu acabei de entregar para o senhor. Só histriônico estava na promoção, mas como o senhor se mostrou interessado, faço todas pelo mesmo preço.
- Mas oito palavras seriam quatro reais, certo?
- É que quem leva ambages ganha uma evasiva, entende?
- Tem troco para cinco?