Aconteceu numa dessas visitas de escolares ao Senado Federal brasileiro pelos idos de 2085:
- Aqui é a sala de entrevistas íntimas – explicava o guia sem apresentar um pingo de constrangimento. No início, sua face enrubescia nesse ponto da visita, todavia a convivência com os membros da casa o fez absorver e reproduzir com requintes de despudor os semblantes dos parlamentares.
- Para que serve a sala de entrevistas íntimas? Este era outro momento embaraçoso para o guia no começo de sua carreira. Em pouco tempo, porém, percebeu que pudor era um predicado não só indesejável naquele local como também era totalmente incompatível com qualquer função que pudesse lá ser exercida. Isso incluía as funções do presidente da casa às da mocinha responsável pelo cafezinho superfaturado lá degustado.
- Nesta sala – respondeu abrindo a porta - membros da imprensa e do Senado podem se relacionar trocando as mais íntimas informações sem riscos de serem interrompidos ou incomodados por uma CPI ou pela Comissão de Ética. Neste espaço, os membros são livres para um relacionamento franco, direto e aberto com os órgãos de imprensa. O guia adorava elaborar essas frases de duplo sentido. Era uma vingança em alto estilo à deputação em que se tornara o serviço parlamentar no Brasil (esta também era uma frase do guia).
- Por que uma cama? Mesa e cadeiras não seriam mais apropriadas? Perguntou outro aluno com uma falsa ingenuidade estampada na face. O guia já estava acostumado e preparado para perguntas muito mais capciosas do que essa.
- O mobiliário anterior era o de uma sala de reuniões padrão. Os parlamentares, porém, começaram a reclamar de terríveis dores nas costas. A gota d’água foi quando um senador de sobrepeso acabou arrebentando a mesa e caindo sobre a jornalista que o entrevistava. O microfone escapou incólume, mas a moça, coitada, teve outra sorte. Acredite, a imprensa fica furiosa quando quebram suas costelas. A repercussão negativa durou meses e fez a assembléia aprovar o novo mobiliário que também incluiu o banheiro com sauna e hidromassagem.
- Para quê o espelho no teto? Essa já foi uma provocação clara e grossa de outro pré-adolescente, mas que a experiência do guia já o fazia responder com elegância.
- O espelho? A imprensa tem a necessidade de olhar todos os ângulos da notícia. O parlamento, por sua vez, gosta de encarar quem lhe prende o rabo. Devolveu o guia, surpreso com a maestria da resposta recém-inventada e continuou o tour sem perder o rebolado: - É importante que vocês saibam que o Senado foi o pioneiro na adoção das salas de entrevistas íntimas. Esse modelo foi depois copiado pela Câmara dos Deputados, pelas assembléias estaduais e até por centenas de câmaras municipais por todo o país.
- Por que o Senado foi o primeiro? – agora o guia se espantou com a pergunta franca e sem malícias.
- Foi por causa de um problema do início deste século, quando um presidente do Senado se embaraçou ao ser descoberto pagando uma pensão a preço de ouro para uma filha que teve com a imprensa. Ele havia tirado dinheiro da própria propina, pedindo para seus lobistas fazerem o pagamento. A partir daí foi sendo elaborada uma legislação para o resguardo parlamentar que primeiro vetou o uso de verbas propinatórias no pagamento de pensões, depois foi promulgada a lei 523.724/2023, que instituiu a obrigatoriedade da vasectomia ou do ligamento de trompas parlamentar.
- Desde então, isto aqui virou uma putaria... – disparou o mais encapetado da turma.
O guia, inabalável, de modo algum perdeu a classe:
- Pelo o que vejo o senhor é bem fraco em História. A putaria, meu caro, sempre existiu neste país. Nós só eliminamos a hipocrisia!
20 junho 2007
A Sala de Entrevistas Íntimas
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15 junho 2007
Não use lobista, use camisinha.
Em apoio à campanha nacional de controle de natalidade, o Diário da Tribo lançou no Congresso Nacional o refrão: “Não use lobista, use camisinha”. A campanha vem em hora oportuna em que a maioria dos congressistas deixou a assessoria de lado e passou a cuidar pessoal e intimamente de suas relações com a imprensa. Claro que esse enorme empenho para conseguir penetrar na mídia vem dando frutos. O mais novo desses frutos é a filha do presidente do Senado. Apesar de não ser um veículo de sacanagem, o Diário da Tribo pretende explicitar as relações entre a imprensa e política. Melhor tirar as crianças da frente do monitor.
Encabeçando a teoria da conspiração de hoje, a Rede Globo. Mônica Veloso, mãe da filha de Renan Calheiros, é ex-funcionária da Globo. O que tem isso? Bem, se voltarmos sete aninhos no tempo, veremos que a mesma Globo era a empregadora da mãe de um filho de um presidente ainda mais ilustre, o da República. Miriam Dutra também estava no quadro da Globo quando pariu seu FHCzinho. Resta a pergunta, estariam as amantes de Lula e de Maluf (também pais bastardos) na folha de pagamento da Globo?
No vale-tudo pela informação, a Globo vai onde a notícia está (ou onde ela pode ser arrancada depois de uns dois drinques). Contratando jornalistas na fase mais fértil de suas carreiras, a emissora conseguiu informações quentes (e úmidas) além de obter amostras valiosas de sêmen para pesquisas de identificação do gene da corrupção. Ela só se esqueceu de colocar em seu manual de redação um veto ao recebimento de pensões através de lobistas. Um escândalo.
Até onde iria a Globo para conseguir informações? Enviaria Reinaldo Gianichinni para arrancar depoimentos (e suspiros) do deputado Clodovil Hernandes? A verdade é clara e escandalosa: a emissora não só omite as sacanagens de Brasília, como participa delas. E o pior: ao incentivar a reprodução descontrolada de políticos, a emissora promove a disseminação do gene da corrupção que acaba se perpetuando e enchendo o país de novos congressistas. O povo não é bobo, fora da cama, Rede Globo!
Encabeçando a teoria da conspiração de hoje, a Rede Globo. Mônica Veloso, mãe da filha de Renan Calheiros, é ex-funcionária da Globo. O que tem isso? Bem, se voltarmos sete aninhos no tempo, veremos que a mesma Globo era a empregadora da mãe de um filho de um presidente ainda mais ilustre, o da República. Miriam Dutra também estava no quadro da Globo quando pariu seu FHCzinho. Resta a pergunta, estariam as amantes de Lula e de Maluf (também pais bastardos) na folha de pagamento da Globo?
No vale-tudo pela informação, a Globo vai onde a notícia está (ou onde ela pode ser arrancada depois de uns dois drinques). Contratando jornalistas na fase mais fértil de suas carreiras, a emissora conseguiu informações quentes (e úmidas) além de obter amostras valiosas de sêmen para pesquisas de identificação do gene da corrupção. Ela só se esqueceu de colocar em seu manual de redação um veto ao recebimento de pensões através de lobistas. Um escândalo.
Até onde iria a Globo para conseguir informações? Enviaria Reinaldo Gianichinni para arrancar depoimentos (e suspiros) do deputado Clodovil Hernandes? A verdade é clara e escandalosa: a emissora não só omite as sacanagens de Brasília, como participa delas. E o pior: ao incentivar a reprodução descontrolada de políticos, a emissora promove a disseminação do gene da corrupção que acaba se perpetuando e enchendo o país de novos congressistas. O povo não é bobo, fora da cama, Rede Globo!
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11 junho 2007
Eu tô na Língua!
É com a alma sacolejada na centrifugação anárquico-fantasiosa da literatura universal brasileira que vos comunico essa boa nova: estou na revista Língua Portuguesa deste mês!
Não. O careca da capa não sou eu, é o Rubem Alves. Eu participo com “O Vendedor de Palavras”. O conto ainda deve ser indicado ao Oscar de melhor roteiro e se tornar a primeira obra a render, por si só, um Nobel de Literatura (o primeiro do Brasil).
Com isso, não aceitarei uma mera indicação à Academia Brasileira de Letras, sererei (sic) seu presidente logo de cara. Meu primeiro decreto será substituir o tradicional chá pelo vanguardista chope gelado, bebida muito mais eficiente no auxílio da fluência vocabular.
Não poderia deixar de agradecer às presidentas do meu Comitê de Campanha pró-ABL, Janete Stela Domenica e Pseudônimas Associadas. Ela arriscou sua carreira no mundo das letras e a de seus mais de 90 pseudônimos, organizando a minha campanha “Vote ni mim; Paulo Coelho também não era bom, assim!”
Neste país de funcionalidades, serei mais um acadêmico funcional que sabe assinar o próprio nome para autografar os próprios best-sellers.
Bem, isso tudo foi para dizer: comprem a bendita revista! E deixem claro para a editora que não foi por causa do careca da capa! (nada pessoal, Rubem!)
Não. O careca da capa não sou eu, é o Rubem Alves. Eu participo com “O Vendedor de Palavras”. O conto ainda deve ser indicado ao Oscar de melhor roteiro e se tornar a primeira obra a render, por si só, um Nobel de Literatura (o primeiro do Brasil).
Com isso, não aceitarei uma mera indicação à Academia Brasileira de Letras, sererei (sic) seu presidente logo de cara. Meu primeiro decreto será substituir o tradicional chá pelo vanguardista chope gelado, bebida muito mais eficiente no auxílio da fluência vocabular.
Não poderia deixar de agradecer às presidentas do meu Comitê de Campanha pró-ABL, Janete Stela Domenica e Pseudônimas Associadas. Ela arriscou sua carreira no mundo das letras e a de seus mais de 90 pseudônimos, organizando a minha campanha “Vote ni mim; Paulo Coelho também não era bom, assim!”
Neste país de funcionalidades, serei mais um acadêmico funcional que sabe assinar o próprio nome para autografar os próprios best-sellers.
Bem, isso tudo foi para dizer: comprem a bendita revista! E deixem claro para a editora que não foi por causa do careca da capa! (nada pessoal, Rubem!)
01 junho 2007
Como escrever uma carta de amor
Nesta época do ano, às vésperas do Dia dos Namorados, renasce a mesmice, viceja a falta de originalidade e resplandece os chavões “minha vida sem você...”, “amo mais do que tudo...”, “I love you, baby...” Afinal, tirar flores diferentes do mesmo canteiro a cada ano não é mole. Se você trocou de namorado(a) há menos de um ano, pode lançar mão de um recurso eficiente e de extremo mau gosto: usar a mesma mensagem enviada ao “ex” no ano passado para o novo parceiro. Àqueles, porém, que quiserem dizer a mesma coisa com palavras completamente diferentes, dedico esta modesta receita de declaração de amor.
Nesta atividade estão excluídos recursos narco-etílico-inspiradores que, apesar de mostrar certa eficácia, podem causar dependência além de produzirem frases só inteligíveis para os que fizerem uso dos mesmos subterfúgios. Mantida, pois, a sobriedade, vamos ao trabalho.
Ingredientes
Os românticos vão me desculpar, mas só amor não basta para fazer uma carta de Dia dos Namorados. É preciso um algo a mais, um veículo para a sua mensagem, uma pipa para o vento da sua criatividade, uma carruagem para levar seus nobres sentimentos, um altar para imolar as palavras, ou seja, você vai precisar de papel e caneta. Porém, atenção: se sua letra for tão bonita quanto um ensaio sexy do Ronaldinho Gaúcho, não pense duas vezes, recorra à dupla computador e impressora.
Ter um destinatário ajuda. Entretanto, o fato de não ter namorado(a) não impede a elaboração de uma carta de amor. Todos saímos de fábrica com um modelo idealizado do amor. Não sabemos explicá-lo, mas até o mais distraído dos mortais conhece o “jeitão” dele. Vá até esse compartimento interior, desatarraxe o modelo e tire dele suas palavras de amor.
Preparo
Escreva-as mesmo se não houver ninguém para recebê-las agora. O texto, se guardado em local fresco e seco, terá validade indeterminada e poderá servir vários destinatários contanto que o namorado em exercício não desconfie estar recebendo palavras de segunda-mão.
Munido desse molde de amor, papel e caneta, tranque-se num lugar tranqüilo (até banheiro está valendo). Pense em tudo que lhe dá prazer: novela, futebol, cachaça, cinema, cama, sonhos, nuvem, poesia, dança, chá, praia, montanha, árvore, chocolate, chácara... Cheiro de mar, de terra molhada, de chuva no chão, de brinquedo novo, de brisa de lagoa, de perfume antigo, de banho fresco... Ouça pássaros, canções de amor, vento passando, uma voz bonita, o silêncio. Se nenhuma palavra lhe vier à cabeça, se os sonhos ficaram mais fortes e se deu uma vontade louca de sair beijando o mundo, você se encontrou.
Diga a esse seu recém-conhecido “eu” o quanto você o admira e que falta fazia a consciência da sua presença. Gente de mal de si mesma, ensimesma-se, abrocha-se e murcha. Regue seu jardim de paz e adube seu coração com liberdade para não sufocar depois o canteiro de outrem com o modelinho quadrado e reduzido que você tinha do amor.
Finalmente, você ficará espantado ao perceber, de repente, que criou as palavras mais extraordinárias e originais sobre o amor:
“EU AMO VOCÊ!”
Nesta atividade estão excluídos recursos narco-etílico-inspiradores que, apesar de mostrar certa eficácia, podem causar dependência além de produzirem frases só inteligíveis para os que fizerem uso dos mesmos subterfúgios. Mantida, pois, a sobriedade, vamos ao trabalho.
Ingredientes
Os românticos vão me desculpar, mas só amor não basta para fazer uma carta de Dia dos Namorados. É preciso um algo a mais, um veículo para a sua mensagem, uma pipa para o vento da sua criatividade, uma carruagem para levar seus nobres sentimentos, um altar para imolar as palavras, ou seja, você vai precisar de papel e caneta. Porém, atenção: se sua letra for tão bonita quanto um ensaio sexy do Ronaldinho Gaúcho, não pense duas vezes, recorra à dupla computador e impressora.
Ter um destinatário ajuda. Entretanto, o fato de não ter namorado(a) não impede a elaboração de uma carta de amor. Todos saímos de fábrica com um modelo idealizado do amor. Não sabemos explicá-lo, mas até o mais distraído dos mortais conhece o “jeitão” dele. Vá até esse compartimento interior, desatarraxe o modelo e tire dele suas palavras de amor.
Preparo
Escreva-as mesmo se não houver ninguém para recebê-las agora. O texto, se guardado em local fresco e seco, terá validade indeterminada e poderá servir vários destinatários contanto que o namorado em exercício não desconfie estar recebendo palavras de segunda-mão.
Munido desse molde de amor, papel e caneta, tranque-se num lugar tranqüilo (até banheiro está valendo). Pense em tudo que lhe dá prazer: novela, futebol, cachaça, cinema, cama, sonhos, nuvem, poesia, dança, chá, praia, montanha, árvore, chocolate, chácara... Cheiro de mar, de terra molhada, de chuva no chão, de brinquedo novo, de brisa de lagoa, de perfume antigo, de banho fresco... Ouça pássaros, canções de amor, vento passando, uma voz bonita, o silêncio. Se nenhuma palavra lhe vier à cabeça, se os sonhos ficaram mais fortes e se deu uma vontade louca de sair beijando o mundo, você se encontrou.
Diga a esse seu recém-conhecido “eu” o quanto você o admira e que falta fazia a consciência da sua presença. Gente de mal de si mesma, ensimesma-se, abrocha-se e murcha. Regue seu jardim de paz e adube seu coração com liberdade para não sufocar depois o canteiro de outrem com o modelinho quadrado e reduzido que você tinha do amor.
Finalmente, você ficará espantado ao perceber, de repente, que criou as palavras mais extraordinárias e originais sobre o amor:
“EU AMO VOCÊ!”
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25 maio 2007
O autógrafo
Esta foi feita sob encomenda para o Dia Internacional do Administrador de Pessoal. É isso mesmo. Esse cara tem um dia só pra ele, 03 de junho, e ainda por cima é internacional. Parabéns para o cara e pro pessoal que ele administra.
O Autógrafo
Como todos os dias depois do expediente, ele atravessou a rua e entrou na padaria da esquina. Enquanto esperava na fila da mortadela, um garoto de mais ou menos oito anos, com cara de bolacha, caderno e caneta na mão ficou encarando-o.
- O que foi? Disse incomodado.
- O que o senhor faz, hein? Perguntou o guri.
- Eu sou administrador de pessoal
- Ah! O senhor meio que... administra o pessoal, né?
- É.
- E o pessoal gosta de ser administrado pelo senhor?
- O que você quer, menino?
- Um autógrafo. É para a gincana lá da escola.
- Me dá aqui logo o seu caderno que eu autografo.
- Desculpe, mas a pessoa precisa ter alguma profissão importante. É regra da gincana.
- Tá dizendo que administração de pessoal não é importante?
- Eu nunca ouvi ninguém importante dizendo que é administrador de pessoal.
- Mas tem muito administrador de pessoal importante.
- Qual?
- Ora, você não conhece!
- Tá legal. Vou pegar o autógrafo do meu vizinho. Disse o garoto já virando de costas.
- Hei, volte aqui. O que esse cara faz?
- Ele é presidente da escola de samba do bairro.
- Eu faço a mesma coisa que ele, só que com muito mais gente.
- O senhor é sambista, é?
- Não, mas o trabalho é muito parecido. Eu sou o responsável por todos os integrantes. Contrato e mando embora todos, desde os da comissão de frente até o último carro alegórico.
- Só isso?
- Eu também organizo todos os ensaios, determino as fantasias e digo quando um baterista vira mestre de bateria.
- O senhor também sai com as passistas que nem o meu vizinho?
- Não! Eu até proíbo todo mundo de sair com as passistas no horário de trabalho.
- O senhor tem uma profissão muito esquisita.
- Qual é, garoto? Sem mim, ninguém trabalha em lugar nenhum! Dá aqui o seu caderno que eu autografo.
- Sei não...
- O que é isso? Eu sou muito importante lá na empresa. Todo mundo que quiser um aumento por lá tem que pedir a minha autorização. A minha assinatura vale ouro.
- Tá bom. – disse o menino abrindo o caderno ainda com cara de não conformado – Mas assine embaixo da folha porque em cima eu vou ter que fazer uma redação sobre a sua profissão.
- Tá legal, me dá o caderno logo...
Chegando em casa, o garoto jogou o caderno na mesa de jantar na frente do pai :
- Pronto, pai. Tá aqui a assinatura daquele cara que há cinco anos não te dá aumento. Agora eu quero a minha bicicleta nova!
O Autógrafo
Como todos os dias depois do expediente, ele atravessou a rua e entrou na padaria da esquina. Enquanto esperava na fila da mortadela, um garoto de mais ou menos oito anos, com cara de bolacha, caderno e caneta na mão ficou encarando-o.
- O que foi? Disse incomodado.
- O que o senhor faz, hein? Perguntou o guri.
- Eu sou administrador de pessoal
- Ah! O senhor meio que... administra o pessoal, né?
- É.
- E o pessoal gosta de ser administrado pelo senhor?
- O que você quer, menino?
- Um autógrafo. É para a gincana lá da escola.
- Me dá aqui logo o seu caderno que eu autografo.
- Desculpe, mas a pessoa precisa ter alguma profissão importante. É regra da gincana.
- Tá dizendo que administração de pessoal não é importante?
- Eu nunca ouvi ninguém importante dizendo que é administrador de pessoal.
- Mas tem muito administrador de pessoal importante.
- Qual?
- Ora, você não conhece!
- Tá legal. Vou pegar o autógrafo do meu vizinho. Disse o garoto já virando de costas.
- Hei, volte aqui. O que esse cara faz?
- Ele é presidente da escola de samba do bairro.
- Eu faço a mesma coisa que ele, só que com muito mais gente.
- O senhor é sambista, é?
- Não, mas o trabalho é muito parecido. Eu sou o responsável por todos os integrantes. Contrato e mando embora todos, desde os da comissão de frente até o último carro alegórico.
- Só isso?
- Eu também organizo todos os ensaios, determino as fantasias e digo quando um baterista vira mestre de bateria.
- O senhor também sai com as passistas que nem o meu vizinho?
- Não! Eu até proíbo todo mundo de sair com as passistas no horário de trabalho.
- O senhor tem uma profissão muito esquisita.
- Qual é, garoto? Sem mim, ninguém trabalha em lugar nenhum! Dá aqui o seu caderno que eu autografo.
- Sei não...
- O que é isso? Eu sou muito importante lá na empresa. Todo mundo que quiser um aumento por lá tem que pedir a minha autorização. A minha assinatura vale ouro.
- Tá bom. – disse o menino abrindo o caderno ainda com cara de não conformado – Mas assine embaixo da folha porque em cima eu vou ter que fazer uma redação sobre a sua profissão.
- Tá legal, me dá o caderno logo...
Chegando em casa, o garoto jogou o caderno na mesa de jantar na frente do pai :
- Pronto, pai. Tá aqui a assinatura daquele cara que há cinco anos não te dá aumento. Agora eu quero a minha bicicleta nova!
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14 maio 2007
Ainda vendendo palavras
Como elogio da própria boca é vitupério, uso a boca de outrem para me auto-elogiar.
O trecho abaixo é um "abre" para o Vendedor de Palavras, crônica minha publicada no espaço underground Lágrima Psicodélica. (http://lagrimapsicodelica.blogspot.com).
Aproveito o comentário para avisar que não publico crônicas em arquivos Power Point. Se alguém receber alguma mensagem com musiquinha melosa com paisagens ao fundo não foi obra minha. Uma campanha por um mundo menos piegas!
"O texto a seguir foi-me enviado por e-mail e há muito não me cai em mãos algo tão bom.
É ótimo quando nos enviam coisas assim e, melhor ainda, sem aquelas apresentações em pps com letras em profusão caindo em cascata à frente de uma paisagem e com Kenny G tocando ao fundo. São minutos intermináveis. Atualmente, basta o campo 'Assunto' apresentar títulos como 'Muito Lindo', 'Lindo Demais', 'Linda Mensagem' ou, pior, qualquer uma destas acompanhada de '(Com Som)' que mando pra lixeira sem dó. Mas não adianta, sempre aparece um outro contato que te envia novamente!
Aqui, nada mais temos que um texto inteligente, edificante, esclarecedor e exposto de maneira direta. E recheado de humor.
Um primor.
Sinceramente, não conheço o autor, Fábio Reynol, mas já vou pesquisar o cara.
Me vendeu suas palavras direitinho, o sacana."
O trecho abaixo é um "abre" para o Vendedor de Palavras, crônica minha publicada no espaço underground Lágrima Psicodélica. (http://lagrimapsicodelica.blogspot.com).
Aproveito o comentário para avisar que não publico crônicas em arquivos Power Point. Se alguém receber alguma mensagem com musiquinha melosa com paisagens ao fundo não foi obra minha. Uma campanha por um mundo menos piegas!
"O texto a seguir foi-me enviado por e-mail e há muito não me cai em mãos algo tão bom.
É ótimo quando nos enviam coisas assim e, melhor ainda, sem aquelas apresentações em pps com letras em profusão caindo em cascata à frente de uma paisagem e com Kenny G tocando ao fundo. São minutos intermináveis. Atualmente, basta o campo 'Assunto' apresentar títulos como 'Muito Lindo', 'Lindo Demais', 'Linda Mensagem' ou, pior, qualquer uma destas acompanhada de '(Com Som)' que mando pra lixeira sem dó. Mas não adianta, sempre aparece um outro contato que te envia novamente!
Aqui, nada mais temos que um texto inteligente, edificante, esclarecedor e exposto de maneira direta. E recheado de humor.
Um primor.
Sinceramente, não conheço o autor, Fábio Reynol, mas já vou pesquisar o cara.
Me vendeu suas palavras direitinho, o sacana."
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09 maio 2007
Papa, excomungai nosso Congresso! Congresso, papai a grana de outro!

Pacato cidadão brasileiro,
Segure a sua carteira. Fique de olho na sua bolsa. Enquanto você estiver olhando o papa a abençoar o Brasil em sua cabine à prova de bênção na sacada do mosteiro, vai ter gente passando a mão no seu bolso. O Congresso Nacional, onde a deputação corre solta, está aproveitando os holofotes sobre o Sumo Pontíficie para sumir com parte do dinheiro público.
Vossas Insolências vão votar o aumento dos próprios salários. Claro que será em caráter de urgência porque nosso PIB explodiria se os congressistas continuassem a depender de propina para sobreviver. Esse despejo de grana vai inflacionar o mercado da corrupção e dificultar a vida de quem movimenta a economia deste país, os criminosos do colarinho branco.
Depois do aumento, não serão quaisquer R$100 mil que comprarão um deputadinho de segunda. O deputado e o senador com mais dinheiro legal (ainda que imoral) no bolso vão fazer disparar a cotação do congressista no mercado negro; o que tornará mais distante ao cidadão comum o sonho de obter o deputado próprio. É questão de tempo para ouvirmos o bicheiro no próximo grampo da Polícia Federal: “o preço da arroba do deputado gordo tá pela hora da morte!”
A movimentação para a votação prossegue sorrateira em Brasília, mas não poderia passar despercebida. A opinião pública estranhou ver os congressistas em plena atividade laboral. Que colocassem seus interesses acima dos da nação vá lá. Já estamos acostumados. Mas ao aparecerem para trabalhar (no puro sentido da palavra) deram muita bandeira e, é claro, levantaram inevitáveis suspeitas.
Justiça seja feita (no sentido figurado da palavra), a decisão de esconder o desavergonhado aumento debaixo da batina do papa foi motivada por boas intenções. O Congresso quis poupar os olhos da nação dessas cenas de sacanagem e de imoralidade, totalmente inapropriadas para um país decente.
Se for para aprontar atrás da moita, as TVs Congresso e Senado deveriam ir ao ar só depois das 23 horas. No horário nobre, poderiam transmitir a visita do papa, a final do Brasileirão e a cara-de-pau do presidente e de seu vice fingindo se preocuparem com o aborto.
Seu Papa, acudi-nos! Nossos representantes querem fazer conosco o que os padres de Boston fizeram com seus coroinhas!
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02 maio 2007
Eu quero a minha mãe
A história de que Deus enviou seu filho ao mundo em uma missão de resgate suicida foi apenas uma versão divulgada à imprensa para disfarçar um pequeno conflito familiar no Céu. A verdade é que o menino desceu por sua conta e risco por um motivo muito mais humano do que divino: a inveja.
Numa tarde de verão, enquanto Deus Pai descansava em sua rede, Deus Menino escapuliu cá pra baixo pegando carona num raio de sol. Ao acordar, o Criador do universo encheu-se da mais divina das cóleras. "Onde está o garoto?", perguntou ao seu querubim-governanta ao não localizar seu rebento. "Creio que está na Terra, Senhor. Foi se esconder dentro do ventre de uma mulher." Demonstrando sua enorme sabedoria, o Onipotente resolveu não interferir. "Deixe-o lá. Quando voltar, nós conversaremos," vaticinou.
O garoto retornou 33 anos depois. O Pai o esperava acordado.
- Como foi o passeio? Perguntou o Velho.
- Maravilhoso! Respondeu enquanto despia as roupas mundanas e vestia as celestiais.
- Por que resolveste descer tão de repente, sem avisar? Comentou o Pai de braços cruzados, mas mantendo a calma como convém a um Deus compassivo.
- Me desculpa, Pai. Fiquei mordido de inveja de todos aqueles que têm alguém para chamar de mãe. Resolvi ter uma também – Confessou o rapaz demonstrando uma humildade digna de um Filho de Deus, enquanto estendia uma xícara de chocolate quente para apanhar uma nuvem de chantili.
- Mas por que numa casa de carpinteiro? Tu poderias ter nascido príncipe! – Comentou o Pai olhando para todo aquele chantili.
- Queria aprender teu ofício, Pai. – disse o Rapaz com uma crosta de chantili no bigode - Como tu, queria saber fazer aquele magnífico berço que os homens chamam de mãe.
- E o que aprendeste?
- Que as mães são muito mais do que isso. Depois de carregar seus filhos no ventre, elas cuidam deles eternamente. Quando pequenos, elas acordam à noite para tratar suas dores, os alimentam mesmo quando elas mesmas não tenham o que comer, participam de suas brincadeiras e lhes dão aconchego. Depois que crescem, os filhos recorrem à mãe sempre que precisam de um colo.
- Aprendeste tudo isso com essas mulheres?
- Mãe não é apenas uma mulher, é um lugar para o qual as crianças de zero a 50 anos retornam quando querem saber o que colocar numa picada de abelha ou simplesmente para comer novamente a torta da infância. Aquele que guarda a memória da mãe, mantém viva em si a criança que é, mesmo que tenha 90 anos de idade.
- Foi tua mãe que te ensinou tudo isso?
- Ela agüentou minhas estripulias, puxou minhas orelhas, me educou, apoiou meus sonhos e esteve ao meu lado até nos piores momentos.
- E então? Sabes agora como projetei as mães?
O Rapaz Deus lambeu o enorme bigode de chantili olhando para o Céu, ou seja, para os lados. Ficou por um momento pensativo saboreando o chantili com o restinho do chocolate e arriscou:
- Suponho que aquilo que os homens resumem na palavra "mamãe" seja uma altíssima concentração do teu infinito Amor encerrada numa alma feminina. É isso?
- Tu o dizes!
- Hei! Essa fala é minha!
Numa tarde de verão, enquanto Deus Pai descansava em sua rede, Deus Menino escapuliu cá pra baixo pegando carona num raio de sol. Ao acordar, o Criador do universo encheu-se da mais divina das cóleras. "Onde está o garoto?", perguntou ao seu querubim-governanta ao não localizar seu rebento. "Creio que está na Terra, Senhor. Foi se esconder dentro do ventre de uma mulher." Demonstrando sua enorme sabedoria, o Onipotente resolveu não interferir. "Deixe-o lá. Quando voltar, nós conversaremos," vaticinou.
O garoto retornou 33 anos depois. O Pai o esperava acordado.
- Como foi o passeio? Perguntou o Velho.
- Maravilhoso! Respondeu enquanto despia as roupas mundanas e vestia as celestiais.
- Por que resolveste descer tão de repente, sem avisar? Comentou o Pai de braços cruzados, mas mantendo a calma como convém a um Deus compassivo.
- Me desculpa, Pai. Fiquei mordido de inveja de todos aqueles que têm alguém para chamar de mãe. Resolvi ter uma também – Confessou o rapaz demonstrando uma humildade digna de um Filho de Deus, enquanto estendia uma xícara de chocolate quente para apanhar uma nuvem de chantili.
- Mas por que numa casa de carpinteiro? Tu poderias ter nascido príncipe! – Comentou o Pai olhando para todo aquele chantili.
- Queria aprender teu ofício, Pai. – disse o Rapaz com uma crosta de chantili no bigode - Como tu, queria saber fazer aquele magnífico berço que os homens chamam de mãe.
- E o que aprendeste?
- Que as mães são muito mais do que isso. Depois de carregar seus filhos no ventre, elas cuidam deles eternamente. Quando pequenos, elas acordam à noite para tratar suas dores, os alimentam mesmo quando elas mesmas não tenham o que comer, participam de suas brincadeiras e lhes dão aconchego. Depois que crescem, os filhos recorrem à mãe sempre que precisam de um colo.
- Aprendeste tudo isso com essas mulheres?
- Mãe não é apenas uma mulher, é um lugar para o qual as crianças de zero a 50 anos retornam quando querem saber o que colocar numa picada de abelha ou simplesmente para comer novamente a torta da infância. Aquele que guarda a memória da mãe, mantém viva em si a criança que é, mesmo que tenha 90 anos de idade.
- Foi tua mãe que te ensinou tudo isso?
- Ela agüentou minhas estripulias, puxou minhas orelhas, me educou, apoiou meus sonhos e esteve ao meu lado até nos piores momentos.
- E então? Sabes agora como projetei as mães?
O Rapaz Deus lambeu o enorme bigode de chantili olhando para o Céu, ou seja, para os lados. Ficou por um momento pensativo saboreando o chantili com o restinho do chocolate e arriscou:
- Suponho que aquilo que os homens resumem na palavra "mamãe" seja uma altíssima concentração do teu infinito Amor encerrada numa alma feminina. É isso?
- Tu o dizes!
- Hei! Essa fala é minha!
26 abril 2007
Adeus limbo!

Sua Santidade e CEO da Igreja Católica Germânico-romana, Bento 16, acaba de desativar o Limbo, a enorme ante-sala do céu para onde eram destinadas todas as crianças que batiam as botinhas antes de ser batizadas. A repartição havia sido criada no século V, pelo bispo de Hipona, Agostinho, quando a Igreja estava sob a administração de Celestino I. O objetivo era servir de abrigo para as pessoas que não eram mazinhas o bastante para ir para o Inferno ou para o Purgatório nem limpinhas o suficiente para entrar no Céu, já que não haviam sido lavadas nas águas batismais.
A maioria dos inquilinos do Limbo acabou sendo crianças não batizadas, pois que, uma vez adulto, era difícil não dar uma pecadinha que valesse uma estadia com o Coisa Ruim. A preocupação de Agostinho tinha sentido, essa criançada iria emporcalhar as nuvens branquinhas do Paraíso com os seus Pecadinhos Originais. Portanto era melhor que ficassem em uma creche separada e assim evitar a ira de Deus e o conseqüente aumento de suas madeixas brancas.
Com a globalização, porém, ficou difícil diferenciar o Pecado Original de Fábrica de seus congêneres pirateados. Atualmente, cerca de um quinto do pecado dito original do mundo nasce na China, é contrabandeado em navios para os Estados Unidos, confessado no Brasil e perdoado na Itália. A salada mundial confundiu o setor de triagem do Paraíso e foram encontradas no Limbo muitas almas que não tinham o Pecado Original, mas uma imitação paraguaia barata do deslize de Adão e Eva.
Ao alvorecer do Século XXI, o Vaticano logo viu que não valeria a pena exigir batistério (certificado que o cristão foi batizado) para conceder a cidadania celestial e autorizou o Departamento de Migração a carimbar os passaportes dos moradores do gueto do Limbo. A decisão veio após meses de discussão da alta diretoria do Vaticano e acabou sendo protocolada pelo CEO, Bento XVI.
Para evitar desemprego no andar de cima, os anjos lotados na unidade deverão ser remanejados para o Céu ou enviados para o Rio de Janeiro, a pedido do governador Sérgio Cabral. O ato eclesiástico animou a comunidade excluída internacional - em especial os gays, descasados e simpatizantes – que agora pressiona a Santa Sé para extinguir também o Inferno. Eles querem passar a eternidade do mesmo modo como vivem aqui: ao lado de Deus.
A maioria dos inquilinos do Limbo acabou sendo crianças não batizadas, pois que, uma vez adulto, era difícil não dar uma pecadinha que valesse uma estadia com o Coisa Ruim. A preocupação de Agostinho tinha sentido, essa criançada iria emporcalhar as nuvens branquinhas do Paraíso com os seus Pecadinhos Originais. Portanto era melhor que ficassem em uma creche separada e assim evitar a ira de Deus e o conseqüente aumento de suas madeixas brancas.
Com a globalização, porém, ficou difícil diferenciar o Pecado Original de Fábrica de seus congêneres pirateados. Atualmente, cerca de um quinto do pecado dito original do mundo nasce na China, é contrabandeado em navios para os Estados Unidos, confessado no Brasil e perdoado na Itália. A salada mundial confundiu o setor de triagem do Paraíso e foram encontradas no Limbo muitas almas que não tinham o Pecado Original, mas uma imitação paraguaia barata do deslize de Adão e Eva.
Ao alvorecer do Século XXI, o Vaticano logo viu que não valeria a pena exigir batistério (certificado que o cristão foi batizado) para conceder a cidadania celestial e autorizou o Departamento de Migração a carimbar os passaportes dos moradores do gueto do Limbo. A decisão veio após meses de discussão da alta diretoria do Vaticano e acabou sendo protocolada pelo CEO, Bento XVI.
Para evitar desemprego no andar de cima, os anjos lotados na unidade deverão ser remanejados para o Céu ou enviados para o Rio de Janeiro, a pedido do governador Sérgio Cabral. O ato eclesiástico animou a comunidade excluída internacional - em especial os gays, descasados e simpatizantes – que agora pressiona a Santa Sé para extinguir também o Inferno. Eles querem passar a eternidade do mesmo modo como vivem aqui: ao lado de Deus.
20 abril 2007
Vâmo pulá! Acaba o casamento de Sandy e Júnior
Gostaria de deixar claro que não é objetivo deste blog ser fórum de fofocas televisivas nem de mexericos globais. Este assunto só encontrou lugar aqui por causa da gigantesca comoção mundial que ele provocou esta semana.
Terminou uma das mais longas uniões da história do show business brasileiro. Após 17 anos de relacionamento sólido, a dupla Sandy e Júnior, filhos de Chitãozinho e Chororó, vai se separar. Eles começaram a carreira perguntando a Maria Chiquinha o que ela tinha ido fazer no mato. O conteúdo subliminar porno-erótico da canção deu lugar a baladinhas sensuais na década de 1990, como a “ah, ah, vai ter que rebolar...”
Curiosidade: trata-se de uma das raras separações de famosos que não começou com uma “bênção” do padre Antônio Maria. O sacerdote está envolvido em oito de cada dez casamentos retratados pelas capas de Contigo e de Caras e que acabaram em água (nada benta). Suspeita-se que Antônio Maria deva estar por trás de boa parte dos seis enlaces mal sucedidos de Gretchen e dos 18 do humorista Chico Anysio.
Recall eclesial
A “cola” matrimonial empregada pelo padre está mais para “goma arábica” o que deveria obrigar o Vaticano a fazer um recall dos casados por ele para que recebam uma bênção mais encorpada. Aqui vai a minha sugestão para o texto da campanha: “A Igreja Católica Apóstólica Romana convoca todos os casados com certidão de final 0497 a 0876, enlaçados pelo sacerdote Antônio Maria e que ainda assim permanecem, a comparecer o quanto antes à igreja autorizada mais próxima para a realização do serviço de reforço de solda benta nupcial. A liga utilizada originalmente foi considerada fraca e pode provocar rompimentos repentinos ao ultrapassar obstáculos. A igreja não se responsabiliza pelos enlaces já rompidos. Em caso de indignação: vá reclamar ao bispo.”
Para o caso de Sandy e Junior, porém, não há salvação eclesial, uma vez que o padre tirou o corpo dessa história. Antônio Maria já provou que o único ponto em comum que mantém com a dupla é o fato de não saber cantar. O casal não deixa filhos e a separação de bens deverá se dar de maneira amigável com cada parte ficando com apenas R$ 619 milhões livre de impostos. O talento deverá continuar no cofre da família de onde ninguém até hoje teve coragem de tirar para mostrar ao público.
Terminou uma das mais longas uniões da história do show business brasileiro. Após 17 anos de relacionamento sólido, a dupla Sandy e Júnior, filhos de Chitãozinho e Chororó, vai se separar. Eles começaram a carreira perguntando a Maria Chiquinha o que ela tinha ido fazer no mato. O conteúdo subliminar porno-erótico da canção deu lugar a baladinhas sensuais na década de 1990, como a “ah, ah, vai ter que rebolar...”
Curiosidade: trata-se de uma das raras separações de famosos que não começou com uma “bênção” do padre Antônio Maria. O sacerdote está envolvido em oito de cada dez casamentos retratados pelas capas de Contigo e de Caras e que acabaram em água (nada benta). Suspeita-se que Antônio Maria deva estar por trás de boa parte dos seis enlaces mal sucedidos de Gretchen e dos 18 do humorista Chico Anysio.
Recall eclesial
A “cola” matrimonial empregada pelo padre está mais para “goma arábica” o que deveria obrigar o Vaticano a fazer um recall dos casados por ele para que recebam uma bênção mais encorpada. Aqui vai a minha sugestão para o texto da campanha: “A Igreja Católica Apóstólica Romana convoca todos os casados com certidão de final 0497 a 0876, enlaçados pelo sacerdote Antônio Maria e que ainda assim permanecem, a comparecer o quanto antes à igreja autorizada mais próxima para a realização do serviço de reforço de solda benta nupcial. A liga utilizada originalmente foi considerada fraca e pode provocar rompimentos repentinos ao ultrapassar obstáculos. A igreja não se responsabiliza pelos enlaces já rompidos. Em caso de indignação: vá reclamar ao bispo.”
Para o caso de Sandy e Junior, porém, não há salvação eclesial, uma vez que o padre tirou o corpo dessa história. Antônio Maria já provou que o único ponto em comum que mantém com a dupla é o fato de não saber cantar. O casal não deixa filhos e a separação de bens deverá se dar de maneira amigável com cada parte ficando com apenas R$ 619 milhões livre de impostos. O talento deverá continuar no cofre da família de onde ninguém até hoje teve coragem de tirar para mostrar ao público.
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12 abril 2007
Um congresso de tirar o chapéu
O grau de desenvolvimento de um país pode ser medido pelos mais estapafúrdios indicadores como o tipo de vaso sanitário em que seu povo se senta ou os projetos de lei votados em suas casas legislativas. No Brasil, projetos de lei e vasos sanitários são bem diferentes quanto à forma, mas guardam impressionantes semelhanças de conteúdo. Deixarei as latrinas para uma análise posterior em um próximo ensaio econômico-político-escatológico que colocará O Capital de Marx no bolso. Trato aqui, pois, de como as pautas das assembléias de representantes eleitos indicam se uma nação atingiu ou não o pleno desenvolvimento.
Supõe-se que quando um povo elimina seus problemas mais elementares de saúde, educação, segurança, etc., seus deputados e senadores, a fim de justificar seus salários, comecem a se aventurar em novas searas legislativas como a criação de normas que regulamentem o penteado dos membros do senado, a tonalidade de batom das juízas federais em comparação às colegas estaduais e os perfumes sancionados para uso em repartições públicas.
E foi justamente neste indicador denominado “Ausência Laboral Parlamentar” (também conhecido como Falta de Serviço) que o Brasil acaba de alcançar o grau máximo de desenvolvimento. Nesta semana, passou na frente das demais pautas a serem votadas a lei que regulamenta os trajes parlamentares, o que demonstra o elevado nível de futilidade atingido pelo Congresso Nacional brasileiro.
O motivo da urgência da votação foi conter a ameaça representada pelo deputado baiano Edgar Mão Branca (PV). O cabra só aparece na assembléia com seu inseparável chapéu de couro no melhor estilo "rei do cangaço". Receosos de que o colega recebesse mais holofotes do que eles próprios, os demais membros da casa decidiram votar em regime de urgência a lei que restringe o traje parlamentar a terno, gravata, uma camisa por baixo desta, sapato e um relógio suíço. Roupas íntimas e meias ainda hão de ser regulamentadas a fim de que estas combinem com aquelas e ambas ornem com a tonalidade das calças.
O descumprimento dessa lei levará o parlamentar a enfrentar uma Comissão de Ética por quebra de decoro o que é, no mínimo, inadequado. O correto seria a criação de uma Comissão de Estilo e Etiqueta cuja presidência teria o nome do deputado Clodovil Hernandes (PTC-SP) como candidato mais indicado. Estilista de renome, Hernandes botaria a tão sonhada ordem na casa ao impor as combinações apropriadas traje-ambiente e promover a renovação dos tecidos que saírem de moda.
Fosse criada há mais tempo, a Comissão de Estilo e Etiqueta teria evitado aberrações como a Dança do Mensalão coreografada e interpretada pela ex-deputada Ângela Guadagnin (PT-SP). “Vossa Excelência desonrou esta Casa ao dançar sem ritmo e não sincronizar vosso traseiro parlamentar ao movimento das mãos”, diria o relatório da comissão, “dados os fatos supra-narrados não resta a este relator senão sugerir como punição o encaminhamento de Vossa Excelência a uma academia de dança onde debutará ao som da canção 'Tô ficando atoladinha'”.
A mesma comissão teria defendido os olhos da nação das tinturas capilares berrantes da ex-deputada Esther Grossi (PT-RS). “Vossa Excelência quebrou o decoro capilar desta casa ao tingir os cabelos em tom rosa-fúcsia em clara dissonância com as unhas purple-baby. Acrescente-se o agravante que a coloração capilar do momento é azul-bolor-metálico, tom que Vossa Excelência deixou de usar há três dias,” sentenciaria o presidente da comissão.
Enquanto essa importantérrima Comissão específica não nasce, nós, brasileiros, podemos nos sentir orgulhosos por termos um Congresso muito mais desenvolvido que a nação que o mantém. Enquanto as decisões cruciais tomam a pauta dos legisladores, o povo se atém a banalidades como o que comer, onde estudar e para onde correr em casos de balas perdidas. Somos um povo que perde o voto para não perder a piada. Agora, nossos eleitos vão nos matar de rir.
Guenta mais essa, Brasil!
Supõe-se que quando um povo elimina seus problemas mais elementares de saúde, educação, segurança, etc., seus deputados e senadores, a fim de justificar seus salários, comecem a se aventurar em novas searas legislativas como a criação de normas que regulamentem o penteado dos membros do senado, a tonalidade de batom das juízas federais em comparação às colegas estaduais e os perfumes sancionados para uso em repartições públicas.
E foi justamente neste indicador denominado “Ausência Laboral Parlamentar” (também conhecido como Falta de Serviço) que o Brasil acaba de alcançar o grau máximo de desenvolvimento. Nesta semana, passou na frente das demais pautas a serem votadas a lei que regulamenta os trajes parlamentares, o que demonstra o elevado nível de futilidade atingido pelo Congresso Nacional brasileiro.
O motivo da urgência da votação foi conter a ameaça representada pelo deputado baiano Edgar Mão Branca (PV). O cabra só aparece na assembléia com seu inseparável chapéu de couro no melhor estilo "rei do cangaço". Receosos de que o colega recebesse mais holofotes do que eles próprios, os demais membros da casa decidiram votar em regime de urgência a lei que restringe o traje parlamentar a terno, gravata, uma camisa por baixo desta, sapato e um relógio suíço. Roupas íntimas e meias ainda hão de ser regulamentadas a fim de que estas combinem com aquelas e ambas ornem com a tonalidade das calças.
O descumprimento dessa lei levará o parlamentar a enfrentar uma Comissão de Ética por quebra de decoro o que é, no mínimo, inadequado. O correto seria a criação de uma Comissão de Estilo e Etiqueta cuja presidência teria o nome do deputado Clodovil Hernandes (PTC-SP) como candidato mais indicado. Estilista de renome, Hernandes botaria a tão sonhada ordem na casa ao impor as combinações apropriadas traje-ambiente e promover a renovação dos tecidos que saírem de moda.
Fosse criada há mais tempo, a Comissão de Estilo e Etiqueta teria evitado aberrações como a Dança do Mensalão coreografada e interpretada pela ex-deputada Ângela Guadagnin (PT-SP). “Vossa Excelência desonrou esta Casa ao dançar sem ritmo e não sincronizar vosso traseiro parlamentar ao movimento das mãos”, diria o relatório da comissão, “dados os fatos supra-narrados não resta a este relator senão sugerir como punição o encaminhamento de Vossa Excelência a uma academia de dança onde debutará ao som da canção 'Tô ficando atoladinha'”.
A mesma comissão teria defendido os olhos da nação das tinturas capilares berrantes da ex-deputada Esther Grossi (PT-RS). “Vossa Excelência quebrou o decoro capilar desta casa ao tingir os cabelos em tom rosa-fúcsia em clara dissonância com as unhas purple-baby. Acrescente-se o agravante que a coloração capilar do momento é azul-bolor-metálico, tom que Vossa Excelência deixou de usar há três dias,” sentenciaria o presidente da comissão.
Enquanto essa importantérrima Comissão específica não nasce, nós, brasileiros, podemos nos sentir orgulhosos por termos um Congresso muito mais desenvolvido que a nação que o mantém. Enquanto as decisões cruciais tomam a pauta dos legisladores, o povo se atém a banalidades como o que comer, onde estudar e para onde correr em casos de balas perdidas. Somos um povo que perde o voto para não perder a piada. Agora, nossos eleitos vão nos matar de rir.
Guenta mais essa, Brasil!
03 abril 2007
Aqui ninguém é santo

Querida Santidade o Papa,
Quem vos escreve é uma alma brasileira, 100% verde amarela, pertencente ao vosso rebanho do sul do Equador, terceiro quadrante, diocese de Aparecidinha. Entro em contato com a ousada tentativa de desfazer um mal entendido. Fiquei sabendo que vossa viagem a estas terras incluirá a cerimônia de lançamento do primeiro santo brasileiro. Talvez por vossa origem germano-saxofônica passe-vos despercebido uma verdade muito peculiar à cultura brasileira: a santidade não pega em nós. Pelo visto, vossa assessoria não vos comunicou esse infeliz detalhe.
Trata-se de um fenômeno fisico-bioquímico ainda não elucidado pela ciência e inexplorado pela religião. O fato é que somos completamente imunes às leis, às regras e, por conseguinte, à santidade. Ser santo e brasileiro é uma impossibilidade física, uma contradição natural, duas condições que jamais serão satisfeitas ao mesmo tempo. Por isso, não estranhai as gargalhadas quando falar da santidade nacional. Sua Santidade nunca se perguntou por que o maior país católico do mundo jamais teve um santo registrado em cartório eclesiástico? Nossos santos ou são importados (estamos sempre em déficit em nossa balança espiritual) ou são clandestinos, como a Escrava Anastácia ou o Santo Padim Padi Ciço.
Não somos subdesenvolvidos por acaso. Temos clima, terras e recursos para vivermos todos na opulência, mas temos a consciência de que quando isso acontecer, teremos que trabalhar e cancelar o carnaval, a praia e a cerveja. E é claro que Deus não nos deu uma terra linda dessas para ficarmos trancados dentro de uma fábrica ou de um escritório. Como vedes, nossa inteligência está acima da média mundial, porém ela não atenua a nossa alergia à santidade.
Sua Santidade vai entender a nossa santidade quando perceber que ser santo não tem a ver com fazer milagres. Se assim fosse a nação toda viraria altar, porque todo brasileiro é milagreiro por natureza. Veja o exemplo de dona Raimunda, cria seis filhos esperando o sétimo ainda no bucho. Com trocados que recebe lavando roupa, ela alimenta e cuida de todos tendo o cuidado de manter afastado o ex-marido alcoólatra que aparece de vez em quando para pedir dinheiro. Todos os dias ela pratica a multiplicação dos pães, anda sobre as águas do esgoto da sua rua e cura sem remédios os filhos doentes. Já viu alguém fazer isso? Todavia, a Santa Sé jamais dará sua chancela oficial à Santa Raimunda porque ela mora com o terceiro marido, virou evangélica e agora a convenceram a usar camisinha.
Desculpe, seu papa, mas nós não levamos nada a sério. A esculhambação, não o futebol, é o nosso esporte nacional. Descendentes de Vital Brasil, sabemos que a vacina vem do veneno, por isso a nossa santidade é cheia de pecados. Perdemos a missa, jamais a piada! Não somos sérios, graças a Deus.
Espero que esta mensagem chegue a tempo. Porém, se a canonização for mesmo inevitável (a esta altura do campeonato os pastéis de Santa Clara já devem ter sido encomendados) peço-vos a gentileza de designar o novo santo para apadrinhar nossos apagões. Além de nos ser útil, gera até boa rima: “São Galvão, Padroeiro do Apagão”. Se Sua Santidade chegar em meio ao apagão aéreo, me entenderá com toda certeza. A meu ver, no entanto, o ideal seria mesmo reconsiderar essa equivocada decisão.
Canonizai-nos todos, ou não beatificai ninguém!
Quem vos escreve é uma alma brasileira, 100% verde amarela, pertencente ao vosso rebanho do sul do Equador, terceiro quadrante, diocese de Aparecidinha. Entro em contato com a ousada tentativa de desfazer um mal entendido. Fiquei sabendo que vossa viagem a estas terras incluirá a cerimônia de lançamento do primeiro santo brasileiro. Talvez por vossa origem germano-saxofônica passe-vos despercebido uma verdade muito peculiar à cultura brasileira: a santidade não pega em nós. Pelo visto, vossa assessoria não vos comunicou esse infeliz detalhe.
Trata-se de um fenômeno fisico-bioquímico ainda não elucidado pela ciência e inexplorado pela religião. O fato é que somos completamente imunes às leis, às regras e, por conseguinte, à santidade. Ser santo e brasileiro é uma impossibilidade física, uma contradição natural, duas condições que jamais serão satisfeitas ao mesmo tempo. Por isso, não estranhai as gargalhadas quando falar da santidade nacional. Sua Santidade nunca se perguntou por que o maior país católico do mundo jamais teve um santo registrado em cartório eclesiástico? Nossos santos ou são importados (estamos sempre em déficit em nossa balança espiritual) ou são clandestinos, como a Escrava Anastácia ou o Santo Padim Padi Ciço.
Não somos subdesenvolvidos por acaso. Temos clima, terras e recursos para vivermos todos na opulência, mas temos a consciência de que quando isso acontecer, teremos que trabalhar e cancelar o carnaval, a praia e a cerveja. E é claro que Deus não nos deu uma terra linda dessas para ficarmos trancados dentro de uma fábrica ou de um escritório. Como vedes, nossa inteligência está acima da média mundial, porém ela não atenua a nossa alergia à santidade.
Sua Santidade vai entender a nossa santidade quando perceber que ser santo não tem a ver com fazer milagres. Se assim fosse a nação toda viraria altar, porque todo brasileiro é milagreiro por natureza. Veja o exemplo de dona Raimunda, cria seis filhos esperando o sétimo ainda no bucho. Com trocados que recebe lavando roupa, ela alimenta e cuida de todos tendo o cuidado de manter afastado o ex-marido alcoólatra que aparece de vez em quando para pedir dinheiro. Todos os dias ela pratica a multiplicação dos pães, anda sobre as águas do esgoto da sua rua e cura sem remédios os filhos doentes. Já viu alguém fazer isso? Todavia, a Santa Sé jamais dará sua chancela oficial à Santa Raimunda porque ela mora com o terceiro marido, virou evangélica e agora a convenceram a usar camisinha.
Desculpe, seu papa, mas nós não levamos nada a sério. A esculhambação, não o futebol, é o nosso esporte nacional. Descendentes de Vital Brasil, sabemos que a vacina vem do veneno, por isso a nossa santidade é cheia de pecados. Perdemos a missa, jamais a piada! Não somos sérios, graças a Deus.
Espero que esta mensagem chegue a tempo. Porém, se a canonização for mesmo inevitável (a esta altura do campeonato os pastéis de Santa Clara já devem ter sido encomendados) peço-vos a gentileza de designar o novo santo para apadrinhar nossos apagões. Além de nos ser útil, gera até boa rima: “São Galvão, Padroeiro do Apagão”. Se Sua Santidade chegar em meio ao apagão aéreo, me entenderá com toda certeza. A meu ver, no entanto, o ideal seria mesmo reconsiderar essa equivocada decisão.
Canonizai-nos todos, ou não beatificai ninguém!
29 março 2007
Sejamos mentirosos sinceros
Primeiro de Abril. Dizem que nesse dia começava o ano, como não começa mais, virou o Dia da Mentira. Mentira. A verdade (se é que ela existe) é que a humanidade sempre gostou de mentir e quis ter pelo menos um dia para fazer isso sem ter um dedo apontado na cara: “mentiroso!” Como se existisse alguém na face da Terra que não o fosse.
Você nunca se perguntou por que, no meio de tantas datas importantes, existe uma só para homenagear a mentira? Por que não existe o Dia Internacional da Sinceridade, o Dia Nacional da Honestidade ou, pelo menos, um feriadinho municipal da Verdade Nua e Crua? Porque além de atentar ao pudor, essa crueza toda causaria uma tremenda congestão.
Alguém já ouviu um “como você envelheceu, meu caro! Cê tá acabadão!” quando encontrou um antigo amigo na rua? Ou ainda: “Dinorá, seu botox ficou podre. Você tá uma monstra, menina!” Claro que não. Todos achamos lindo mentir. Por isso, mentimos até ao dizer que mentir é feio, quando feio mesmo é chamar o outro de feio, mesmo que, na sinceridade, ele se enquadre entre horroroso e medonho.
Sejamos honestos (na medida do possível): que guerras ou eleições foram vencidas com a verdade? Estamos atolados em mentiras desde os primórdios. Para tirar os seus corpinhos nus da reta, Adão alegou ter sido aliciado por Eva que por sua vez se confessou seduzida pela cobra. E se Deus tivesse aberto o jogo com os dois, eles jamais teriam comido a maçã se soubessem que teriam que trabalhar até morrer dependendo de uma pensão ridícula do INSS.
Mentimos até quando estamos sozinhos, mas somos hipócritas demais para decretar um feriado mundial e sair às ruas para a parada do Orgulho Mitômano. A comissão de frente estaria invariavelmente nas mãos dos políticos, seguidos logo após pelo carro abre-alas dos vendedores de automóveis e dos corretores de imóveis. Finalmente, na parte nobre do desfile irão aqueles que têm formação e a devida habilitação para mentir: os advogados, os contadores, os publicitários e os jornalistas.
Os advogados por defenderem a verdade do cliente. O grau de persuasão dessa verdade depende sempre de quanto esse cliente poderá gastar para fazê-la realmente ter existido. Quanto mais investir nisso, mais fará a sua verdade ser a mais verdadeira perante a lei.
Os contadores garantiriam seu lugar na parada por sua prestidigitação com os números. Sua magia indecifrável em criar e ocultar cifras jamais teve paralelo nem em culturas dadas à feitiçaria.
Os publicitários desfilariam no mais sofisticado carro alegórico, orgulhosos por nos fazer acreditar que precisamos de uma iogurteira elétrica de dez velocidades. Eles carregam o mérito de mexer com os nossos sentimentos a ponto de entrarmos em depressão profunda por não conseguir fazer um iogurte em nossa própria casa.
Finalmente, os jornalistas. A posição na rabeira do evento é estratégica. Nas mãos desses profissionais reside a metamorfose da mentira em verdade e vice-versa. Nós, jornalistas, construímos mentiras absurdas dizendo somente verdades e criamos incontestáveis verdades simplesmente propagando as mais deslavadas mentiras.
Neste 1º de Abril, saiamos todos à Parada dos Mentirosos. Assuma o seu lado falso, que é o seu único verdadeiro. Fox Mulder que me desculpe, mas é a mentira que está lá fora. A verdade nunca saiu do armário. A mentira é patrimônio da humanidade. Tratemo-la como tal. Já disparara Millôr: “Ninguém é dono da verdade. Mas a mentira tem acionista à beça.” Não é verdade?
Você nunca se perguntou por que, no meio de tantas datas importantes, existe uma só para homenagear a mentira? Por que não existe o Dia Internacional da Sinceridade, o Dia Nacional da Honestidade ou, pelo menos, um feriadinho municipal da Verdade Nua e Crua? Porque além de atentar ao pudor, essa crueza toda causaria uma tremenda congestão.
Alguém já ouviu um “como você envelheceu, meu caro! Cê tá acabadão!” quando encontrou um antigo amigo na rua? Ou ainda: “Dinorá, seu botox ficou podre. Você tá uma monstra, menina!” Claro que não. Todos achamos lindo mentir. Por isso, mentimos até ao dizer que mentir é feio, quando feio mesmo é chamar o outro de feio, mesmo que, na sinceridade, ele se enquadre entre horroroso e medonho.
Sejamos honestos (na medida do possível): que guerras ou eleições foram vencidas com a verdade? Estamos atolados em mentiras desde os primórdios. Para tirar os seus corpinhos nus da reta, Adão alegou ter sido aliciado por Eva que por sua vez se confessou seduzida pela cobra. E se Deus tivesse aberto o jogo com os dois, eles jamais teriam comido a maçã se soubessem que teriam que trabalhar até morrer dependendo de uma pensão ridícula do INSS.
Mentimos até quando estamos sozinhos, mas somos hipócritas demais para decretar um feriado mundial e sair às ruas para a parada do Orgulho Mitômano. A comissão de frente estaria invariavelmente nas mãos dos políticos, seguidos logo após pelo carro abre-alas dos vendedores de automóveis e dos corretores de imóveis. Finalmente, na parte nobre do desfile irão aqueles que têm formação e a devida habilitação para mentir: os advogados, os contadores, os publicitários e os jornalistas.
Os advogados por defenderem a verdade do cliente. O grau de persuasão dessa verdade depende sempre de quanto esse cliente poderá gastar para fazê-la realmente ter existido. Quanto mais investir nisso, mais fará a sua verdade ser a mais verdadeira perante a lei.
Os contadores garantiriam seu lugar na parada por sua prestidigitação com os números. Sua magia indecifrável em criar e ocultar cifras jamais teve paralelo nem em culturas dadas à feitiçaria.
Os publicitários desfilariam no mais sofisticado carro alegórico, orgulhosos por nos fazer acreditar que precisamos de uma iogurteira elétrica de dez velocidades. Eles carregam o mérito de mexer com os nossos sentimentos a ponto de entrarmos em depressão profunda por não conseguir fazer um iogurte em nossa própria casa.
Finalmente, os jornalistas. A posição na rabeira do evento é estratégica. Nas mãos desses profissionais reside a metamorfose da mentira em verdade e vice-versa. Nós, jornalistas, construímos mentiras absurdas dizendo somente verdades e criamos incontestáveis verdades simplesmente propagando as mais deslavadas mentiras.
Neste 1º de Abril, saiamos todos à Parada dos Mentirosos. Assuma o seu lado falso, que é o seu único verdadeiro. Fox Mulder que me desculpe, mas é a mentira que está lá fora. A verdade nunca saiu do armário. A mentira é patrimônio da humanidade. Tratemo-la como tal. Já disparara Millôr: “Ninguém é dono da verdade. Mas a mentira tem acionista à beça.” Não é verdade?
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20 março 2007
A praga do Rubem Alves

Não costumo abrir espaços a textos de outrem, todavia o que segue abaixo está divino.
Además... é bom dar uma chance para essa garotada nova que está começando. Esse Rubinho Alves ainda vai longe!
Espero que ele se lembre de mim quando estiver famoso e por cima da carne seca.
Um abraço ao Rubem e outro especial ao Bento XVI e às suas imprecações contra segundos casamentos, muçulmanos, lésbicas e simpatizantes.
"Meu filho, se continuares a cuspir pérolas, terminarás senhor do mundo!"
Bush Pai a Bush Filho quando este soltou uma pataquada blasfematória contra Bush Espirito Santo.
A praga
Por Rubem Alves
É BOM atentar para o que o papa diz. Porta-voz de Deus na Terra, ele só pensa pensamentos divinos. Nós, homens tolos, gastamos o tempo pensando sobre coisas sem importância tais como o efeito estufa e a possibilidade do fim do mundo. O papa vai direto ao que é essencial: "O segundo casamento é uma praga!" Está certo. O casamento não pertence à ordem abençoada do paraíso. No paraíso não havia casamento. Na Bíblia não há indicação de que as relações amorosas entre Adão e Eva tenham sido precedidas pelo cerimonial a que hoje se dá o nome de casamento: o Criador, celebrante, Adão e Eva nus, de pé, diante de uma assembléia de animais, tudo terminando com as palavras sacramentais: "E eu, Jeová,vos declaro marido e mulher. Aquilo que eu ajuntei os homens não podem separar..."
Os casamentos, o primeiro, o segundo, o terceiro, pertencem à ordem maldita, caída, praguejada, pós-paraíso. Nessa ordem não se pode confiar no amor. Por isso se inventou o casamento, esse contrato de prestação de serviços entre marido e mulher, testemunhado por padrinhos, cuja função é, no caso de algum dos cônjuges não cumprir o contrato, obrigá-lo a cumpri-lo.
Foi um padre que me ensinou isso. Ele celebrava o casamento. E foi isso que ele disse aos noivos: "O que vos une não é o amor. O que vos une é o contrato". Aprendi então que o casamento não é uma celebração do amor. É o estabelecimento de direitos e deveres. Até as relações sexuais são obrigações a ser cumpridas.
Agora imaginem um homem e uma mulher que muito se amam: são ternos,amigos, fazem amor, geram filhos. Mas, segundo a igreja, estão em estado de pecado: falta ao relacionamento o selo eclesiásticolegitimador. Ele, divorciado da antiga esposa, não pode se casar de novo porque a igreja proíbe a praga do segundo casamento. Aí os dois, já no fim da vida, são obrigados a se separar para participar da eucaristia: cada um para um lado, adeus aos gestos de ternura... Agora está tudo nos conformes. Porque Deus não enxerga o amor. Ele só vê o selo eclesial.
O papa está certo. O segundo casamento é uma praga. Eu, como já disse, acho que todos são uma praga, por não ser da ordem paradisíaca, mas da maldição. O símbolo dessa maldição está na palavra "conjugal": do latim, "com"= junto e "jugus"= canga. Canga, aquela peça pesada de madeira que une dois bois. Eles não querem estar juntos. Mas a cangaos obriga, sob pena do ferrão...
Por que o segundo casamento é uma praga? Porque, para havê-lo, é preciso que o primeiro seja anulado pelo divórcio. Mas, se a igreja admitir a anulação do primeiro casamento, terá de admitir também que o sacramento que o realizou não é aquilo que ela afirma ser: um ato realizado pelo próprio Deus. Permitir o divórcio equivale a dizer: osacramento é uma balela. Donde, a igreja é uma balela... Com o divórcio ela seria rebaixada do seu lugar infalível e passaria a ser apenas uma instituição falível entre outras. A igreja não admite o divórcio não é por amor à família. É para manter-se divina...
A igreja, sábia, tratou de livrar seus funcionários da maldição do amor. Proibiu-os de se casarem. Livres da maldição do casamento, os sacerdotes têm a suprema felicidade de noites de solidão, sem conversas, sem abraços e nem beijos. Estão livres da praga...
Además... é bom dar uma chance para essa garotada nova que está começando. Esse Rubinho Alves ainda vai longe!
Espero que ele se lembre de mim quando estiver famoso e por cima da carne seca.
Um abraço ao Rubem e outro especial ao Bento XVI e às suas imprecações contra segundos casamentos, muçulmanos, lésbicas e simpatizantes.
"Meu filho, se continuares a cuspir pérolas, terminarás senhor do mundo!"
Bush Pai a Bush Filho quando este soltou uma pataquada blasfematória contra Bush Espirito Santo.
A praga
Por Rubem Alves
É BOM atentar para o que o papa diz. Porta-voz de Deus na Terra, ele só pensa pensamentos divinos. Nós, homens tolos, gastamos o tempo pensando sobre coisas sem importância tais como o efeito estufa e a possibilidade do fim do mundo. O papa vai direto ao que é essencial: "O segundo casamento é uma praga!" Está certo. O casamento não pertence à ordem abençoada do paraíso. No paraíso não havia casamento. Na Bíblia não há indicação de que as relações amorosas entre Adão e Eva tenham sido precedidas pelo cerimonial a que hoje se dá o nome de casamento: o Criador, celebrante, Adão e Eva nus, de pé, diante de uma assembléia de animais, tudo terminando com as palavras sacramentais: "E eu, Jeová,vos declaro marido e mulher. Aquilo que eu ajuntei os homens não podem separar..."
Os casamentos, o primeiro, o segundo, o terceiro, pertencem à ordem maldita, caída, praguejada, pós-paraíso. Nessa ordem não se pode confiar no amor. Por isso se inventou o casamento, esse contrato de prestação de serviços entre marido e mulher, testemunhado por padrinhos, cuja função é, no caso de algum dos cônjuges não cumprir o contrato, obrigá-lo a cumpri-lo.
Foi um padre que me ensinou isso. Ele celebrava o casamento. E foi isso que ele disse aos noivos: "O que vos une não é o amor. O que vos une é o contrato". Aprendi então que o casamento não é uma celebração do amor. É o estabelecimento de direitos e deveres. Até as relações sexuais são obrigações a ser cumpridas.
Agora imaginem um homem e uma mulher que muito se amam: são ternos,amigos, fazem amor, geram filhos. Mas, segundo a igreja, estão em estado de pecado: falta ao relacionamento o selo eclesiásticolegitimador. Ele, divorciado da antiga esposa, não pode se casar de novo porque a igreja proíbe a praga do segundo casamento. Aí os dois, já no fim da vida, são obrigados a se separar para participar da eucaristia: cada um para um lado, adeus aos gestos de ternura... Agora está tudo nos conformes. Porque Deus não enxerga o amor. Ele só vê o selo eclesial.
O papa está certo. O segundo casamento é uma praga. Eu, como já disse, acho que todos são uma praga, por não ser da ordem paradisíaca, mas da maldição. O símbolo dessa maldição está na palavra "conjugal": do latim, "com"= junto e "jugus"= canga. Canga, aquela peça pesada de madeira que une dois bois. Eles não querem estar juntos. Mas a cangaos obriga, sob pena do ferrão...
Por que o segundo casamento é uma praga? Porque, para havê-lo, é preciso que o primeiro seja anulado pelo divórcio. Mas, se a igreja admitir a anulação do primeiro casamento, terá de admitir também que o sacramento que o realizou não é aquilo que ela afirma ser: um ato realizado pelo próprio Deus. Permitir o divórcio equivale a dizer: osacramento é uma balela. Donde, a igreja é uma balela... Com o divórcio ela seria rebaixada do seu lugar infalível e passaria a ser apenas uma instituição falível entre outras. A igreja não admite o divórcio não é por amor à família. É para manter-se divina...
A igreja, sábia, tratou de livrar seus funcionários da maldição do amor. Proibiu-os de se casarem. Livres da maldição do casamento, os sacerdotes têm a suprema felicidade de noites de solidão, sem conversas, sem abraços e nem beijos. Estão livres da praga...
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14 março 2007
Palavras contagiosas
Imagem gentilmente furtada da Casa do Zé Carlos (link ao lado)Numa linda manhã de agosto dei à luz um spam. E parece que a luz gostou demais do spam que lhe dei. A concepção deu-se num sofá diante da TV, local que muitos acreditam ter sido abandonado pelo pensamento crítico. Pois foi bem ali que me surgiu com cabeça, corpo e membros “O Vendedor de Palavras”, inspirado em uma entrevista de Nélida Piñon.
A criança cresceu, tomou corpo e viaja o Brasil de norte a sul. Até chegou a Portugal. Já ajudou a levar sol a fins-de-semana chuvosos, ilustrou aulas de português, alimentou debates em turmas de graduação em Comunicação Social, fez ler gente que não gosta das letras e ainda dá muitas flores e frutos mundo afora.
Há um forte vírus por trás das palavras que contagia de coisas boas quem o recebe. Algo bem mais poderoso do que os spams de trojans, vírus destrutivos, publicidade indesejada e mensagens negativas. Que se proliferem os microorganismos da felicidade incubados nas letras para “esclarecer de qual combustão a paixão é feita, para que a vista lhe escureça de repente e as palavras tenham febre*”.
Um febril abraço a todos, em especial aos leitores cujos e-mails ainda não consegui responder,
Fábio Reynol
* artigo “Conhece-te a ti mesmo”, Nélida Piñon.
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07 março 2007
Carta ao Arqueólogo do Futuro
O texto abaixo foi fruto de um desafio proposto pelo site Agência Carta Maior (http://agenciacartamaior.uol.com.br), escrever uma carta a um arqueólogo de um futuro distante, e me demandou um malabarismo mental viceral. Espero que o pessoal do site reconheça isso e pelo menos publique-o antes que o tal arqueólogo nasça.
O problema é que o site só propõe a tarefa a celebridades em geral. Escreveram ao arqueólogo Moacir Scliar, Jorge Furtado, Luis Fernando Veríssimo, Nando Reis, Frei Betto, Alfredo Bosi, Niéde Guidon, Maurício de Souza, Chico Anysio, Emir Sader, Ferreira Gullar, Soninha e outros expoentes e mentes famosas.
Claro que ninguém ainda entrou em contato comigo. Por isso, coloquei toda a minha pró-atividade (neologismo para cara-de-pau) em prática e enviei minha carta à Agência antes mesmo de me pedirem, e ainda melhor, antes mesmo de eu me tornar uma celebridade.
Que pelo menos a leiam!
Caro Arqueólogo do Futuro,
Se você está lendo isto é porque a nossa capacidade de destruição do planeta não era tão grande quanto pensávamos. Maior do que ela talvez só a nossa incompetência em completar um serviço que fazíamos tão bem: a aniquilação do nosso pequeno mundo.
Se sobrou alguma coisa da Terra, este texto deve lhe ter sido entregue por uma barata, espécie que julgávamos inferior a ponto de esmagarmos milhares de seus indivíduos debaixo de nossos pés. Por favor, não comente este assunto diante do bicho, apenas transmita-lhe nossas desculpas.
Como você obviamente não é terráqueo, aqui vai uma sinopse de nossa história. Nosso mini-planeta não tem nem cinco bilhões de aninhos. Apenas um menino perto dos 15 bilhões de anos do universo conhecido. No entanto, representantes desta espécie que lhe escreve só apareceram há apenas dois milhões e poucos anos.
A encrenca começou quando nossos pais decidiram descer das árvores, daí foi um pequeno passo para derrubá-las. Logo quiseram morar juntos em cidades para assim reunir os dejetos de todos e causar um impacto bem maior ao jogá-los no meio ambiente. Claro que toda aquela caca reunida só fez crescer os problemas e as doenças. Chegamos a descobrir pessoas que ainda viviam em florestas e em harmonia com a natureza. Dissemos a eles que eram atrasados e acabamos com eles e com suas florestas. Alcançamos enfim uma sociedade justa na qual todos comem, trabalham, têm acesso à saúde e à educação, contanto que preencham uma única condição: possuam dinheiro.
O que ninguém conseguiu me explicar é por que cientistas sérios chamaram esse processo de “evolução”. Se evoluímos até esta decadência, antes tivéssemos regredido ao sucesso. Mas a lógica nunca foi o nosso ponto forte. O fato é que conseguimos em menos de dois milhões de anos o que os dinossauros só obtiveram depois de 140 milhões, a extinção da própria espécie.
Escrevo do início do século XXI cristão - baseado no suposto ano do nascimento de um cara que demonstrou que era possível viver sem nos matar. Claro que nós o matamos. A adoção desse calendário foi mera formalidade prática. Dois terços de nossa população não dá ouvidos ao que o cara disse; o outro terço ouve, mas não pratica e ainda usa seu nome para arrancar dinheiro dos pobres.
Hoje, jogamos zelosa e diariamente seis bilhões de toneladas de dióxido de carbono na atmosfera. Por causa disso estamos sendo cozidos vivos. Esse gás ajuda a formar a tampa da panela que já começou a nos escaldar. A boa notícia é que descobrimos que alguns seres vivos absorvem o carbono expelido. São os vegetais, os quais fizemos o obséquio de arrancar de quase toda a superfície do planeta. Como resultado, a nossa jovem Terra é uma criança com um gigantesco enfisema pulmonar. Também gostaria de lhe dizer o que costumamos jogar em nossos rios antes de bebermos de suas águas. Porém não vou. Você não iria acreditar e ainda morreria de nojo de nós.
Podemos morrer por causa dessas coisas, todavia inventamos muitos outros meios de nos matar mantendo um mínimo de dignidade. Já detemos a incrível tecnologia de arrebentar o núcleo do átomo e estamos ansiosos por utilizá-la para arrebentar a cabeça de nossos conterrâneos inimigos, pulverizando o planeta deles. Sem nos importar (repare no nosso despojamento!) com o fato de que o planeta deles e o nosso são o mesmo. Assim que o primeiro artefato nuclear explodir, daremos início a um show pirotécnico de arrancar os cabelos, a pele e os membros. Não seremos destruídos por nenhuma espécie alienígena, civilização mais avançada ou chuva de meteoros. Morreremos de cabeça erguida (para aqueles que ainda a tiverem) orgulhosos por assumir as rédeas do próprio destino. De nossa aniquilação, cuidamos nós.
Caro arqueólogo, espero ter dado um panorama belo e suavizado de nossa rica e breve história. Para encerrar, atrevo-me a uma última observação científica. Não sou dado a obviedades, mas como você já pôde reparar, por aqui nunca existiu vida inteligente. Com exceção das baratas!
O problema é que o site só propõe a tarefa a celebridades em geral. Escreveram ao arqueólogo Moacir Scliar, Jorge Furtado, Luis Fernando Veríssimo, Nando Reis, Frei Betto, Alfredo Bosi, Niéde Guidon, Maurício de Souza, Chico Anysio, Emir Sader, Ferreira Gullar, Soninha e outros expoentes e mentes famosas.
Claro que ninguém ainda entrou em contato comigo. Por isso, coloquei toda a minha pró-atividade (neologismo para cara-de-pau) em prática e enviei minha carta à Agência antes mesmo de me pedirem, e ainda melhor, antes mesmo de eu me tornar uma celebridade.
Que pelo menos a leiam!
Caro Arqueólogo do Futuro,
Se você está lendo isto é porque a nossa capacidade de destruição do planeta não era tão grande quanto pensávamos. Maior do que ela talvez só a nossa incompetência em completar um serviço que fazíamos tão bem: a aniquilação do nosso pequeno mundo.
Se sobrou alguma coisa da Terra, este texto deve lhe ter sido entregue por uma barata, espécie que julgávamos inferior a ponto de esmagarmos milhares de seus indivíduos debaixo de nossos pés. Por favor, não comente este assunto diante do bicho, apenas transmita-lhe nossas desculpas.
Como você obviamente não é terráqueo, aqui vai uma sinopse de nossa história. Nosso mini-planeta não tem nem cinco bilhões de aninhos. Apenas um menino perto dos 15 bilhões de anos do universo conhecido. No entanto, representantes desta espécie que lhe escreve só apareceram há apenas dois milhões e poucos anos.
A encrenca começou quando nossos pais decidiram descer das árvores, daí foi um pequeno passo para derrubá-las. Logo quiseram morar juntos em cidades para assim reunir os dejetos de todos e causar um impacto bem maior ao jogá-los no meio ambiente. Claro que toda aquela caca reunida só fez crescer os problemas e as doenças. Chegamos a descobrir pessoas que ainda viviam em florestas e em harmonia com a natureza. Dissemos a eles que eram atrasados e acabamos com eles e com suas florestas. Alcançamos enfim uma sociedade justa na qual todos comem, trabalham, têm acesso à saúde e à educação, contanto que preencham uma única condição: possuam dinheiro.
O que ninguém conseguiu me explicar é por que cientistas sérios chamaram esse processo de “evolução”. Se evoluímos até esta decadência, antes tivéssemos regredido ao sucesso. Mas a lógica nunca foi o nosso ponto forte. O fato é que conseguimos em menos de dois milhões de anos o que os dinossauros só obtiveram depois de 140 milhões, a extinção da própria espécie.
Escrevo do início do século XXI cristão - baseado no suposto ano do nascimento de um cara que demonstrou que era possível viver sem nos matar. Claro que nós o matamos. A adoção desse calendário foi mera formalidade prática. Dois terços de nossa população não dá ouvidos ao que o cara disse; o outro terço ouve, mas não pratica e ainda usa seu nome para arrancar dinheiro dos pobres.
Hoje, jogamos zelosa e diariamente seis bilhões de toneladas de dióxido de carbono na atmosfera. Por causa disso estamos sendo cozidos vivos. Esse gás ajuda a formar a tampa da panela que já começou a nos escaldar. A boa notícia é que descobrimos que alguns seres vivos absorvem o carbono expelido. São os vegetais, os quais fizemos o obséquio de arrancar de quase toda a superfície do planeta. Como resultado, a nossa jovem Terra é uma criança com um gigantesco enfisema pulmonar. Também gostaria de lhe dizer o que costumamos jogar em nossos rios antes de bebermos de suas águas. Porém não vou. Você não iria acreditar e ainda morreria de nojo de nós.
Podemos morrer por causa dessas coisas, todavia inventamos muitos outros meios de nos matar mantendo um mínimo de dignidade. Já detemos a incrível tecnologia de arrebentar o núcleo do átomo e estamos ansiosos por utilizá-la para arrebentar a cabeça de nossos conterrâneos inimigos, pulverizando o planeta deles. Sem nos importar (repare no nosso despojamento!) com o fato de que o planeta deles e o nosso são o mesmo. Assim que o primeiro artefato nuclear explodir, daremos início a um show pirotécnico de arrancar os cabelos, a pele e os membros. Não seremos destruídos por nenhuma espécie alienígena, civilização mais avançada ou chuva de meteoros. Morreremos de cabeça erguida (para aqueles que ainda a tiverem) orgulhosos por assumir as rédeas do próprio destino. De nossa aniquilação, cuidamos nós.
Caro arqueólogo, espero ter dado um panorama belo e suavizado de nossa rica e breve história. Para encerrar, atrevo-me a uma última observação científica. Não sou dado a obviedades, mas como você já pôde reparar, por aqui nunca existiu vida inteligente. Com exceção das baratas!
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06 março 2007
Os Diálogos da Vagina
Aquele outdoor se exibia de tal maneira que era mais fácil ignorar o semáforo do que suas letras gigantescas: “Os Monólogos da Vagina”. A exuberância desaforada da peça publicitária preocupou Laércio que tinha que passar por aquele cruzamento todos os dias levando a bordo uma ardilosa criatura de apenas quatro anos de idade que atendia pelo nome de:
- Vitinho! Ele vai ler isso, Clara. É uma questão de tempo – profetizou Laércio à sua mulher quando viu o gigantesco cartaz ser instalado.
- Relaxe. O menino nem presta atenção nessas coisas.
- Ele vai ler, Clara. Olhe o tamanho das letras! Ele vai ler e vai querer saber o que é. Você já pensou?
- Você tá ficando neurótico.
- Eu disse para a sua mãe que era cedo demais para alfabetizar a criança. Mas ela ouve alguém?
- Você pode deixar a minha mãe fora das suas neuras?
O tempo foi passando, o outdoor foi ficando e Vitinho nem aí para a vagina em caixa alta que se exibia logo atrás do semáforo no qual paravam todo santo dia na volta da escola. Nunca pegaram o sinal aberto naquele cruzamento, porque reza a Legislação de Murphy que quanto mais você precisar de um semáforo verde, mais vermelho ele lhe aparecerá.
Como o inevitável pode ser até protelado, mas nunca (como o próprio nome diz) evitado, foi num belo final de tarde que Laércio e Clara ouviram um balbuciar vindo do banco de trás do carro:
- NÓ, LÔ, GOS, monolôgos, DA VA...
O carro saiu cantando pneus sob o sinal vermelho, arrancando o jovem leitor de seu texto e um grito de sua jovem mãe:
- VOCÊ PERDEU O JUÍZO?!!! Vai nos matar por causa de uma bobabem?
Laércio estava mais tenso que um carioca dirigindo de madrugada na Linha Amarela. O suor frio escorria em cascatas pelas têmporas, estava zureta a ponto de ignorar (o que é comum) sem querer (o que é raro) o chilique da mulher. Só conseguiu praguejar comentários para si mesmo tentando expurgar o que o deixava tão inconformado:
- Eu aprendi a ler aos seis anos. Porque ele não pôde esperar? Deveria ser proibido alfabetizar crianças pequenas. Elas não têm estrutura para receber tantas obscenidades. Até os seis anos as crianças deveriam só empurrar carrinhos e brincar com bonecas. Elas vão ter muito tempo depois para se entender com as letras...
A verborragia desvairada continuou por um bom tempo, o que fez Clara perceber que o caso era psiquiátrico-agressivo. A prudência falou mais alto que a raiva. Preferiu então se calar (o que era raro) a inflamar uma discussão maior (o que era comum).
Não se falou mais no assunto até o famigerado dia da grande liquidação de fronhas. Versa a supracitada lei de Murphy que, quando uma coisa está para dar errado, todas as condições adversas estarão tão fabulosamente presentes que não haverá - em todo o Universo conhecido – uma catástrofe, aberração ou buraco negro que a impeça ou a faça ocorrer de maneira pior. A batalha de Laércio contra a vagina de papel é a prova científica de que Murphy estava absolutamente certo sobre coisas que dão absolutamente errado.
- Laércio, vá ao shopping – mandou Clara no dia em que se cumpriria a profecia - Está acontecendo uma grande liquidação de fronhas brancas. Compre cinco pares. Não agüento mais dormir com aquelas bolinhas na cara. Vá logo e leve o Vitinho enquanto eu termino o jantar.
E assim eles foram. E assim voltaram:
Satisfeito por ter conseguido cinco pares de fronhas por apenas trinta e sete reais e quinze centavos, Laércio sequer reparou nos olhos do filho ao parar no semáforo. Mais esperto do que o pai, o menino desta vez apenas simulou com os lábios as últimas sílabas, em silêncio, e disparou de vez a pergunta fatal:
- Papai, o que é vagina?
Como nas horas de pânico o que governa a mente é o absurdo, a única coisa que passou pela cabeça de Laércio foi: “por que aquela velha que ensinou esse moleque a ler não está aqui?”
- E monólogo, filho? Você sabe o que é monólogo? – Laércio viu essas palavras saírem de sua boca completamente admirado com a própria agilidade de raciocínio.
- O que é vagina, papai? – Insistiu Vitinho revertendo o xeque-mate do pai.
- Como você quer saber o que é vagina se você ainda não sabe o que é monólogo?
- Você sabe o que é vagina, papai?
Foi nessa hora que um anjo apareceu em forma de canção de Sérgio Reis. O clássico sertanejo “Panela Velha” tocou no celular de Laércio, indicando que o chamado era de Clara:
- Onde vocês estão? Era só para comprar fronhas. O jantar vai esfriar - disparou a mulher do outro lado da linha.
- Estamos chegando! - Foi só o que o marido conseguiu responder.
Nesse momento percebeu que ainda estavam parados no semáforo, com o sinal verde já passando para o amarelo novamente. Laércio acelerou mudando de marcha e de assunto. Falou de bicicletas, de desenhos animados e de fronhas. E imaginou o estrago que uma alfabetização precoce pode fazer na cabeça de uma criança.
Depois daquela saia-justa, o assunto não voltou mais à baila. Foi somente quando estavam trocando as folhas do outdoor que Laércio, parado na mesma encruzilhada, relembrou o caso. Intrigado com o longo e conformado silêncio do filho, perguntou:
- E aí, filho? Não quer mais saber o que é monólogo?
- Não, papai. A minha amiga Daniela já mostrou o monólogo dela pra mim, lá na escola.
Moral: se não houver diálogo, o seu filho partirá para o monólogo.
- Vitinho! Ele vai ler isso, Clara. É uma questão de tempo – profetizou Laércio à sua mulher quando viu o gigantesco cartaz ser instalado.
- Relaxe. O menino nem presta atenção nessas coisas.
- Ele vai ler, Clara. Olhe o tamanho das letras! Ele vai ler e vai querer saber o que é. Você já pensou?
- Você tá ficando neurótico.
- Eu disse para a sua mãe que era cedo demais para alfabetizar a criança. Mas ela ouve alguém?
- Você pode deixar a minha mãe fora das suas neuras?
O tempo foi passando, o outdoor foi ficando e Vitinho nem aí para a vagina em caixa alta que se exibia logo atrás do semáforo no qual paravam todo santo dia na volta da escola. Nunca pegaram o sinal aberto naquele cruzamento, porque reza a Legislação de Murphy que quanto mais você precisar de um semáforo verde, mais vermelho ele lhe aparecerá.
Como o inevitável pode ser até protelado, mas nunca (como o próprio nome diz) evitado, foi num belo final de tarde que Laércio e Clara ouviram um balbuciar vindo do banco de trás do carro:
- NÓ, LÔ, GOS, monolôgos, DA VA...
O carro saiu cantando pneus sob o sinal vermelho, arrancando o jovem leitor de seu texto e um grito de sua jovem mãe:
- VOCÊ PERDEU O JUÍZO?!!! Vai nos matar por causa de uma bobabem?
Laércio estava mais tenso que um carioca dirigindo de madrugada na Linha Amarela. O suor frio escorria em cascatas pelas têmporas, estava zureta a ponto de ignorar (o que é comum) sem querer (o que é raro) o chilique da mulher. Só conseguiu praguejar comentários para si mesmo tentando expurgar o que o deixava tão inconformado:
- Eu aprendi a ler aos seis anos. Porque ele não pôde esperar? Deveria ser proibido alfabetizar crianças pequenas. Elas não têm estrutura para receber tantas obscenidades. Até os seis anos as crianças deveriam só empurrar carrinhos e brincar com bonecas. Elas vão ter muito tempo depois para se entender com as letras...
A verborragia desvairada continuou por um bom tempo, o que fez Clara perceber que o caso era psiquiátrico-agressivo. A prudência falou mais alto que a raiva. Preferiu então se calar (o que era raro) a inflamar uma discussão maior (o que era comum).
Não se falou mais no assunto até o famigerado dia da grande liquidação de fronhas. Versa a supracitada lei de Murphy que, quando uma coisa está para dar errado, todas as condições adversas estarão tão fabulosamente presentes que não haverá - em todo o Universo conhecido – uma catástrofe, aberração ou buraco negro que a impeça ou a faça ocorrer de maneira pior. A batalha de Laércio contra a vagina de papel é a prova científica de que Murphy estava absolutamente certo sobre coisas que dão absolutamente errado.
- Laércio, vá ao shopping – mandou Clara no dia em que se cumpriria a profecia - Está acontecendo uma grande liquidação de fronhas brancas. Compre cinco pares. Não agüento mais dormir com aquelas bolinhas na cara. Vá logo e leve o Vitinho enquanto eu termino o jantar.
E assim eles foram. E assim voltaram:
Satisfeito por ter conseguido cinco pares de fronhas por apenas trinta e sete reais e quinze centavos, Laércio sequer reparou nos olhos do filho ao parar no semáforo. Mais esperto do que o pai, o menino desta vez apenas simulou com os lábios as últimas sílabas, em silêncio, e disparou de vez a pergunta fatal:
- Papai, o que é vagina?
Como nas horas de pânico o que governa a mente é o absurdo, a única coisa que passou pela cabeça de Laércio foi: “por que aquela velha que ensinou esse moleque a ler não está aqui?”
- E monólogo, filho? Você sabe o que é monólogo? – Laércio viu essas palavras saírem de sua boca completamente admirado com a própria agilidade de raciocínio.
- O que é vagina, papai? – Insistiu Vitinho revertendo o xeque-mate do pai.
- Como você quer saber o que é vagina se você ainda não sabe o que é monólogo?
- Você sabe o que é vagina, papai?
Foi nessa hora que um anjo apareceu em forma de canção de Sérgio Reis. O clássico sertanejo “Panela Velha” tocou no celular de Laércio, indicando que o chamado era de Clara:
- Onde vocês estão? Era só para comprar fronhas. O jantar vai esfriar - disparou a mulher do outro lado da linha.
- Estamos chegando! - Foi só o que o marido conseguiu responder.
Nesse momento percebeu que ainda estavam parados no semáforo, com o sinal verde já passando para o amarelo novamente. Laércio acelerou mudando de marcha e de assunto. Falou de bicicletas, de desenhos animados e de fronhas. E imaginou o estrago que uma alfabetização precoce pode fazer na cabeça de uma criança.
Depois daquela saia-justa, o assunto não voltou mais à baila. Foi somente quando estavam trocando as folhas do outdoor que Laércio, parado na mesma encruzilhada, relembrou o caso. Intrigado com o longo e conformado silêncio do filho, perguntou:
- E aí, filho? Não quer mais saber o que é monólogo?
- Não, papai. A minha amiga Daniela já mostrou o monólogo dela pra mim, lá na escola.
Moral: se não houver diálogo, o seu filho partirá para o monólogo.
27 fevereiro 2007
Maria ainda é um dom
“Maria é uma força que nos alerta”. A letra de Milton continua sendo a canção da maioria das mulheres do mundo, aquelas que riem quando devem chorar e agüentam em vez de viver. O machismo ainda grita forte e tenta abafar as vozes daquelas que conseguiram o direito de votar a menos de um século nas nações mais democráticas do planeta.
No começo deste ano, o homem mais poderoso da Itália, ex-premiê Silvio Berlusconi, foi enquadrado por sua mulher por disparar cantadas públicas em uma deputada. Se por um lado a ex-primeira-dama mostrou que é preciso ter força (sempre), de outro ficou clara a marca de um machismo que viceja firme em pleno raiar do século XXI.
Num período próximo, o presidente de Israel, Moshe Katsav, foi afastado sob a acusação de estupro. Uma semana depois, um ex-ministro da Justiça de Israel, Haim Ramon, foi condenado por delito sexual. Seu crime foi ter obrigado uma jovem militar a beijá-lo. O afastamento do primeiro e a condenação do segundo são motivos de grande comemoração na cultura ultramachista de Israel, onde casos assim costumavam ser simplesmente abafados.
Esses episódios são a ponta de um iceberg de discriminação e intolerância sexual que está longe de ser completamente derretido. O desdém pela figura feminina como um ser humano é notório nas piadas no mundo profissional, na diferença de salários entre os sexos e na difícil conquista feminina de um cargo de chefia. O extremismo das atitudes do italiano e dos israelenses nada mais é do que a materialização do preconceito sexual aceito velada e complacentemente por toda a sociedade.
Há de se mudar isso. Não com mulheres com força de homens, mas com mulheres munidas de total força feminina. Se assim não for, jamais terminará a hegemonia do falo. Continuaremos reproduzindo o modelo patriarcal e sendo governados por homens de ambos os sexos. Ser Maria ainda é um dom que só Marias podem assumir. Que mais Marias surjam, ocupem o seu espaço e construam um mundo mais humano e suave.
Parabéns a todas as Marias do mundo que com gana e raça reconquistam a cada dia o seu lugar no planeta.
No começo deste ano, o homem mais poderoso da Itália, ex-premiê Silvio Berlusconi, foi enquadrado por sua mulher por disparar cantadas públicas em uma deputada. Se por um lado a ex-primeira-dama mostrou que é preciso ter força (sempre), de outro ficou clara a marca de um machismo que viceja firme em pleno raiar do século XXI.
Num período próximo, o presidente de Israel, Moshe Katsav, foi afastado sob a acusação de estupro. Uma semana depois, um ex-ministro da Justiça de Israel, Haim Ramon, foi condenado por delito sexual. Seu crime foi ter obrigado uma jovem militar a beijá-lo. O afastamento do primeiro e a condenação do segundo são motivos de grande comemoração na cultura ultramachista de Israel, onde casos assim costumavam ser simplesmente abafados.
Esses episódios são a ponta de um iceberg de discriminação e intolerância sexual que está longe de ser completamente derretido. O desdém pela figura feminina como um ser humano é notório nas piadas no mundo profissional, na diferença de salários entre os sexos e na difícil conquista feminina de um cargo de chefia. O extremismo das atitudes do italiano e dos israelenses nada mais é do que a materialização do preconceito sexual aceito velada e complacentemente por toda a sociedade.
Há de se mudar isso. Não com mulheres com força de homens, mas com mulheres munidas de total força feminina. Se assim não for, jamais terminará a hegemonia do falo. Continuaremos reproduzindo o modelo patriarcal e sendo governados por homens de ambos os sexos. Ser Maria ainda é um dom que só Marias podem assumir. Que mais Marias surjam, ocupem o seu espaço e construam um mundo mais humano e suave.
Parabéns a todas as Marias do mundo que com gana e raça reconquistam a cada dia o seu lugar no planeta.
30 janeiro 2007
O buraco do Serra
26 janeiro 2007
São Paulo que amanhece desabando
Chega de prosa. Passemos a versinhos infames
Eis uma pitada de minha jocosidade corrosiva.
Parabéns, São Paulo! 453 anos com um corpinho de 425!
São Paulo que amanhece desabando
Oh, São Paulo!
Grande como teu amor só o buraco de teu metrô!
Gigante com o teu patamar só mesmo a poluição de teu ar
Capital dos investimentos só menores que teus congestionamentos!
Oh, Sampa danado, quanto de teus viadutos foram superfaturados?!
Quanto túnel cavado com dinheiro desviado
que se fosse todo utilizado
o mundo inteiro seria um queijo esburacado
Que nosso templo capitalista
Da Augusta, Nove de Julho e Paulista
Seja a Santa Ifigênia da grana
E esconda tua face de lama
Oh, metrópole que não pode parar
pois não tem onde estacionar!
Cidade em que o metrô nos enterra quando a Barra afunda
Feia de cara, mas linda de alma
São Paulo dos chope, das mina, Daslu.
De onde tiramos sustento.
Aonde tomamos no Brás.
Eis uma pitada de minha jocosidade corrosiva.
Parabéns, São Paulo! 453 anos com um corpinho de 425!
São Paulo que amanhece desabando
Oh, São Paulo!
Grande como teu amor só o buraco de teu metrô!
Gigante com o teu patamar só mesmo a poluição de teu ar
Capital dos investimentos só menores que teus congestionamentos!
Oh, Sampa danado, quanto de teus viadutos foram superfaturados?!
Quanto túnel cavado com dinheiro desviado
que se fosse todo utilizado
o mundo inteiro seria um queijo esburacado
Que nosso templo capitalista
Da Augusta, Nove de Julho e Paulista
Seja a Santa Ifigênia da grana
E esconda tua face de lama
Oh, metrópole que não pode parar
pois não tem onde estacionar!
Cidade em que o metrô nos enterra quando a Barra afunda
Feia de cara, mas linda de alma
São Paulo dos chope, das mina, Daslu.
De onde tiramos sustento.
Aonde tomamos no Brás.
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