29 agosto 2007

Admite

Admite Fábio Reynol 

Lamento admitir, mas o Nelson Rodrigues tem razão, o amor não morre. Nunca. Por mais que o enterremos, o afoguemos, tentemos esfaqueá-lo, esquartejá-lo ou incinerá-lo, ao contrário do frágil ódio, o amor perdura. O amor que foi continua sendo. Mesmo se a decepção, a traição, o rancor, o ciúme, o egoísmo ou a morte tenham destruído um relacionamento, o amor que um dia aconteceu é para sempre. 

Podes sentir ciúme dos “ex”s de tua amada. Aqueles que passaram pela vida dela carregam um todo dessa mulher que tu nunca vais ter. Do mesmo modo, as ex-namoradas de teu marido das quais “roubaste” o cargo de esposa, roubaram de ti românticos capítulos da juventude desse homem que jamais terás. Mesmo que hoje ele as odeie, as despreze e nunca mais as veja, um todo de cada uma delas está presente nele. Para sempre.

Quem pode roubar de nós o primeiro beijo roubado? O primeiro é o primeiro. Se tu não foste o autor do primeiro, tu serás, no máximo, o primeiro de língua, o primeiro na padaria, o primeiro com aparelho nos dentes... O primeiro mesmo, meu caro, já foi e dela ninguém tira. Admite.

Admite o quão verdadeiros foram as confissões cafonas ao pé-do-ouvido, as primeiras flores recebidas, as fugas e desculpas para ver o “grande amor da minha vida”, o beijo flagrado naquela tarde embaixo da mangueira e que só foi o que foi porque teve um beijo, um abelhudo e uma mangueira que jamais voltarão. Não precisam. São eternos. Ainda que o amado tenha sumido, o abelhudo, morrido e a mangueira, sido cortada.

Admite que teu amado de hoje foi aprimorado pelas outras mulheres que ele amou. Que as flores que recebes hoje são filhas do primeiro buquê que ele comprou cujo perfume ainda está nele. Admite que a paciência dele com tua TPM foi conquistada por outra menina que não contou com a mesma complacência. Que as delicadezas que ele hoje tem contigo não vieram das conversas com os amigos, mas de aulas práticas ministradas por almas do sexo feminino.

Admite que tua mulher não virou mulher em teus braços e que nem por isso é menos encantadora do que aquela primeira que te fez homem. Aceita o fato de que o olhar carinhoso que hoje te derrete foi ensaiado em outros rapazes e que os beijos que agora recebes são jóias lapidadas por outras bocas. Graças a elas, não recebeste um diamante bruto.

Admite que teu amado não é teu. Há nele algo tão “ele” que jamais terás, feito de partes que outras tiveram, feito de um todo que também levarás.

Admite que tua amada não é tua. Há nela um Bruno, um Carlos, um Luís tão dela quanto ela mesma. Amores verdadeiramente amados que nunca morrerão e que a fazem ser quem é, que fazem todos ser quem são. 

Admitir isso é o começo do amor.

21 agosto 2007

A última grande sessão

Para quem nasceu na pequena Carnópolis na década de 1940, sem televisão, nem motel, o Cine Xavante era a opção para as descobertas do amor. Não dava para fazer tudo, mas chegava bem perto. O escuro da sessão proporcionava o único ambiente lícito privado o bastante para arrancar o primeiro beijo, arriscar as primeiras saliências e se aventurar nas voluptuosas reentrâncias. A depravação no Xavante deixava o filme num quarto plano, o que deve ter feito os Lumière sapatear na cripta ao ver o que fizeram de sua invenção.

A sem-vergonhice se desenrolava em silêncio. Isto é, na medida do possível porque ninguém controla um chilipi ao recolher a baba pós-beijo, ou o discreto nheque-nheque das poltronas de madeira ou até um intrigante funhé-funhé que provocava a mente da audiência desacompanhada que só imaginava os mais insólitos lugares de onde poderia ter partido aquele som.

Qualquer movimento mais ousado tinha de esperar uma cena de ação bem barulhenta. Por essa razão, os faroestes com seus tiroteios e os filmes de guerra repletos de explosões eram os preferidos dos assanhados. Foi numa dessas tentativas de encobrir um nhóinque-reinque seguido de um fichóinque que a coisa emporcalhou de vez e condenou a maior diversão da cidade.

Era uma daquelas matinês de sábado no Xavante. A sala estava lotada. Ademar e Berenice conseguiram o melhor lugar, na última fileira. Na frente deles, ficaram Ernesto e Dinorah, logo atrás dos namoradinhos Adelaide e Jair que estavam em frente às nucas de Lindaura e Rodolfo, que por sua vez sentaram no primeiro corredor antes do próximo bloco de poltronas. À frente destes só a cadeira de jatobá de Horário, o lanterninha.

Ademar foi o culpado. Mal as luzes se apagaram, ele já estava se atarracando à cintura de Berenice. A coisa foi esquentando, os outros casais, se aconchegando e a sala inteira se dividiu entre os que se lambuzavam e os que se divertiam assistindo a pouca-vergonha alheia. O filme só servia para mudar as nuances de luz sobre o verdadeiro espetáculo. Com a testosterona nas alturas, o descarado Ademar só esperou a primeira explosão na tela para aplicar o seu nhóinque-reinque-fichóinque sobre a pobre (mas não menos sem-vergonha) Berenice. O óinque foi perfeito; o reinque, razoável, mas na hora do fichóinque... Ademar – que era halterofilista – agarrou a poltrona de Berenice pelo encosto com tanta força que desengatou a fila de cadeiras. A fileira toda desceu a rampa até o primeiro corredor.

Com o barulho do filme, poucos notaram o incidente. Ademar beijou o ar e logo depois o carpete mofado do Xavante. Berenice escorregou para os braços de Ernesto que percebeu a mudança de mulher logo depois que lavou a orelha de Berê com sua língua e notou um brinco bem maior que o da namorada. Adelaide sabia que Jair não possuía dotes avantajados, mas de repente notou que havia muito menos por lá desde a última vez que ela havia visitado o local. O que ela apalpava era a intimidade de Dinorah, que por sua vez nunca tinha experimentado sensação tão boa.

O coitado do Jair foi a decepção de Lindaura. Acostumada com o volumoso Rodolfo, a moça viu aquela massa desaparecer de uma hora para outra. Pensou que o namorado havia perdido o interesse por ela. Dupla injustiça. Jair estava no auge de seu interesse e Rodolfo, sempre distraído, entregou-se de corpo e alma sem perceber que sua cadeira havia deslizado um degrau abaixo.

Horácio foi quem recebeu os cuidados de Rodolfo. O jovem fogoso agarrou a mão do lanterninha pensando ser a de sua amada e a trouxe ao alto da coxa. Levou uma lanternada em seu parque de diversões. Seu berro foi ouvido da praça. Seo Olavo, o projetista que dormia durante as sessões, acordou assustado e acendeu as luzes.

O constrangimento atingiu até os que não haviam participado da dança das cadeiras. Só se ouviam burburinhos, e zíperes subindo, camisas fechando e gente tentando se recompor. A descompostura no Xavante virou o assunto da cidade. O cinema viu a bilheteria minguar com as famílias proibindo os jovens de freqüentar aquele antro da sétima arte. Em pouco tempo fechou as portas. Os casais se recuperaram do incidente, com exceção de Dinorah que fez questão de terminar com Ernesto. A moça começou a se aproximar de Adelaide que passou a evitá-la a todo custo.

Nunca mais Carnópolis teve outra sala de cinema. Depois de mais de trinta anos, os novos jovens da cidade viajavam para a metrópole vizinha para apreciar a telona. Mas iam só assistir a um filme. Juventude esquisita.

13 agosto 2007

Mamodecobra Parte IV - O Sacrossanto Direito à Impunidade

Mamodecobra Parte IV
Capítulo 7.761
O Sacrossanto Direito à Impunidade


“Cadeia”, eis um vocábulo completamente desconhecido no métier corruptivo brasileiro. Afinal a Justiça do Brasil é uma máquina extremamente eficiente e automática, é colocar notas graúdas de um lado e obter a impunidade do outro, mas calma lá: não estamos falando de subornos ou propinas. Neste país, quem segue a cartilha processual e contrata bons advogados só conhecerá uma prisão: a de ventre.

Essa magnífica estrutura judiciária em prol da impunidade ainda é respaldada pela Constituição Federal. Na Carta Magna, o Legítimo Direito à Impunidade é chamado de Legítimo Direito de Defesa. A ampla defesa permite muito mais do que a pura e simples defesa. Aliada a uma infra-estrutura forense caduca e desinformatizada, ela gera o ambiente perfeito para a instalação e a proliferação da impunidade crônica.

Dinheiro, o melhor amigo do corrupto

Claro que isso tudo está condicionado àquele bom e velho amigo do corrupto, o dinheiro. A qualidade da defesa é proporcional à quantia investida em advogados. Não sai barato. É bom lembrar que é preciso manter advogados em todas as comarcas em que o processo for sendo arrastado com a barriga. Além disso, honorários advocatícios também incluem as quantias envolvidas nos processos. Em bom português: se você ganhou milhões superfaturando viadutos não pense que escapará da cadeia sem abrir mão de boa parte dessa fortuna.

Se quiser um investimento seguro anote: não invista em ilhas, apartamentos suntuosos ou carros caros, aplique seu suado dinheirinho desviado em advogados caros. Até hoje não vimos nenhum corrupto de alta estirpe morando no xilindró ou debaixo das pontes que ele superfaturou. A mais austera pena que um rico já levou por aqui foi uma “prisão” domiciliar na própria mansão, essa atrocidade foi considerada uma falha no sistema.

O bom advogado conhece todas as ferramentas para protelar um processo até que os crimes prescrevam. Além dos tradicionais recursos, é possível ajuizar mais de uma centena de petições que vão desde documentos ligados ao processo até uma requisição para saber se a anágua da juíza ornava com a cor dos olhos do procurador geral; só para ganhar um tempinho até a petição ser indeferida.

Porém os louros não vão só para o advogado. O Judiciário contribui bastante para que a penitenciária seja um pesadelo impossível para o corrupto brasileiro. Há fóruns em que ninguém sabe onde enfiaram o processo, quando o encontram já está na época do recesso dos tribunais e o corrupto ganhou alguns meses sem ter que pagar nem um centavo a mais por isso.

Privilegie o seu foro

Outro ótimo negócio para o bom corrupto é tornar-se uma autoridade com foro privilegiado. Isso significa que você só poderá ser julgado pelo Supremo Tribunal Federal ou pelo Superior Tribunal de Justiça, dependendo da bocada que você conseguiu. Encabeçando as instâncias finais de todos os processos do país, o STF e o STJ não conseguem acelerar as ações movidas contra as autoridades, pelo contrário, a tartaruga processual engata a marcha reduzida. Virar juiz, vereador, deputado, prefeito, governador, presidente, etc. não é só uma maneira de você ampliar o seu poderio corruptivo é também um caminho tranqüilo para escapar da punição. É o céu para a ladroagem VIP.

Você não tem foro privilegiado? Não se preocupe: roube com quem o tem! Se o processo do VIP for para Brasília, o seu poderá ir junto. Há como alegar que instâncias diferentes não devem julgar os mesmos fatos. Desse modo, se você for co-réu num processo que envolve também uma autoridade de foro privilegiado, há muita chance de você ter sua ação promovida para a capital, onde será mantida em geladeira federal até estragar.

Punição, como acabar com esse mito

Vamos à nossa tradicional seção de exemplos:
Você construiu um Fórum e usou nessa obra dinheiro suficiente para fazer cinco Taj Mahals com domos de ouro maciço. Selecione entre os réus quem têm foro privilegiado. Peça o foro especial e então entupa o STJ e o STF com mais de 70 petições dos mais variados temas. Você ficará impressionado com o número de crimes que irá caducar antes mesmo de você ser intimado a depor.

Consegue foro privilegiado e serão salvos tu e tua família

Enquanto era prefeito você construiu um túnel sob um rio que custou mais do que três Eurotúneis sob o Canal da Mancha. Se você ainda tiver popularidade, lance sua candidatura a vereador, deputado estadual ou até mesmo federal. Ao ganhar a eleição, seu processo será transferido para Brasília. Até que o STF decida se família unida escapa unida ou separada, sua mulher e seu filho envolvidos na lavagem do dinheiro estarão tranqüilos e o processo contra eles, suspenso.

E lembre-se: corrupto idoso tem atendimento preferencial. Acima de 70 anos, os crimes prescrevem na metade do tempo. Nada mais respeitoso a quem tanto contribuiu para a instauração da mais rica de nossas culturas: a da corrupção.

07 agosto 2007

Gafanhoto vai ser papai

Fiz esta fábula sob encomenda para o Dia dos Pais para a Scritta . Ficou bonitinha, postei aqui.

Gafanhoto vai ser papai
Fábio Reynol

No mundo dos insetos, o besouro é o guru e o gafanhoto, um embrutecido soldado. Explicado isso, entenderás o seguinte diálogo travado entre indivíduos dessas duas espécies num jardim qualquer da existência:
- Nunca pensaste em ser pai, gafanhoto? – indagou maliciosamente o besouro.
- Fui pai de mais de sessenta filhotes. Isso é mais filho do que muitas espécies sonhariam em ter, senhor besouro. Inclusive a tua.
A alfinetada não tirou o inseto gorducho do sério. Pelo contrário, iniciou a fogueira da passionalidade que o besouro pretendia alimentar com mais provocações:
- Pois digo, ainda que tivesses mais de cem filhos não saberias nem de perto o que é ser pai.
O gafanhoto perdeu as estribeiras:
- Quantos filhos tiveste, besouro? Cinco? Sete? Não consegues povoar nem o próprio ninho e estás querendo me dar lições de como ter filhos?
A discussão estava ficando do jeito que o besouro queria:
- Tu sabes melhor do que ninguém como ter filhos. Estou dizendo que tu não sabes o que é ser pai. Tive somente seis rebentos em toda a minha vida. Preferi a qualidade à quantidade. Sei onde estão esses seis, o que fazem, conheço meus netos. Garanto que não sabes nem se os teus filhos estão vivos. Mais da metade já deve ter sido engolida ainda na infância por algum pardal.
- Pois eu posso cuidar de uma prole melhor do que tu, com certeza. E meus filhos...
- Falar é fácil... - interrompeu o besouro a reação furibunda do gafanhoto.
- O que queres dizer? Estás falando isso porque estou velho para ser pai novamente e não poderei provar isso, não é?
O besouro deu um sorriso. O gafanhoto chegou exatamente no ponto pelo qual o besouro estava esperando.
- Estás confundindo a paternidade com tuas funções reprodutivas. Se te consideras um bom pai, sempre há como prová-lo.
- Se estás pensando que vou atrás de meus filhos só para ganhar uma aposta, pode ir tirando tuas mandíbulas do orvalho...
- Não é preciso ir muito longe. Há uma criança sem pai nem mãe neste jardim que só precisa de um gafanhoto que dela cuide.
Quando o gafanhoto percebeu, já tinha caído na armadilha do besouro. Se rejeitasse a missão, estaria provada a sua incompetência como pai. O jeito era conformar-se:
- Tu és muito esperto, besouro. Onde está o gafanhotinho?
- Não há gafanhotinho algum. A criança é uma joaninha que teve os pais devorados por um canário do reino.
- Uma joaninha?! – berrou o gafanhoto – Estás de brincadeira? Não vou ser pai de bicho de outra espécie.
- Exatamente. É nesse ponto em que a paternidade mora: proteger e ensinar uma criança seja ela gafanhoto, joaninha ou centopéia. E, como eu pensava, você não nasceu para isso...
O besouro sabia cutucar o ponto frágil do gafanhoto, o brio. A contragosto e extremamente irritado, o velho gafanhoto aceitou a missão e o besouro conseguiu se livrar da pentelha joaninha que não o deixava em paz.
A joaninha deu um trabalho estafante ao gafanhoto. Ela não sabia voar, nadar, pular nem se defender como os gafanhotos. Para mantê-la viva, o gafanhoto tinha de estar ao lado dela durante o dia inteiro e às vezes lutar com predadores bem maiores do que ele. Para livrar a filha dos perigos futuros, o gafanhoto ainda lhe ensinou tudo o que sabia sobre a vida. Todo o esforço tinha de ser feito para que a joaninha chegasse à idade adulta.
Quando esse dia chegou. O gafanhoto foi orgulhoso apresentar ao besouro a filhota já crescida para se despedir do grupo. Assim que ela bateu as asinhas vermelhas e desapareceu entre as folhas, o gafanhoto sentiu uma tristeza profunda.
- Acho que agora tu és pai – declarou o sábio besouro.
O gafanhoto nem respondeu. Com a deliciosa sensação do dever cumprido, morreu poucos dias depois porque, como já foi dito, ele estava velho. No enterro não apareceu nenhum de seus filhos gafanhotos.
A joaninha? Bem, ela também não compareceu porque tinha um chá-de-panela de uma amiga libélula... Mas o fato é que ela foi mais filha do que os outros e ponto final.

02 agosto 2007

O Chilique dos Chiques


Milionários do Brasil uni-vos e esperneai! Tirai vossos Rolexes e Cartierzes das gavetas, arrancai dos closets vossos paletós Armanis, com coletes Hugos Bosses e calças Pierres Cardins. Fardai-vos com vossas estolas de vison e taillers Christian Diors e borrifai nas faces vossos Cocos Chanéis calçando Guccis e Giannis Versaces. Façai uma carreata de Ferraris, Maseratis, BMWs, Jaguares e Mercedes Benzes e estacionai vossos SUVs em frente ao Palácio do Planalto e no espelho d´água do Congresso! Pois o tempo é de protesto!

A corrupção acaba de bater às portas dos condomínios de alto padrão. Que corrupção é essa, meu Deus, que não respeita mais nem os ricos? Foi-se o tempo em que havia consideração pelos que tinham muito. Agora a Infraero está tirando os jatinhos da rota e o buzanfã da reta. Não se viaja mais com classe – nem na econômica! E até as balas, que costumavam se perder só na Zona Norte, estão passeando pelo Leblon. Inadmissível! Bordai com Swarovskis em vossas t-shirts Yves Saint Lauren, o vosso garrafal e chiquérrimo: CANSEI!

Mostrai ao povo que não são só os excluídos que sabem gritar, mas bon vivants, playboys e socialites também podem dar os seus berrinhos histéricos. Provai que muito mais elegante que o Grito dos Excluídos é o Chilique dos Endinheirados. Num país em que se ganha no grito, todos acabam surdos. Com exceção da Justiça, que no Brasil é cega, surda e muda de nascença.

26 julho 2007

Mamodecobra - Parte III - Sabendo roubar...

Mamodecobra - Parte III
Capítulo 5.842
Sabendo roubar, não vai faltar

Caro corrupto júnior, não se engane: nem todo o dinheiro sujo vem de fontes ilegais. Boa parte dele é 100% legitimada por decretos e leis (mesmo porque são muitos os corruptos que se dedicam a fazer decretos e leis). Conhecer as fontes de enriquecimento, sejam elas legais ou clandestinas, é importante para manter-se fiel a um dos valores mais importantes da profissão: o valor financeiro. Guarde esta máxima: a um corrupto pode faltar tudo, vergonha, caráter, sinceridade..., mas jamais poderá faltar a razão de sua existência: o dinheiro.

Aos corruptos de outras áreas cabe aqui uma breve introdução ao processo legislativo orçamentário. Todos os anos, parlamentares dos três níveis (municipal, estadual e federal) votam o orçamento do ano subseqüente a ser gasto pelo Executivo. O chamado “orçamento aprovado” é um pedaço de papel no qual estão escritos as quantias que seriam teoricamente gastas em cada setor. Na prática, os números do papel não têm nada a ver com o que é realmente destinado aos setores lá discriminados.

Entra aqui a figura do “contingenciamento”. Em miúdos, é como se o governo dissesse: “tá escrito aí R$10 milhões, mas eu só dou cinco!”. O dinheiro que o governo não segurou é direcionado ao seu respectivo destino não sem antes passar por várias mãozinhas, cada uma cobrando o seu "pedágio". Com um pouco de sorte, o setor receberá alguns trocados e ainda sobrará algum para tapar as goteiras. O destino da diferença contingenciada pouco importa: pode ser para fazer superávit primário ou mesmo um superávit do salário, o importante é administrar a merda que vai ser quando o setor desfalcado entrar em crise por causa da falta do dinheiro previsto.

Atenção, corrupto iniciante! Nessa hora nem pense em cobrar as verbas que não foram investidas nos últimos anos e muito menos retomar as fortunas pagas em propinas e otras cositas porcas. Anote esta outra máxima do mundo corrupto: “Verbas desviadas não voltam aos cofres.”

E faça-se (um imposto para) a luz!
O que fazer, então? Simples: crie um novo imposto ou uma nova tarifa. Vamos supor que o governo não tenha investido o que deveria no setor de energia elétrica, por exemplo. Com o passar dos anos, a tendência é o país voltar à idade média usando a luz de velas e tomando banho de cachoeira. Para que as indústrias não retornem à Era do vapor, faça uma cara de quem foi pego de surpresa (vide Capítulo 1.357 sobre Dissimulação) e anuncie uma nova tarifa na conta de energia elétrica. Dê ao novo tributo um apelido simpático: “seguro apagão” e deixe claro que é um investimento para o “progresso do país”.

Vamos a outro caso hipotético. Suponhamos que durante anos o setor aéreo sofreu contingenciamentos. Quando os aviões começarem a cair, não perca o rebolado. A primeira reação deve ser negar, imediata e peremptoriamente, o contingenciamento. Anuncie uma reforma geral no setor patrocinada, é claro, por um "módico" aumento das tarifas que resultará no encarecimento das passagens aéreas. O cidadão terá o prazer cívico de pagar por elas “em nome da segurança em primeiro lugar” (não se esqueça de incluir este argumento).

Criar impostos não é difícil para quem sabe fazê-lo. Só é preciso ter todo o cuidado para não gerar animosidades na opinião pública. Há métodos muito eficazes e praticamente indolores de arrancar dinheiro da população sem causar rebuliço. Siga os seguintes passos:

1º - Invente uma finalidade nobre para o imposto.
Por exemplo, jure de pés juntos em frente às câmeras: “será 100% destinado à Saúde”.

2º- Amenize os efeitos da facada com mentirinhas.
Diga, por exemplo, que o imposto será provisório e troque a palavra feia “imposto” pelo eufemismo “contribuição”.

3º - Mantenha esse discurso durante o primeiro mês de vigência e não se preocupe com os efeitos futuros.
A memória coletiva brasileira retroage, quando muito, ao período de uma semana. Quando o povo se der conta de que o imposto tem uma transitoriedade eterna, ninguém mais se lembrará de onde, e nem como, ele surgiu.

4º - Jamais saia de casa sem a boa e velha cara-de-pau
Se algum espertinho tentar ressuscitar a história, alegue amnésia. Negue o que você já disse, escreveu ou pensou e, no conforto de seu palacete, dê uma banana para essa gentalha. Mas, pelo amor de deus, feche as cortinas! Há muitos corruptos pés-de-chinelo fazendo na vida pública, o que deveriam fazer na privada. É esse amadorismo que está denegrindo a imagem da profissão!

(não perca os próximos capítulos do Mamodecobra)

24 julho 2007

Denúncia anônima

Exmo.Sr. JC,

Protocolei esta denúncia diretamente com teu secretário especial. Por razões de segurança, preferi não deixar nas mãos do porteiro, Simão Pedro. O caso é grave e envolve aquele episódio na praia com o papo de “edificação”, “ovelhas”, “pedra”... tás lembrado? Pois é. Eu fiquei na minha até agora, fingindo que estava tudo bem, mas a coisa está ficando pra lá de preta. Se tu não tomares uma providência logo, vais ter que descer de novo para botar ordem na casa.

O fato é que no começo deste mês o Joseph, que substituiu o Karol na presidência, emitiu um decreto declarando que só ele cantava de galo em teu nome. No documento, ele declara inválido todo mundo que não tiver o crachá da empresa. Ele ainda decretou “falsas” todas as tentativas de comunicação contigo que não sejam feitas pela operadora dele. E o mais grave: ele disse que foste tu que autorizaste o monopólio do serviço, bem naquela conversa da praia quando o Simão recebeu o nome fantasia.

Os problemas, porém, não param por aqui e vêm de mais longe. Há algum tempo, ele demitiu sem mais nem menos todos os homossexuais. Este ano, atacou quem casou mais de uma vez. Antes disso já tinha arranjado uma baita briga por ter ofendido a concorrência. Na época, o pessoal de Maomé queria encher a gente de porrada. E enquanto questões sérias passam ao largo, as pautas de discussão da diretoria ficam no sexo e na camisinha.

Até hoje, fiquei vendo tudo isso sem falar nada. Mesmo porque tu havias dito que nem um fio de cabelo desviado escapava do teu Serviço de Inteligência. Imaginei que seria uma questão de tempo para uma operação da Interpol, uma força tarefa, um raio ou outra forma menos branda de correção chegasse à matriz européia. Como nada aconteceu, imaginei que as coisas poderiam não estar chegando aos teus ouvidos. Por isso, esta carta.

Por fim, Sr.JC, o maior mistério pra mim são tuas escolhas. Entendo Pedro, simples, pescador, bruto, quase sincero. Mas não poderias ter escolhido hoje alguém mais parecido contigo? Ladrões, prostitutas, pobres, gays nem chegam perto da matriz. Se tu deres uma descidinha aqui, duvido que consigas uma audiência sequer com o ajudante do secretário do porteiro da entrada dos empregados. O negócio ficou muito elitizado. A salvação virou coisa de rico. Longe de mim querer meter o bedelho em assuntos do alto escalão, mas não seria o caso de uma intervenção daí de cima? A sugestão tá feita!

Atenciosamente,

Um servidor na corda bamba

20 julho 2007

"Só não fizemos sexo!", ACM

Grande Bira Dantas!

"Só não fizemos sexo"
Quando disse o dito acima, o hojemente falecido Toninho Malvadeza Magalhães se referia à sua relação intra-conjugal com o então presidente FHC. Eles formavam um raro casal que gerou centenas de filhos sem ter dado nenhum créu (no bom sentido da palavra). Essa prole promissora (no pior sentido da palavra) continuará alimentando o Mamodecobra com o que há de mais refinado em matéria de corrupção de grande monta (de monta ni nóis).

Sr. ACM, o seu legado será lembrado e ensinado aos pupilos de sua incrível arte.
Editores do Manual da Moderna Corrupção Brasileira (Mamodecobra)

Mamodecobra está de luto
A Bahia está sem um deus
O baiano está sem um puto.

19 julho 2007

Mamodecobra - Parte II - Dissimulação

Pincei do comecinho do Mamodecobra (Manual da Moderna Corrupção Brasileira) este importantíssimo capítulo que trata de uma questão premente no cenário corruptório atual: a dissimulação.

Capitulo 1357
Dissimular é preciso
dizer não é preciso

Eis um predicado indeclinável do corrupto desde o tempo em que a corrupção é corrupta, a dissimulação.

A cara-de-pau ou cara-lisa vai sendo endurecida com o tempo e deve ser conservada com vernizes especiais de falsos pudores e com chiliques moralistas convincentes.

A verossimilhança que a dita cara deve apresentar tem que ser diretamente proporcional à falcatrua que ela vai esconder. Desse modo, uma cara de "não-pedi-para-o-lobista-pagar
-o-táxi-dessa-senhora" não convence se for utilizada no lugar de outra de "não-tenho-nada-a-ver-com-os-milhões-desviados-dessas-plataformas". Do mesmo modo uma cara de "fiz-minha-fortuna-enquanto-ainda-era-engraxate" soa exagerada, e portanto suspeita, quando empregada no lugar da "a-licitação-do-cafezinho-foi-feita-dentro-dos-trâmites-legais". Níveis diferentes de roubalheira exigem diferentes graus de dissimulação.

Vejamos alguns exemplos:

- Como o senhor explica o caos aéreo brasileiro?
Resposta verdadeira:
- Nossa incompetência gerencial aliada ao desvio crônico de verbas do setor, somados ao acúmulo de omissões dos governos passados e agravada pela falta de vontade política atual explicam perfeitamente o quadro.
Resposta correta:
- Nossa nação atingiu tamanho grau de desenvolvimento que, de repente, todos resolveram viajar de avião ao mesmo tempo sobrecarregando o sistema.

- O que a senhora tem a dizer aos passageiros que esperam horas nos aeroportos?
Resposta verdadeira:
- Não se sintam culpados. As opções na última eleição não eram tão melhores do que este governo.
Resposta correta:
- É o custo do progresso. Daqui pra frente mais gente vai viajar de avião e deixar os obsoletos automóveis nas garagens.
Resposta de um especialista (em sexo):
- Já que o estupro é inevitável...

Unindo o útil ao prazeroso
Quando falta matéria-prima dissimulatória é recomendável encobrir uma falta legal com outra, de cunho moral. Expliquemos:
Se for desviar quantias propinatórias vultosas, torna-se interessante usar uma relação extra-conjugal como cortina-de-fumaça. Caso descubram a falcatrua, jogue no ventilador a pulada de cerca.
- O dinheiro da pensão era do senhor ou foi pago pela empreiteira?
- Foi um momento de fraqueza, a moça se insinuou...
- Como o senhor explica o caso com essa moça?
- Minha mulher já me perdoou por isso.
- E de onde veio o dinheiro de sua fortuna?
- Minha mulher já me perdoou por isso também!

E atenção: se descobrirem a dissimulação, não pense duas vezes, dissimule novamente:
- O senhor acha correto usar favores de lobistas?
- Meu Deus do Céu! Agora eu vou ser julgado por ter dado uma bimbadinha fora do casamento?

Se você estiver do outro lado, na bancada da oposição, é crucial comentar a questão como se nunca tivesse sido governo. Vista aquela cara de inconformismo:
- Isso é uma pouca vergonha jamais vista na história deste país!

18 julho 2007

Da Al Qaeda

Da seção de classificados de um jornal árabe de hoje:

Al Qaeda contrata:
Diretores da Infraero para administrar reformas em aeroportos nos Estados Unidos.

12 julho 2007

Manual da Moderna Corrupção Brasileira

Queridos leitores diatríbicos, é com incorruptível orgulho que anuncio a publicação do primeiro folhetim deste respeitável periódico eletrônico: o Manual da Moderna Corrupção Brasileira.

Nesta semana, vocês vão ter que se contentar com o prefácio. Nas futuras, publicarei capítulos descontínuos e fora de ordem. Também não serão todos publicados no site por óbvios motivos capitalistas: quem vai comprar um livro que está 100% na internet? Ainda mais quando o público alvo é especializado em fraudes, rombos e desvios!

Aos apressadinhos vou logo dizendo que não adianta procurar nas livrarias. A impressão se encontra em fase de licitação na qual ganhará a editora que oferecer a melhor propina (até agora a Gráfica do Senado está na frente). Infelizmente, não consegui enquadrar esta obra nas leis de incentivo à cultura por se tratar de material didático. De qualquer forma, a necessidade imperiosa deste povo de adquirir conhecimentos ilícitos será o maior catalizador de sua publicação.

Enquanto o supercatatau literário não entra nas rotativas, os corruptos que se prezam terão que absorver as gotas de conhecimento publicadas no Diário da Tribo ou aprender na raça, ou seja, lendo os jornais diários.

A você, leitor honesto, mate a sua curiosidade sobre o supramundo da corrupção enquanto ele mata você aos poucos. De minha parte, só roubarei o seu tempo.

Boa leitura.

Manual da Moderna Corrupção Brasileira

Prefácio

De início peço desculpas ao leitor deste pioneiro manual. Tentei com fervor e afinco, todavia não encontrei um corrupto ilustre para prefaciar esta edição. A bem da verdade, corruptos famosos encontrei muitos, entretanto nenhum disposto a honrar com uma mera rubrica o primeiro grande manual da corrupção brasileira. Corruptos são assim mesmo, humildes demais para se admitirem como tais. Talvez pelo mesmo motivo nenhum deles dignou-se a escrever duas ou três linhas que fossem para abrir esta inédita obra com chave de ouro superfaturado.

Tampouco se debruçaram a engendrar um guia tão útil aos iniciantes do ignóbil mundo corruptivo. Coube a mim, mero pensador amador e jornalista profissional que nunca teve a oportunidade de mamar nas copiosas e impudicas tetas do poder, deitar em papel reciclado este verdadeiro compêndio catalográfico da metodologia corruptiva nacional.

A maior dificuldade nesta empreitada pessoal não foi escrever sobre o assunto (posto que há abundante material publicado diariamente pela imprensa em volume suficiente para compor a enciclopédia corruptiva mundial ou quiçá uma nova biblioteca de Alexandria), o pior obstáculo foi definir o nome mais adequado a tão inusitado livro.

Pensei em “Novíssimo Manual da Corrupção Nacional”. Se o Cegalla publica a sua “Novíssima Gramática” desde a década de 30, por que o meu manual não seria mais novíssimo ainda? Porém, pensando melhor (tenho permissão para pensar no meu trabalho), percebi que os mais incautos poderiam imaginar que o novíssimo se refere à corrupção, e se tem um adjetivo que não tem relação nenhuma com corrupção é justamente “novo”. Pelo menos aqui no Brasil, a corrupção precede em quase cinco séculos a gramática do Cegalla.

Depois pensei em Grande Manual da Corrupção Brasileira. Não foi por modéstia que descartei o “grande”. Foi para evitar pleonasmo. Afinal, o que seria maior neste mundo do que um manual da corrupção brasileira? Só mesmo o seu próprio objeto de estudo. Descartei então o óbvio.

Por fim, veio o “Manual da Moderna Corrupção Brasileira”. Ficou bem. Afinal é muito mais moderno você tramar desfalques pelos sofisticados blackberries antigrampos, do que ser apanhado em conversas telefônicas trepado com o fio na mão no poste da esquina. Para reforçar o nome, é realmente uma das funções deste manual apresentar os métodos de fraudamento eletrônico para o corrupto moderno que precisa desviar verbas licitatórias pelo laptop ou até fraudar um painel eletrônico de senado.

À guisa do esclarecimento

Antes que perguntem. Por que me autodenomino pensador amador? Primeiro: porque no Brasil não dá para viver pensando. O pensamento é o único artigo raro neste país que tem o seu preço em declínio. Aqui, os pensadores profissionais estão sendo obrigados a comer as próprias elucubrações para não morrerem de fome.

Além disso, estou impedido de exercer profissionalmente a função de pensador uma vez que já sou oficialmente registrado como jornalista, uma função (como milhares de outras no país) incompatível com o exercício intelectual, especialmente quando você trabalha para um grande grupo comunicacional que pensa por você. Esse não é o meu caso, por isso consigo dar umas pensadinhas rápidas enquanto trabalho. Meu codinome tem o prefixo ‘PP’: permissão para pensar. Como no caso de 007, a credencial dá certo status no início, mas expõe você a riscos em trabalhos muito mais perigosos.

Bem, foi durante essas pensadinhas que acabei descobrindo que o mundo não é tão redondo quanto tentam nos vender, que nem todos os peitos são obras da natureza, que as cores dos cabelos femininos não nascem na cabeça de ninguém, que discurso e prática não freqüentam o mesmo ambiente (o primeiro é próprio de palanque a segunda, de gabinete), que a amnésia é doença crônica transmitida pela faixa presidencial brasileira, que a maior extravagância que um milionário pode adquirir no Brasil é um senador e que não é normal que os delinqüentes pobres sigam para a cadeia enquanto os ricos tomam o rumo de Brasília. É para estes últimos que dedico este livro de valor inestimável aos que querem evoluir na arte de roubar, renunciar e voltar na próxima eleição (não necessariamente nessa ordem).

Não perca a continuação nas próximas edições do Diário da Tribo.

27 junho 2007

Tristes crônicas de um país sem graça

1997
Era uma noite quente de abril quando cinco estudantes bem alimentados e educados sob os auspícios da fina flor da sociedade brasiliense se cansaram de seus videogames e resolveram sair às ruas à caça de brinquedos mais emocionantes. Os mimos dados por papai e mamãe não mais satisfaziam os impulsos desses meninos sapecas e cheios de energia.

Um deles ofereceu o carro – outro brinquedinho patrocinado por papai – e os demais embarcaram. Não demorou para a capital federal lhes apresentar uma diversão digna de gente de alta estirpe. Avistaram uma construção pública que lhes era completamente estranha. Sabiam que chamavam aquilo de “ponto de ônibus”, para eles algo absolutamente inútil. Como podem gastar dinheiro público com coisas assim? Pensavam. Aquilo só servia para oferecer abrigo a quem se utilizava do transporte público, outro conceito que eles não conheciam nem de perto. Ademais, nunca se imaginaram colocando seus abonados buzanfãs tratados a talquinho italiano num banco de concreto tão nojento.

Naquela noite estrelada, eles descobriram que o dito equipamento público tinha outra função que era muito mais nociva à sociedade dos meninos educados. O ponto também servia de abrigo a indigentes que, como o próprio nome diz, são menos que gente. Essa espécie se enquadra numa categoria entre os cachorros e os ratos, uma vez que muitos cães encontram abrigos quentes e sociedades que os protegem e os ratos se escondem nos esgotos para não se exporem em pontos de ônibus. Imagine a indignação experimentada pelos rapazes ao encontrar naquela parada de ônibus um desses indivíduos que emporcalhavam a cidade com a própria existência.

Numa atitude patriótica e de cunho sócio-saneador, o grupo que estudou nas mais caras escolas da cidade decidiu cauterizar aquele cancro social. Imbuídos desse nobre dever cívico, espalharam combustível o mais uniformemente possível sobre aquela subpessoa que ousara nascer num mundo muito mais educado do que ela. Riscaram um fósforo e observaram com atenção (como convém aos que conhecem o método científico) como se comportava o fogo ao queimar um material tão vil e de tão pouca serventia. Satisfeitos, voltaram para casa com a sensação do dever cumprido e admirados com a própria capacidade de unir prazeres e obrigações. Dormiram tranqüilos.

No dia seguinte, o mundo desabou sobre suas iluminadas e endinheiradas cabecinhas. Só metade de sua contribuição à sociedade havia se completado. O alvo tinha sido eliminado, é certo, só que ele não era um indigente, mas um índio o que o colocava numa categoria ligeiramente superior aos moradores de rua, ainda que não gozasse do status de “gente”. Claro que além do amparo dos poderosos papais que vieram em seu socorro, havia também a eloqüente justificativa que pesou em seu favor: “Foi mal! Pensamos que fosse um mendigo!” A “Justiça”, que por cinismo ou deboche gosta de usar esse nome no Brasil, nem considerou homicídio, preferiu classificar a estripulia como “agressão física”. Afinal, o que matou o índio foram as queimaduras não o ato dos marotos.

Quatro passaram pouco tempo em pseudo-prisões de onde saíam para tomar cerveja e fazer faculdade (afinal eram educados!). Desde 2004, estão sob liberdade condicional, ou seja, condicionada a que não cometam mais diabruras nem gestos de crianças mal-educadas. O quinto nem foi incomodado porque era menor (ops!) criança!

2007
Cinco capetinhas da crème de la crème carioca, satisfeitos por viverem num país em que há “Justiça” (eles nunca notaram a sutil piadinha por trás dessa palavra) também saíram à noite a brincar e a gastar a mesada que os papais lhes davam. Eles se esbaldavam numa fresca madrugada de junho na Cidade Maravilhosa, quando se depararam com aquela aberração que o governo insistia em manter nas vias públicas: o ponto de ônibus. Sob o abrigo, identificaram outra subespécie que não deveria jamais conviver com seres humanos: a das prostitutas. Cheios de altivez moral, não pensaram duas vezes em sair de seu carro e limpar o quintal de casa dando uma boa surra nessas criaturas que tinham a petulância de se intitular “mulheres” e ainda mais “da vida”.

Pecaram pela desobediência. Lembra quando a mamãe falava para não deixar os brinquedinhos largados por aí? Pois é. Deixaram o carrinho de ferro solto na rua e enquanto brincavam de defender o bom nome da high society carioca, um taxista anotou a placa do dengo que papai havia dado. Por absoluto azar, uma das mulheres espancadas resolveu prestar queixa. Para o espanto da molecada, aquela pessoa (agora podemos chamá-la assim) tinha um status mais elevado em seu ranking sócio-biológico das espécies. Era uma empregada doméstica! Daquelas do mesmo tipo que eles tinham em casa e que lavavam as suas cuequinhas. “Mil perdões! Foi mal! Pensamos que fosse uma prostituta!”

2017
A madrugada chegou fria e úmida numa metrópole brasileira. O governo já eliminara o mal que um dia havia gerado tanta revolta e indignação popular: o ponto de ônibus. Agora não existia mais abrigo para as criaturas economicamente rastejantes que emporcalhavam o cenário urbano. Cinco meninas bem maquiadas da classe média-chique da cidade, felizes por viverem num país em que funcionava a Justiça (naquela época o termo já havia adquirido outro sentido o que eliminou de vez a jocosidade e as aspas) saíram para a balada a se divertir e a exibir as novas Pradas e Louis Vuittons combinantes com os seus novos tons capilares de Loreal Paris. Uma delas, em meio ao barulho da boate, não conseguia falar com a amiga pelo celular, por isso foi à calçada tentar escutar melhor o seu MotoBlackBeltBerryExibition de oitava geração.

Por pura ironia do acaso, a moça parou sobre aquilo que um dia havia sido um ponto de ônibus. Por um azar só explicável pela conjunção astral daquela noite, passavam naquele exato momento cinco garotos recém-foragidos do Gueto Fluminense (ex-Baixada). É bom explicar que o governo, numa sábia decisão em prol do saneamento público, houve por bem murar todas as favelas e áreas periféricas consideradas de alto risco (leia-se: baixa renda). Só saíam delas os oficialmente credenciados, o que não era o caso dos garotos em questão. Pensando que se tratava de um brinco caro, os rapazes arrancaram num puxão o MotoBlackBeltBerryExibition da moça. Na verdade, o microaparelho era muito mais caro do que a maioria dos brincos caros, pois era cravejado de pedras preciosas e ainda fazia projeções holográficas com progressive scan. Todavia, os rapazes não estavam nem aí para o progressive scan da menina e também arrancaram a Prada Snobation de US$3.800,00, uma das poucas da cor fúcsia vivant que a garota possuía. Não contentes com a feira já garantida, os garotos sentiram um ímpeto não se sabe de onde de espancar a moça. Deixaram-na semimorta sobre aquele ex-ponto de ônibus.

Foram todos presos. Desta vez, não haveria perdão. Iriam pegar 15 anos de cana cada um numa penitenciária com grades, carcereiros e superlotação. Não eram meros meninos sapecas, mas marginais formados pela escola do crime (já que a escola pública não lhes abrira as portas). Os pobres ainda tentaram, em vão, lançar mão de um antigo atenuante: “Desculpa aí! Foi mal! Pensamos que era uma socialaiti!”

20 junho 2007

A Sala de Entrevistas Íntimas

Aconteceu numa dessas visitas de escolares ao Senado Federal brasileiro pelos idos de 2085:
- Aqui é a sala de entrevistas íntimas – explicava o guia sem apresentar um pingo de constrangimento. No início, sua face enrubescia nesse ponto da visita, todavia a convivência com os membros da casa o fez absorver e reproduzir com requintes de despudor os semblantes dos parlamentares.
- Para que serve a sala de entrevistas íntimas? Este era outro momento embaraçoso para o guia no começo de sua carreira. Em pouco tempo, porém, percebeu que pudor era um predicado não só indesejável naquele local como também era totalmente incompatível com qualquer função que pudesse lá ser exercida. Isso incluía as funções do presidente da casa às da mocinha responsável pelo cafezinho superfaturado lá degustado.
- Nesta sala – respondeu abrindo a porta - membros da imprensa e do Senado podem se relacionar trocando as mais íntimas informações sem riscos de serem interrompidos ou incomodados por uma CPI ou pela Comissão de Ética. Neste espaço, os membros são livres para um relacionamento franco, direto e aberto com os órgãos de imprensa. O guia adorava elaborar essas frases de duplo sentido. Era uma vingança em alto estilo à deputação em que se tornara o serviço parlamentar no Brasil (esta também era uma frase do guia).
- Por que uma cama? Mesa e cadeiras não seriam mais apropriadas? Perguntou outro aluno com uma falsa ingenuidade estampada na face. O guia já estava acostumado e preparado para perguntas muito mais capciosas do que essa.
- O mobiliário anterior era o de uma sala de reuniões padrão. Os parlamentares, porém, começaram a reclamar de terríveis dores nas costas. A gota d’água foi quando um senador de sobrepeso acabou arrebentando a mesa e caindo sobre a jornalista que o entrevistava. O microfone escapou incólume, mas a moça, coitada, teve outra sorte. Acredite, a imprensa fica furiosa quando quebram suas costelas. A repercussão negativa durou meses e fez a assembléia aprovar o novo mobiliário que também incluiu o banheiro com sauna e hidromassagem.
- Para quê o espelho no teto? Essa já foi uma provocação clara e grossa de outro pré-adolescente, mas que a experiência do guia já o fazia responder com elegância.
- O espelho? A imprensa tem a necessidade de olhar todos os ângulos da notícia. O parlamento, por sua vez, gosta de encarar quem lhe prende o rabo. Devolveu o guia, surpreso com a maestria da resposta recém-inventada e continuou o tour sem perder o rebolado: - É importante que vocês saibam que o Senado foi o pioneiro na adoção das salas de entrevistas íntimas. Esse modelo foi depois copiado pela Câmara dos Deputados, pelas assembléias estaduais e até por centenas de câmaras municipais por todo o país.
- Por que o Senado foi o primeiro? – agora o guia se espantou com a pergunta franca e sem malícias.
- Foi por causa de um problema do início deste século, quando um presidente do Senado se embaraçou ao ser descoberto pagando uma pensão a preço de ouro para uma filha que teve com a imprensa. Ele havia tirado dinheiro da própria propina, pedindo para seus lobistas fazerem o pagamento. A partir daí foi sendo elaborada uma legislação para o resguardo parlamentar que primeiro vetou o uso de verbas propinatórias no pagamento de pensões, depois foi promulgada a lei 523.724/2023, que instituiu a obrigatoriedade da vasectomia ou do ligamento de trompas parlamentar.
- Desde então, isto aqui virou uma putaria... – disparou o mais encapetado da turma.
O guia, inabalável, de modo algum perdeu a classe:
- Pelo o que vejo o senhor é bem fraco em História. A putaria, meu caro, sempre existiu neste país. Nós só eliminamos a hipocrisia!

15 junho 2007

Não use lobista, use camisinha.

Em apoio à campanha nacional de controle de natalidade, o Diário da Tribo lançou no Congresso Nacional o refrão: “Não use lobista, use camisinha”. A campanha vem em hora oportuna em que a maioria dos congressistas deixou a assessoria de lado e passou a cuidar pessoal e intimamente de suas relações com a imprensa. Claro que esse enorme empenho para conseguir penetrar na mídia vem dando frutos. O mais novo desses frutos é a filha do presidente do Senado. Apesar de não ser um veículo de sacanagem, o Diário da Tribo pretende explicitar as relações entre a imprensa e política. Melhor tirar as crianças da frente do monitor.

Encabeçando a teoria da conspiração de hoje, a Rede Globo. Mônica Veloso, mãe da filha de Renan Calheiros, é ex-funcionária da Globo. O que tem isso? Bem, se voltarmos sete aninhos no tempo, veremos que a mesma Globo era a empregadora da mãe de um filho de um presidente ainda mais ilustre, o da República. Miriam Dutra também estava no quadro da Globo quando pariu seu FHCzinho. Resta a pergunta, estariam as amantes de Lula e de Maluf (também pais bastardos) na folha de pagamento da Globo?

No vale-tudo pela informação, a Globo vai onde a notícia está (ou onde ela pode ser arrancada depois de uns dois drinques). Contratando jornalistas na fase mais fértil de suas carreiras, a emissora conseguiu informações quentes (e úmidas) além de obter amostras valiosas de sêmen para pesquisas de identificação do gene da corrupção. Ela só se esqueceu de colocar em seu manual de redação um veto ao recebimento de pensões através de lobistas. Um escândalo.

Até onde iria a Globo para conseguir informações? Enviaria Reinaldo Gianichinni para arrancar depoimentos (e suspiros) do deputado Clodovil Hernandes? A verdade é clara e escandalosa: a emissora não só omite as sacanagens de Brasília, como participa delas. E o pior: ao incentivar a reprodução descontrolada de políticos, a emissora promove a disseminação do gene da corrupção que acaba se perpetuando e enchendo o país de novos congressistas. O povo não é bobo, fora da cama, Rede Globo!

11 junho 2007

Eu tô na Língua!

É com a alma sacolejada na centrifugação anárquico-fantasiosa da literatura universal brasileira que vos comunico essa boa nova: estou na revista Língua Portuguesa deste mês!

Não. O careca da capa não sou eu, é o Rubem Alves. Eu participo com “O Vendedor de Palavras”. O conto ainda deve ser indicado ao Oscar de melhor roteiro e se tornar a primeira obra a render, por si só, um Nobel de Literatura (o primeiro do Brasil).

Com isso, não aceitarei uma mera indicação à Academia Brasileira de Letras, sererei (sic) seu presidente logo de cara. Meu primeiro decreto será substituir o tradicional chá pelo vanguardista chope gelado, bebida muito mais eficiente no auxílio da fluência vocabular.

Não poderia deixar de agradecer às presidentas do meu Comitê de Campanha pró-ABL, Janete Stela Domenica e Pseudônimas Associadas. Ela arriscou sua carreira no mundo das letras e a de seus mais de 90 pseudônimos, organizando a minha campanha “Vote ni mim; Paulo Coelho também não era bom, assim!”

Neste país de funcionalidades, serei mais um acadêmico funcional que sabe assinar o próprio nome para autografar os próprios best-sellers.

Bem, isso tudo foi para dizer: comprem a bendita revista! E deixem claro para a editora que não foi por causa do careca da capa! (nada pessoal, Rubem!)

01 junho 2007

Como escrever uma carta de amor

Nesta época do ano, às vésperas do Dia dos Namorados, renasce a mesmice, viceja a falta de originalidade e resplandece os chavões “minha vida sem você...”, “amo mais do que tudo...”, “I love you, baby...” Afinal, tirar flores diferentes do mesmo canteiro a cada ano não é mole. Se você trocou de namorado(a) há menos de um ano, pode lançar mão de um recurso eficiente e de extremo mau gosto: usar a mesma mensagem enviada ao “ex” no ano passado para o novo parceiro. Àqueles, porém, que quiserem dizer a mesma coisa com palavras completamente diferentes, dedico esta modesta receita de declaração de amor.

Nesta atividade estão excluídos recursos narco-etílico-inspiradores que, apesar de mostrar certa eficácia, podem causar dependência além de produzirem frases só inteligíveis para os que fizerem uso dos mesmos subterfúgios. Mantida, pois, a sobriedade, vamos ao trabalho.

Ingredientes

Os românticos vão me desculpar, mas só amor não basta para fazer uma carta de Dia dos Namorados. É preciso um algo a mais, um veículo para a sua mensagem, uma pipa para o vento da sua criatividade, uma carruagem para levar seus nobres sentimentos, um altar para imolar as palavras, ou seja, você vai precisar de papel e caneta. Porém, atenção: se sua letra for tão bonita quanto um ensaio sexy do Ronaldinho Gaúcho, não pense duas vezes, recorra à dupla computador e impressora.

Ter um destinatário ajuda. Entretanto, o fato de não ter namorado(a) não impede a elaboração de uma carta de amor. Todos saímos de fábrica com um modelo idealizado do amor. Não sabemos explicá-lo, mas até o mais distraído dos mortais conhece o “jeitão” dele. Vá até esse compartimento interior, desatarraxe o modelo e tire dele suas palavras de amor.

Preparo

Escreva-as mesmo se não houver ninguém para recebê-las agora. O texto, se guardado em local fresco e seco, terá validade indeterminada e poderá servir vários destinatários contanto que o namorado em exercício não desconfie estar recebendo palavras de segunda-mão.

Munido desse molde de amor, papel e caneta, tranque-se num lugar tranqüilo (até banheiro está valendo). Pense em tudo que lhe dá prazer: novela, futebol, cachaça, cinema, cama, sonhos, nuvem, poesia, dança, chá, praia, montanha, árvore, chocolate, chácara... Cheiro de mar, de terra molhada, de chuva no chão, de brinquedo novo, de brisa de lagoa, de perfume antigo, de banho fresco... Ouça pássaros, canções de amor, vento passando, uma voz bonita, o silêncio. Se nenhuma palavra lhe vier à cabeça, se os sonhos ficaram mais fortes e se deu uma vontade louca de sair beijando o mundo, você se encontrou.

Diga a esse seu recém-conhecido “eu” o quanto você o admira e que falta fazia a consciência da sua presença. Gente de mal de si mesma, ensimesma-se, abrocha-se e murcha. Regue seu jardim de paz e adube seu coração com liberdade para não sufocar depois o canteiro de outrem com o modelinho quadrado e reduzido que você tinha do amor.

Finalmente, você ficará espantado ao perceber, de repente, que criou as palavras mais extraordinárias e originais sobre o amor:
“EU AMO VOCÊ!”

25 maio 2007

O autógrafo

Esta foi feita sob encomenda para o Dia Internacional do Administrador de Pessoal. É isso mesmo. Esse cara tem um dia só pra ele, 03 de junho, e ainda por cima é internacional. Parabéns para o cara e pro pessoal que ele administra.

O Autógrafo

Como todos os dias depois do expediente, ele atravessou a rua e entrou na padaria da esquina. Enquanto esperava na fila da mortadela, um garoto de mais ou menos oito anos, com cara de bolacha, caderno e caneta na mão ficou encarando-o.
- O que foi? Disse incomodado.
- O que o senhor faz, hein? Perguntou o guri.
- Eu sou administrador de pessoal
- Ah! O senhor meio que... administra o pessoal, né?
- É.
- E o pessoal gosta de ser administrado pelo senhor?
- O que você quer, menino?
- Um autógrafo. É para a gincana lá da escola.
- Me dá aqui logo o seu caderno que eu autografo.
- Desculpe, mas a pessoa precisa ter alguma profissão importante. É regra da gincana.
- Tá dizendo que administração de pessoal não é importante?
- Eu nunca ouvi ninguém importante dizendo que é administrador de pessoal.
- Mas tem muito administrador de pessoal importante.
- Qual?
- Ora, você não conhece!
- Tá legal. Vou pegar o autógrafo do meu vizinho. Disse o garoto já virando de costas.
- Hei, volte aqui. O que esse cara faz?
- Ele é presidente da escola de samba do bairro.
- Eu faço a mesma coisa que ele, só que com muito mais gente.
- O senhor é sambista, é?
- Não, mas o trabalho é muito parecido. Eu sou o responsável por todos os integrantes. Contrato e mando embora todos, desde os da comissão de frente até o último carro alegórico.
- Só isso?
- Eu também organizo todos os ensaios, determino as fantasias e digo quando um baterista vira mestre de bateria.
- O senhor também sai com as passistas que nem o meu vizinho?
- Não! Eu até proíbo todo mundo de sair com as passistas no horário de trabalho.
- O senhor tem uma profissão muito esquisita.
- Qual é, garoto? Sem mim, ninguém trabalha em lugar nenhum! Dá aqui o seu caderno que eu autografo.
- Sei não...
- O que é isso? Eu sou muito importante lá na empresa. Todo mundo que quiser um aumento por lá tem que pedir a minha autorização. A minha assinatura vale ouro.
- Tá bom. – disse o menino abrindo o caderno ainda com cara de não conformado – Mas assine embaixo da folha porque em cima eu vou ter que fazer uma redação sobre a sua profissão.
- Tá legal, me dá o caderno logo...
Chegando em casa, o garoto jogou o caderno na mesa de jantar na frente do pai :
- Pronto, pai. Tá aqui a assinatura daquele cara que há cinco anos não te dá aumento. Agora eu quero a minha bicicleta nova!

14 maio 2007

Ainda vendendo palavras

Como elogio da própria boca é vitupério, uso a boca de outrem para me auto-elogiar.

O trecho abaixo é um "abre" para o Vendedor de Palavras, crônica minha publicada no espaço underground Lágrima Psicodélica. (http://lagrimapsicodelica.blogspot.com).

Aproveito o comentário para avisar que não publico crônicas em arquivos Power Point. Se alguém receber alguma mensagem com musiquinha melosa com paisagens ao fundo não foi obra minha. Uma campanha por um mundo menos piegas!

"O texto a seguir foi-me enviado por e-mail e há muito não me cai em mãos algo tão bom.

É ótimo quando nos enviam coisas assim e, melhor ainda, sem aquelas apresentações em pps com letras em profusão caindo em cascata à frente de uma paisagem e com Kenny G tocando ao fundo. São minutos intermináveis. Atualmente, basta o campo 'Assunto' apresentar títulos como 'Muito Lindo', 'Lindo Demais', 'Linda Mensagem' ou, pior, qualquer uma destas acompanhada de '(Com Som)' que mando pra lixeira sem dó. Mas não adianta, sempre aparece um outro contato que te envia novamente!

Aqui, nada mais temos que um texto inteligente, edificante, esclarecedor e exposto de maneira direta. E recheado de humor.

Um primor.

Sinceramente, não conheço o autor, Fábio Reynol, mas já vou pesquisar o cara.

Me vendeu suas palavras direitinho, o sacana."

09 maio 2007

Papa, excomungai nosso Congresso! Congresso, papai a grana de outro!


Pacato cidadão brasileiro,

Segure a sua carteira. Fique de olho na sua bolsa. Enquanto você estiver olhando o papa a abençoar o Brasil em sua cabine à prova de bênção na sacada do mosteiro, vai ter gente passando a mão no seu bolso. O Congresso Nacional, onde a deputação corre solta, está aproveitando os holofotes sobre o Sumo Pontíficie para sumir com parte do dinheiro público.

Vossas Insolências vão votar o aumento dos próprios salários. Claro que será em caráter de urgência porque nosso PIB explodiria se os congressistas continuassem a depender de propina para sobreviver. Esse despejo de grana vai inflacionar o mercado da corrupção e dificultar a vida de quem movimenta a economia deste país, os criminosos do colarinho branco.

Depois do aumento, não serão quaisquer R$100 mil que comprarão um deputadinho de segunda. O deputado e o senador com mais dinheiro legal (ainda que imoral) no bolso vão fazer disparar a cotação do congressista no mercado negro; o que tornará mais distante ao cidadão comum o sonho de obter o deputado próprio. É questão de tempo para ouvirmos o bicheiro no próximo grampo da Polícia Federal: “o preço da arroba do deputado gordo tá pela hora da morte!”

A movimentação para a votação prossegue sorrateira em Brasília, mas não poderia passar despercebida. A opinião pública estranhou ver os congressistas em plena atividade laboral. Que colocassem seus interesses acima dos da nação vá lá. Já estamos acostumados. Mas ao aparecerem para trabalhar (no puro sentido da palavra) deram muita bandeira e, é claro, levantaram inevitáveis suspeitas.

Justiça seja feita (no sentido figurado da palavra), a decisão de esconder o desavergonhado aumento debaixo da batina do papa foi motivada por boas intenções. O Congresso quis poupar os olhos da nação dessas cenas de sacanagem e de imoralidade, totalmente inapropriadas para um país decente.

Se for para aprontar atrás da moita, as TVs Congresso e Senado deveriam ir ao ar só depois das 23 horas. No horário nobre, poderiam transmitir a visita do papa, a final do Brasileirão e a cara-de-pau do presidente e de seu vice fingindo se preocuparem com o aborto.

Seu Papa, acudi-nos! Nossos representantes querem fazer conosco o que os padres de Boston fizeram com seus coroinhas!

02 maio 2007

Eu quero a minha mãe

A história de que Deus enviou seu filho ao mundo em uma missão de resgate suicida foi apenas uma versão divulgada à imprensa para disfarçar um pequeno conflito familiar no Céu. A verdade é que o menino desceu por sua conta e risco por um motivo muito mais humano do que divino: a inveja.

Numa tarde de verão, enquanto Deus Pai descansava em sua rede, Deus Menino escapuliu cá pra baixo pegando carona num raio de sol. Ao acordar, o Criador do universo encheu-se da mais divina das cóleras. "Onde está o garoto?", perguntou ao seu querubim-governanta ao não localizar seu rebento. "Creio que está na Terra, Senhor. Foi se esconder dentro do ventre de uma mulher." Demonstrando sua enorme sabedoria, o Onipotente resolveu não interferir. "Deixe-o lá. Quando voltar, nós conversaremos," vaticinou.

O garoto retornou 33 anos depois. O Pai o esperava acordado.

- Como foi o passeio? Perguntou o Velho.

- Maravilhoso! Respondeu enquanto despia as roupas mundanas e vestia as celestiais.

- Por que resolveste descer tão de repente, sem avisar? Comentou o Pai de braços cruzados, mas mantendo a calma como convém a um Deus compassivo.

- Me desculpa, Pai. Fiquei mordido de inveja de todos aqueles que têm alguém para chamar de mãe. Resolvi ter uma também – Confessou o rapaz demonstrando uma humildade digna de um Filho de Deus, enquanto estendia uma xícara de chocolate quente para apanhar uma nuvem de chantili.

- Mas por que numa casa de carpinteiro? Tu poderias ter nascido príncipe! – Comentou o Pai olhando para todo aquele chantili.

- Queria aprender teu ofício, Pai. – disse o Rapaz com uma crosta de chantili no bigode - Como tu, queria saber fazer aquele magnífico berço que os homens chamam de mãe.

- E o que aprendeste?

- Que as mães são muito mais do que isso. Depois de carregar seus filhos no ventre, elas cuidam deles eternamente. Quando pequenos, elas acordam à noite para tratar suas dores, os alimentam mesmo quando elas mesmas não tenham o que comer, participam de suas brincadeiras e lhes dão aconchego. Depois que crescem, os filhos recorrem à mãe sempre que precisam de um colo.

- Aprendeste tudo isso com essas mulheres?

- Mãe não é apenas uma mulher, é um lugar para o qual as crianças de zero a 50 anos retornam quando querem saber o que colocar numa picada de abelha ou simplesmente para comer novamente a torta da infância. Aquele que guarda a memória da mãe, mantém viva em si a criança que é, mesmo que tenha 90 anos de idade.

- Foi tua mãe que te ensinou tudo isso?

- Ela agüentou minhas estripulias, puxou minhas orelhas, me educou, apoiou meus sonhos e esteve ao meu lado até nos piores momentos.

- E então? Sabes agora como projetei as mães?

O Rapaz Deus lambeu o enorme bigode de chantili olhando para o Céu, ou seja, para os lados. Ficou por um momento pensativo saboreando o chantili com o restinho do chocolate e arriscou:

- Suponho que aquilo que os homens resumem na palavra "mamãe" seja uma altíssima concentração do teu infinito Amor encerrada numa alma feminina. É isso?

- Tu o dizes!

- Hei! Essa fala é minha!