15 setembro 2008

O banco que é a cara (do trânsito) de São Paulo

Não tenho nada contra os bancos. Na verdade, eles rendem excelentes crônicas. Principalmente quando não atendem a gente. Pena que eles não gostem tanto assim de mim. Não é nada pessoal. Creio que eles até me amem, porque são os que mais escrevem cartas pra mim. O que eles não suportam é a quantidade de dinheiro que eu deixo neles. Acho que isso os irrita tanto que os únicos "seres" que costumam me atender é a internet ou a voz eletrônica do telefone. Via de regra, não há uma vivalma para falar comigo.

Esta crônica é fresquinha. Nasceu hoje à tarde na fila do banco. Eu tinha muitos outros serviços para fazer, sim senhor. Graças à Nossa Caixa, eles acumularam para amanhã e vocês ganharam isto:

(Fábio Reynol - De uma agência da Nossa Caixa) - Acabo de completar meia hora de espera no banco Nossa Caixa. Estou na fila do atendimento tentando encerrar a minha conta corrente. Se eu não fizer isso agora, corro o risco de entrar para o rol de devedores que não pagaram tarifas as quais eles nem sonhavam que existiam. Este mês, por exemplo, perdi vinte reais a título de "recadastramento". Culpa minha. Esqueci de fechar a conta a tempo.

Por falar em tempo, agora já são 40 minutos de cadeira. O suficiente para eu digitar este texto no teclado minúsculo do celular. A demora seria por falta de atendentes? Não creio. No momento há apenas uma mesa ocupada com um cliente, porém, existem outros cinco funcionários para “atender”. A atendente que está à minha frente sentou em sua cadeira há 20 minutos, passou dez organizando uma papelada, dois atendendo o próximo cliente da fila, mais dois rabiscando papéis e até agora está falando ao telefone.

Ao lado dela trabalha um rapaz. Quando eu cheguei, ele estava com uma cliente, mas a mulher saíra de sua mesa há 20 minutos. Ele foi então à impressora, do lado oposto da agência, olhou a pilha de senhas e voltou para a sua mesa onde rabiscou três folhas de papel, passou mais cinco minutos digitando algo no computador e sacou o telefone. Juntou-se à sua colega e ficou ligando para clientes. Por sinal, a maioria dos destinatários não estava. “Posso ligar em outro horário?” “Será que ele pode me retornar?” “O senhor não sabe se ela se interessaria em...” foram algumas das conversas que eu consegui ouvir. Parece que os clientes que não se dirigiram ao banco não estavam querendo ser atendidos. Enquanto eu e mais três panacas que estavam precisando do serviço éramos magnificamente ignorados pelo setor.

Além desses, havia uma terceira atendente que conversava com uma senhora quando eu cheguei. Quando a cliente foi embora, a funcionária se perdeu no fundo da agência. Voltou há cinco minutos, sentou um pouquinho, rabiscou também alguns papéis (deve haver algum bônus oferecido pelo banco por isso) e, como num milagre, chamou a próxima senha, ainda bem longe da minha.

Porém, entre os funcionários do atendimento, a que mais me tem chamado a atenção é uma quarta mocinha que, durante esses 45 minutos em que eu estou aqui, está... atendendo! Tudo bem que ela está com o mesmo cliente durante todo esse tempo, mas mesmo assim é reconfortante ver um trabalhador fazendo o seu trabalho. É como ver um padeiro fazendo pão e a polícia prendendo bandidos. Coisas raras no Brasil. Se entre cada quatro brasileiros, um fizesse digna e honestamente o seu trabalho, estaríamos com a cadeira do Canadá no G8. Mas não posso dizer se a moça era realmente esforçada ou se o caso era difícil demais para ela dispensar o cliente e se juntar ao atendimento telefônico - modalidade muito mais tranqüila do que olhar para as caras feias dos clientes da agência.

Desde que cheguei só ouvi chamarem a primeira senha após 15 minutos de cadeira. O pior: cantaram o número “336”; o meu era o “444”! Se eles demorassem quinze minutos para chamar cada cliente eu seria atendido em duas horas! A coitada que esperava ao meu lado me acalmou: “a maioria já desistiu e foi embora!”, avisou-me aliviada. Ufa! Sorte minha que os bancos de hoje são somente para os heróis da resistência ou para os caras-de-pau que ficam digitando crônicas no celular.

Opa! Acabaram de chamar a minha senha, 50 minutos cravados!

“Eu gostaria de encerrar a minha conta, por favor.”

“Mas por que o senhor quer fazer uma coisa dessas???”

“Posso responder por escrito?”

6 comentários:

Valmir disse...

Fábio, não teve como. Tive que mandar seu texto para a ouvidoria da Nossa Caixa. Ele é muito bom.
Um abraço,
Valmir

Fábio Reynol disse...

Que bom que vc conseguiu, Valmir! Sabe, eu até tentei, mas acho que a ouvidoria estava com otite e não consegui enviar uma mensagem escrita.

Clarice disse...

Espero, sinceramente, que seu pedido de encerramento da conta tenha sido por escrito. E que você tenha ficado com uma cópia onde se possa ler: Recebido em...., por...
Abraços e melhor sorte no próximo banco e cadeira.

João Batista disse...

Tenho um casal de amigos que trabalha na Caixa,ela no Rio ele em Alagoas(se não me engano).
Foi até para eles que enviei teu ótimo texto"Admite".Mais uma vez com sua permissão (ou até sem pqe qdo vires isto ele já terá ido)envio para eles um dos cada vez melhores textos teus.
Obrigado Fábio.
JB

Eliezer disse...

Fábio,

Achei ótimo seu texto, principalmente sua calma para faze-lo no teclado do celular...... espero que tenha a sorte de conseguir o encerramento da conta....

Abraços

Anônimo disse...

Cara você é excepcional, digitar um texto deste nivel, em apenas 20 minutos e no teclado de um celular, parabéns.
Imagine todo esse potencial utilizado para escrever um livro, num teclado decente e com tempo livre, seria o maior Best seller já publicado.

Mais uma vez Parabéns