20 dezembro 2007

Documentário Especial "No Cafofo de Jesus"

Neste Natal, o Diário da Tribo vai passar para trás os maiores canais de documentários do mundo. Enviaremos uma expedição à cidade natal de Jesus para provar que, apesar de Deus não ser brasileiro, o filho dele é.

Um jornalista-muambeiro, um pipoqueiro, um eletricista-encanador, uma pedicure-esteticista e nenhum arqueólogo vão percorrer o caminho que Maria e José fizeram até o local exato do nascimento de Jesus.

O Diário da Tribo irá além das historinhas de James Cameron e não vai só mostrar o túmulo da família de Jesus, vai também conversar com ela e perguntar como ela vai.

Através de uma entrevista excluvisa com o Pai de Jesus, você vai conhecer os bastidores da missão que salvou o mundo e saber por que Deus Pai acreditou que o mundo ainda tinha salvação.

No Cafofo de Jesus - uma super-micro-produção que não teve a participação do Discovery Channel, nem o apoio técnico da National Geographic, com menores recursos que os do The History Channel e completamente ignorada pela BBC.

Não perca: na semana do Natal. Exclusivo para os leitores do Diário da Tribo!

14 dezembro 2007

03 dezembro 2007

No call center do Vaticano

- Obrigado por ligar para a Central de Atendimento da Igreja Católica Apostólica Eletrônica. Escolha um dos nossos sacramentos on line:
Para batizado, tecle três.
Para fazer a primeira comunhão, tecle quatro.
Para ser crismado, tecle cinco.
Casamento, tecle seis.
Confissão, tecle oito.
Unção dos enfermos, tecle sete.
Para denúncias de pedofilia e abusos de coroinhas, vá reclamar ao bispo. Se o pedófilo for o bispo, relaxe e reze.
Se você ainda não é nosso fiel, tecle dois e forneça o CPF dos padrinhos para ser batizado.
- "Plóin" (a fiel teclou oito).
- Estamos transferindo a ligação para um de nossos ministros-confessores. Por favor, aguarde (fundo musical de Festa no Apê do Senhor com Marcelo Rossi e Latino).
Dezoito segundos depois, um sotaque enrolado e horroroso aparece na linha:
- Confessionário eletrônico, Mohander Salah, bom-dia, em que posso absolvê-lo?
- Bom dia. Meu nome é Sara. Eu gostaria de confessar um pecado mortal.
- Acompanha três pecados veniais, senhora? Na promoção do dia acrescenta apenas dez centavos ao seu dízimo.
- Não, obrigada. Vou confessar só o mortal mesmo.
- Por favor, tecle o número do seu batistério.
Plim, plen, plóin, pleng, plung...
A voz eletrônica volta: "Recebendo os pecados de Sara Jeniffer Santos, coloque a mão sobre a sua iBible e fale seus pecados por ordem de gravidade."
- Eu traí o meu marido.
Mohander corre de volta à linha:
- Chifrou o marido, minha senhora? Ih! Esse pecado é muito pesado, a senhora tem conexão banda larga?
- Você não pode pôr um padre na linha e a gente já resolve isso?
- Não, senhora. O serviço de call center é terceirizado. Estamos atendendo na Índia, aqui somos todos hindus.
- Eu já estou perdendo a paciência!
- Devo estar lembrando que se a senhora for estar me ofendendo ou for estar xingando algum parente meu em primeiro grau, o seu pacote de pecados vai estar excedendo o limite on line e a senhora terá de estar levando suas iniqüidades pessoalmente ao confessionário.
- Eu vou ter que ir até à igreja para me confessar?!!
- Sim, senhora. O posto de atendimento mais próximo da senhora é o confession-drive-thru da Paróquia de Saint Steve Jobs ou também pode estar utilizando um dos terminais na Matriz de Nossa Senhora dos Bits.
- Assim eu não agüento, vou mudar de religião.
- Só um minuto que eu vou estar transferindo a sua ligação para o setor de excomunhão. A Santa Sé agradece a sua devoção!

Convertei-vos e crede na boa e nova tecnologia de absolvição pecaminosa.

30 novembro 2007

Portugal declina, Brasil segue em declínio

Ai que Portugal respondeu a carta de devolução da corte. Há 200 anos ele esqueceu nobres por aqui e seus descendentes se reproduziram como porquinhos-da-índia, (ops!, do Brasil!), viraram praga e hoje mamam gostoso o leite tipo A+ não-batizado de Brasília.

Na tentativa de tirar suas tetas da ordenhadeira, o Brasil tenta enviar esses bezerros mal nascidos para longe...
Portugal acaba de dizer que não os quer:

Carta de Recusa

Ao Ilmo Sr. Brasil
Oceano Atlântico esquina com o Mar do Caribe Leste de Tordesilhas
(Estados Unidos - fundos)
Assunto: Recusa de Devolução da Corte ref. carta de 14/11/07


Caríssimo Brasil,

Como vão as cousas contigo? Eu cá vou indo... nuns dias bate o sol, noutros não bate. Ao contrário daí, mais não bate do que bate. Confesso que quando recebi tua carta pensei que tratarias do enfadonho problema da reforma ortográfica que tu insistes em aplicar. Ao abrir o envelope, porém, preferi mil vezes que fosse o assunto das letras.

Com um lamento mil vezes maior que tua euforia, tenho de declinar de tua amável proposta de devolução da corte real. Devo lembrar-lhe de que Dom João voltou a Portugal em 6 de abril de 1821 deixando em seu lugar o príncipe regente. O que o miúdo aprontou a partir daí foi por sua conta e risco uma vez que, na primeira oportunidade que teve, ele começou a soltar gritos no Ipiranga dizendo que tu, oh Brasil, eras dono do próprio nariz.

Como bem vês, desde então estás emancipado e eu não tenho nada a ver com o que aí se passa e com os ignóbeis nobres que para aí se mudaram. Longe de mim passar por pai irresponsável que não assume a cria, mas um país de 500 aninhos já tem idade suficiente para assumir as próprias diabruras. Imagina tu se fosse eu assumir as artes de todos os meus filhos! Estaria cá a lidar com uma multidão de políticos angolanos, goanos, moçambicanos e timorenses!

Além do mais, tenho já muitos problemas criados pela dita Comunidade Européia, que nos encheu de imigrantes. E agora que estamos começando a andar para frente, não podemos servir de hotel para corruptos ultramarinos, função que tu cumpres como ninguém, oh meu filho! Perguntes para qualquer bandido renomado qual é o país dos seus sonhos e ele lhe responderá, “Brasil”!

Também podes continuar com Brasília. É uma bela cidade, mas não ornaria com a arquitetura daqui. Além disso, complicaria o tráfego marítimo de minha costa se eu a estacionasse no litoral. Por favor, não insistas, não quero tua corte em aviões com reverso travado nem em caravelas furadas mesmo que ambos fossem pilotados por terroristas suicidas.

Encerrado o caso, espero que possamos conversar de assuntos de real importância. O que achaste da última Copa do Mundo? Nosso Scolari é mesmo talentoso, não?

Um abraço de teu velho pai que só é lembrado nas horas difíceis,

Portugal

PS: Se a tua independência expirar em 2022, transfiro tua guarda aos Estados Unidos. Eles já cuidam tão bem de ti e depois não estou mais na idade de colonizar ninguém.

28 novembro 2007

Boliviano perde órgão sexual e fica mudo

Essa aconteceu no dia 18 na Bolívia e pertinho do Peru.

Furibunda com a traição, a boliviana Celita Mita arrancou de seu namorado o principal órgão sexual masculino, a língua. Ao flagrar o companheiro, Santos Alave, usando a sua habilidade em línguas em outra boca, Celita pediu uma bicotinha a qual aproveitou para morder e arrancar o órgão que já lhe dera tanto prazer.

Com a língua de fora, Alave a levou (a língua) a um pronto-socorro, porém os médicos não conseguiram reimplantar a importante peça anatômica. Agora, Alave vai ter que reaprender a falar e principalmente a fazer sexo utilizando outras partes do corpo, como o pênis, por exemplo. Há registros arqueológicos indicando que nossos bisavós faziam esse tipo de sexo bizarro.

Para quem não acredita, leia a notícia.

27 novembro 2007

Do baú da tribo: "A volta de Norman Bates"

O Diário da Tribo é mais velho do que você imagina, mas ainda mantém um corpinho de adolescente.

Esta é do fundo do nosso baú, da época em que nosso Diário era diário e o blog era uma home page.

O texto foi feito em cima de uma notícia verídica ocorrida no umbigo traseiro do mundo, os Estados Unidos, em abril de 2005.

Divirta-se com risadas cheirando à naftalina:

Psicose Urgente:
Americano mantém a mãe conservadona (em um freezer!)
FDA atesta que a velha estava imprópria para o consumo

Fábio Reynol
Direto do Motel Bates

Psicose, o mais meigo dos contos de fadas norte-americanos e eternizado nas telas do cinema, acaba de cruzar a fronteira do improvável com o bizarro. O garoto de 52 anos Philip Schuth confessou que manteve a mãe no freezer horizontal sem descongelamento automático de seu porão por quatro anos. Com isso, Schult manteve a velhinha e a sua pensão mensal conservadíssimas por todo esse tempo.


O crime, ocorrido na cidade de La Crosse (EUA), só veio à baila porque o normalíssimo Philip acordou na semana passada com a bundinha descoberta e resolveu praticar o esporte oficial estadunidense: atirar nos vizinhos. Ele armou o maior barraco e acabou tendo a casa cercada pela SWAT. Ao vasculhar a residência, a polícia só encontrou o kit básico da típica família americana: 30 quilos de explosivos caseiros e 15 armas de fogo.

Foi só depois do julgamento pelo tiro-ao-alvo na vizinhança que Philip abriu o jogo e a polícia, o freezer, encontrando a velhinha entre os hambúrgueres e os nuggets de frango. O equilibrado Philip, que jura que a mãe morreu de morte morrida, responderá por ocultação de cadáver e violação de direitos autorais da família de Hitchcock.

A terra de Norman Bates - Maior manicômio a céu aberto do mundo, os Estados Unidos é o único país do planeta onde um ladrão processa sua vítima e obtém ganho de causa na Justiça. A começar pelo presidente, todo estadunidense tem o direito de atirar em qualquer vizinho pertencente ao eixo do mal. É a democracia levada às últimas conseqüências e ultrapassando as raias da sanidade mental.

25 novembro 2007

Para ouvir com as orelhas da alma

Cantos e encontros de uns tempos pra cá, CD e DVD, do poeta catolense Chico César, é indicado para:

- Ausência aguda ou crônica de poesia.

- Materialismo arraigado com perda de noção transcedental e falta de sensibilidade na palma da alma.

- Carência de violinos flautados acompanhados de viola, violão, violoncelo, baixo e percuteria.

- Hipertensão espiritual acompanhada de falta de serenidade.


Posologia
De uma a quinze audições por dia incluindo os extras de Bethania e Ana Carolina (DVD).

Efeitos colaterais
Comportamento onírico, romantismo abrupto e sensações de pôr-do-sol ao meio-dia. Em alguns casos pode provocar insights, inspiração e poesias.

22 novembro 2007

O Fiscal - Capítulo IV e último

Termina aqui a curta e emocionante novela luso-brasileira sobre a língua que temos à boca.

Mas a Relação de Língua de Ana Pessoa e seus pseudônimos com o Diário da Tribo deve continuar enquanto Portugal estiver na península e o Brasil permanecer colônia.

Cá com vocês, o último, final e derradeiro capítulo vindo diretamente da terra de Caminha para a terra que não caminha.

Grande abraço a Ana e às Pessoas de Portugal.

Fabio Reynol
Cia. das Índias Orientais de Olhos Puxados e Peitos de Fora

O Fiscal
Capítulo IV - Ana Pessoa
Veja como tudo começou: Capítulo I

Depois lembrou-se do que o trouxera ali e, antes que a mulher falasse outra vez, apressou-se com a acusação: "A senhora fala mau português!". A autora gargalhou da cozinha, onde começou a preparar um chá. A porta entreaberta deixava ver o seu riso não contido e o homem corou de raiva. Respondeu misteriosa: "Isso não existe, senhor fiscal!" e o homem desesperou com aquela afronta. Saltou no sofá como um sapo: "Como assim, senhora?" e a mulher retorquiu calmamente: "Não há mau nem bom português, senhor fiscal. A língua é de quem a fala!".

O fiscal cortou a conversa com um gesto próprio de maestro perante a orquestra e disparou num compasso acelerado apontando o dedo indicador para o tecto: "A senhora é uma assassina de palavras: diz fato com um "c" ao meio, escreve ótimo com um "p" ao meio, são tiros directos no coração das palavras!". A mulher lançava a cabeça para trás para que as gargalhadas saíssem fluidas. Depois regressou à sala com um tabuleiro dançando nos braços ao som das chávenas que batiam delicadas nos pires.

Estavam agora sentados frente a frente, ela igual ao sol (cabelos eriçados como raios e o corpo avolumado, muito convexo) e ele igual a uma lua quase nova, minguando ainda (cabelo a escorrer pela testa e a coluna dobrada para a frente, um pouco côncavo).

Ela disse quase maternal que não era criminosa, que o português tinha vestígios de uma língua antiga e concluiu sem mais explicações: "Mas os polícias não têm de saber latim, não é assim?". Enquanto o senhor fiscal barafustava dizendo que não era polícia, a senhora espantava-se com a sua nova frase rimada. O homem escreveu no seu bloco: "problemas graves de isolamento, diz que português é latim". Depois fechou o caderno com uma violência teatral e impôs-se: "Minha senhora, eu sou o fiscal de palavras!".

A mulher olhou-o como se o visse pela primeira vez e o homem assustou-se com aquele olhar, saltou novamente no sofá e perguntou rápido: "Que foi?". A mulher abriu muito os olhos e depois os braços (a chávena muito equilibrada na mão direita, o pires pousado na esquerda). "Senhor fiscal, acabo de descobrir a sua palavra!" e o homem, um pouco mais curvado do que antes, repetiu várias vezes: "Como é que é?".

A autora sorveu ruidosa o seu chá e disse como quem revela um milagre: "Desumbigar. O senhor fiscal precisa de se desumbigar!". O homem estava confuso, repetiu mais uma vez a sua pergunta e a mulher esclareceu cheia de poesia: "O senhor fiscal precisa de sair de dentro, de se abrir ao mundo, de destorcer o cordão umbilical, de subir do ventre até aos olhos, de saltar para fora".

Fez-se silêncio à excepção do chá que continuava a estalar nos lábios da senhora. A palavra estranha ao ouvido regressava ao tímpano do homem, ganhava volume na boca, tinha um sabor qualquer a infância. O fiscal constatou: "Essa palavra não existe!", mas a mulher encolheu os ombros despreocupada. "Agora que eu a disse, passa a existir!".

O homem saltou outra vez: estava indignado. Abanou a cabeça e o bloco de notas no ar e, enquanto abria o caderno, dizia ameaçador: "A senhora pode ir presa por isto!". Ordenou muito formal: "Nome completo e profissão" e a mulher obedeceu prontamente: "Maria Apalavrada, inventora de palavras.".

A mão do homem congelou no bloco de notas. O fiscal ironizou ainda: "Ai sim? E que palavras inventa a senhora?". "Todas as que não existem e deviam ser inventadas!", respondeu criminosa a autora. O verbo desumbigar reapareceu no ouvido do homem e ele desejou secretamente que a palavra existisse. A mulher achou que tinha ganho um cliente por isso discursou: "Invento e vendo palavras. É, de facto, um óptimo negócio porque as pessoas precisam de se exprimir e não têm palavras. Você precisava do verbo desumbigar para organizar o seu pensamento. "Desumbigar" é o seu verbo, senhor fiscal! Há uma palavra para cada um de nós!".

Quase sem querer o homem riu e ela riu com ele.

Só então o homem tirou o chapéu e a mulher brincou dizendo: "Um negócio de tirar o chapéu, não é, senhor fiscal?" e ele riu com aquela frase tão bem dita. De repente, o senhor endireitou as costas, era agora mais homem do que fiscal, e quis saber: "E a sua palavra, qual é?".

A mulher sorriu o seu melhor sorriso. "Eu também tenho um verbo: inversar! Preciso do inverso das palavras, de inventar versos, de inverter o pensamento. Toda eu sou versos invertidos!".O homem recostou-se no sofá, já não saltava, as palavras ganhavam subitamente um outro sabor.

E foi assim que naquela tarde, o senhor fiscal e a inventora de palavras viram o inverso de um no outro e gostaram do que viram. Ele desumbigou e ela inversou, entre os dois havia um fio invisível de sílabas que os ligava.

No final da noite já não se sabia quem era quem, a língua de um era a língua do outro.

FIM

21 novembro 2007

A Divindade Judiciária

Queridos leitores do Diário da Tribo,

Uma juíza de uma vara do trabalho da Paraíba fez constar em uma de suas sentenças que o juiz está situado “em um lugar especial que o converte em um ser absoluto e incomparavelmente superior a qualquer outro ser material”.

Como não me atrevo a contrariar divindades, afirmo que a meritíssima tem razão tão absoluta quanto o poder nela imbuído. E envio abaixo a minha primeira sentença que será proferida assim que eu me tornar um magistrado. (Por que eu não teria também o direito de galgar os degraus do Olimpo?)

Ei-la e que seja afixada em todos os Fóruns, Tribunais e Clínicas Psiquiátricas de todo o planeta:

A Divindade Judiciária
Fábio Reynol
http://diariodatribo.blogspot.com

Um juiz jamais é acometido de frieira, furúnculo, lombriga, bicho geográfico nem outras enfermidades parasitárias que assolam a ralé dos seres mortais que está bem abaixo de sua condição de magistrado. Tampouco encravam as unhas de seus dedões judiciários.

Um juiz jamais exala mau odor por mais que negligencie o uso de desodorantes, sabonetes e todo o arsenal cosmético necessário, senão obrigatório, àqueles a quem ele julga. Pela mesma linha, um magistrado jamais apresenta chulé, uma vez que seus meritíssimos pés estão bem acima das cabeças da patuléia que depende de seus pareceres.

Todo juiz é descendente dos elfos de Valfenda, possui uma aura bioluminescente e uma linguagem própria. Tão própria que muitas vezes é legado ao próprio juiz, e somente a ele, entender o seu inefável significado. A prosopopéia do magistrado soa como sinos musicais enquanto sua boca exala o aroma de alfazema e lírios europeus. O DNA élfico também produz sedosidade em seus cabelos tornando os xampus supérfluos e a caspa inexistente no couro capilar da magistratura.

O juiz não habita construções de alvenaria, mas o Olimpo, de onde enxerga por entre as nuvens a iniqüidade humana partilhando com seus pares o chá da sabedoria e os biscoitinhos do discernimento. Qual Moisés portando as tábuas da lei, o magistrado é o portador oficial da vontade divina sobre a terra a qual lhe deve adoração, louvor e submissão sob pena de ter a ira divina (e judiciária!) sobre a própria cabeça.

Juízes não conhecem a morte, prerrogativa reservada aos mortais. Ao se cansarem desta vida, simplesmente agendam uma transferência que é feita por querubins (anjos estão aquém de sua glória) para o tribunal celestial onde, em vez de serem julgados como as demais almas, formam uma supremíssima corte a qual lado a lado com Deus (quando não um pouco acima dele) julgam os que não tiveram o dom de nascer magistrados.

Quanto à sentença? Bem, os querelantes que se entendam porque esta Divindade Judiciária não pode desperdiçar seu preciosíssimo tempo com questiúnculas que atormentam os reles mortais.


Juiz Recém-empossado por Zeus

14 novembro 2007

Carta de Devolução da Corte

Terceiro Mundo, novembro de 2007.

Ao
Exmo. Sr.
Portugal

Península Ibérica, nº2
Europa

Assunto: Devolução da Corte Portuguesa


Querido Portugal,


Com imensa euforia, comunico-lhe que no próximo 2008 completar-se-ão duzentos anos que sua corte se afixou cá em nossas terras, completando assim o prazo máximo de hospedagem neste hotel tropical. Por esse motivo, no fim deste ano, lhe enviaremos de volta seus descendentes diretos (não os de sangue, mas os sanguessugas) que hoje atendem em Brasília.

Qual craca em popa de caravela, esse pessoal há dois séculos se apega aos palácios e até hoje teima em tentar nos governar, justamente a nós, um povo avesso às leis, injustiçado pela própria Justiça e desgovernado por natureza. Nada pessoal contra os governantes, juízes e legisladores, é que somos altamente alérgicos a eles. Toda vez que uma nova trupe sobe as rampas do Planalto e do Congresso, milhares de nós acabam morrendo em epidemias de fome, de violência e até de falta de esgoto.

Além do mais, Napoleão hoje atende em Washington, converteu-se ao Criacionismo de Guerras e perscruta cada quartinho de empregada deste planeta. Portanto, não há razões para que a "nobreza" continue a se esconder por aqui. Entendemos também que, a esta altura da história, a corte não pode mais ser considerada portuguesa; no entanto, a observar suas atitudes, tampouco pode ser chamada de brasileira. Assim sendo, despacharemos a comitiva real-republicana tão logo encontremos uma frota de aviões com o reversor travado grande o suficiente para abrigar a superprodução de corruptos made in Brazil.

Aqui vão alguns conselhos de quem está acostumado a lidar com esses nobres: não os alimente, não os remunere e o mais importante: não os deixe criar leis, eles vão tentar inventar impostos provisórios de duração eterna. Se tiverem acesso ao poder, vão sugar a sua energia a ponto de deixá-lo no escuro e ainda vão dizer na maior cara-de-pau que foram pegos de surpresa.

À guisa de uma compensação, ainda que irrisória, deixaremos com V.Sa. a capital toda. Sentiremos falta da catedral de Niemeyer, da ponte JK e do Paranoá. Eles serão, no entanto, um preço pequeno a se pagar pela paz e pela justiça. Não se preocupe com os gastos. Brasília é patrimônio da humanidade, portanto divida a conta da manutenção com todos os humanos.

Tampouco se preocupe conosco. O brasileiro só deu certo com o desgoverno, isso lá antes dos idos de 1500. Dentro em breve retornarei à mata com meu povo, de onde nunca deveríamos ter saído, e tiraremos as roupas, as quais nunca deveríamos ter vestido. Voltaremos, enfim, a ser felizes nos preocupando apenas com a caça, a pesca e os banhos de cachoeira. Ficaremos mais tranqüilos sabendo que mesmo o Xingu de fora estaremos com o nosso curió mais protegido.

Certo de sua compreensão paterna, despeço-me com filial abraço.

Do sempre seu,

Brasil
ECOrruptos Resort

Obs. importante: Castre o chefe do Senado ou o mantenha longe das jornalistas!
Assine a carta, postando um comentário:

12 novembro 2007

O fiscal - Capítulo III

Como grafou o grande profeta do caos, Millôr Fernandes:

"Devemos ser gratos aos portugueses. Se não fossem eles estaríamos até hoje falando tupi-guarani, uma língua que não entendemos."

Então obrigado Roberto Leal, Sérgio Godinho, Fernando e Ana Pessoa. Se não fossem vocês esta tribo não seria a mesma. Não teríamos a tanga para cobrir as vergonhas e a sociedade urbana para acobertar os sem-vergonhas.

Também não viveríamos essa fascinante aventura ultramarina Belgavista-Diário da Tribo (com escala em Congonhas), pela qual escorregamos na língua de nossos avós com a pena de Ana Pessoa, representando o português do reino (reynol) e Fábio Reynol, mais brasileiro que a impunidade, escrevendo com o linguajar subversivo da colônia.

Pessoana,

Escreverei com a tua língua e tu, com a minha.
Se um nos entendermos, reescreveremos Caminha.

Superabraço para ti!


O Fiscal
Capítulo III - Fábio Reynol
Leia também o Capítulo I e o Capítulo II


A mulher virou-se e foi à cozinha. Enfim o homem encontrara alguém que reconhecia e até respeitava o seu honroso cargo auto-proclamado de fiscal da língua portuguesa. Isso o fez lembrar de sua última diligência, na qual interpelou um padre pelo uso inadequado da palavra "mesmo" como pronome relativo. Sem delongas, ele entrara na sacristia logo após a missa e fora direto ao sacerdote:

- Desculpe-me, reverendo, mas um erro grosseiro foi cometido hoje em sua homilia.

- A que se refere? Virou-se o padre com ares de preocupação.

- Lembra-se de quando se referiu ao cálice do altar?

- Sim. O que o senhor tem contra o mesmo?

- É exatamente isso, "o mesmo" não é adequado. Na verdade, eu o considero um erro horroroso de estilo. Eu devo pedir que o senhor não use mais "o mesmo".

- Quer dizer que eu não posso usar o mesmo porque o senhor não gosta do estilo dele?

- É mais do que isso, reverendo. Ele faz parecer que o senhor é pouco versado na língua, compreende?

- O senhor está dizendo que o cálice que eu utilizo na liturgia faz as pessoas julgarem a minha educação, por isso eu não devo mais usar o mesmo?

- O senhor não entendeu, padre. Não é o cálice a questão, ele pode continuar, só peço que o senhor não use mais "o mesmo".

- Que cálice devo utilizar então?

O fiscal perdeu a paciência e as estribeiras e berrou com o funcionário de Deus:

- O MESMO, PADRE!

E o padre desceu das tamancas eclesiais:

- Ponha-se para fora daqui seu maluco de... As demais palavras do padre lhe escaparam da memória, talvez por serem totalmente inadequadas a um vocabulário sacerdotal. Enquanto o homem de Deus disparava ofensas contra o fiscal, o homem dos vocábulos foi arrastado para fora da igreja pelos braços do sacristão. Desde então ele decidiu apresentar suas credenciais de fiscal antes de interpelar qualquer outro infrator. Isso deveria lhe garantir um mínimo de respeito.

O tratamento que agora recebia da mulher era prova disso. Nunca havia sido recebido com tanta deferência desde que se aventurara nessa perigosa profissão. O espanto pela educada recepção e o flashback da humilhação na sacristia o fizeram distrair a ponto de só agora perceber o local onde estava. A sala parecia ter saído de um página de Eça de Queiroz. Uma cristaleira do século XIX com licoreiras coloridas parecia ser a peça mais nova do recinto. Em cima do móvel um galo de louça preto de crista vermelha fitava uma coleção de mais de vinte pratos ornamentais na parede oposta. Pesadas cortinas de veludo mantinham o sol quase completamente do lado de fora.

Sem tirar o traseiro do assento, o fiscal esticou o pescoço para os lados aproveintando-se da ausência momentânea da proprietária. Observou o ponto que mais lhe chamou a atenção e o anotou imediatamente em seu bloco: "Ausência de livros de qualquer espécie. Sem evidências de consultas freqüêntes à gramática, nem mesmo um mini-dicionário à vista. Possível biblioteca no andar superior (?)". Deparou-se de repente com uma foto antiga na parede de uma casa de campo em meio a um vinhedo, imaginou que lugar seria aquele e meteu novamente o bloco no bolso. (continua)


06 novembro 2007

A mosca-de-banheiro

Meu amigo Joe Jotha Santos F.C., jornalista profissional e filósofo de responsa, suscitou uma pérola merecedora de inserção nos anais da filosofia contemporânea. Em seu blog Coluna Livre, Jotha Santos se pergunta por que as moscas de banheiro só são encontradas em seu habitat azulejado do W.C. A preocupação do pensador nos remete a duas outras reflexões ainda mais profundas:

1 – Onde viviam essas mosquinhas antes da existência dos banheiros? e


2 – Qual a qualidade do banho de Jotha Santos se ele usa o tempo de seu asseio em elucubrações entomológicas?

Vamos nos ater à primeira questão, uma vez que a segunda afeta exclusivamente às pessoas de seu convívio, do qual só participo virtualmente por falta de tempo e agora por uma questão aromática.

O importante é que Jotha (lê-se “jota”) suscitou-me esse ensaio que segue abaixo o qual ultrapassa toda e qualquer cultura inútil por ser também irrelevante, inverídico e completamente desnecessário, todos os atributos fundamentais para figurar neste Diário da Tribo.

Então lá vai:

A mosca-de-banheiro
Fábio Reynol

A mosca-de-banheiro é uma alucinação coletiva que habita os sanitários domésticos, daí ela pertencer à família dos psicodídeos (ou dídeos que se reproduzem na psiqué humana). O cloro remanescente da limpeza dos azulejos evapora com a água quente do banho e é absorvido pelas fossas nasais do banhista que começa a ter alucinações dípteras psicodídeas.

Antes da invenção do banheiro, a mosca-de-banheiro era chamada de mosca-sem-teto e não atormentava ninguém, uma vez que os banhos (quando havia) eram de cachoeira e a céu aberto, sem paredes nem teto onde elas pudessem se apoiar e sem cloro que os banhistas pudessem cheirar. Elas depositavam seus ovos em assentamentos clandestinos e eram constantemente desalojadas por ordens judiciais de reintegração de posse.

No Brasil, encontramos três tipos principais de alucinação entomológica sanitária: Psychoda alternata, Psychoda cinerea e Psychoda satchelli. O melhor tratamento para essa patologia é parar de lavar o banheiro. Em pouco tempo as alucinações desaparecerão e em seu lugar surgirão moscas reais que botarão seus ovos nos restos de cabelo e matéria orgânica morta depositada nos ralos e encanamentos de esgoto.

Um bom psiquiatra também pode ajudar. Mesmo que ele não livre o seu banheiro das mosquinhas, ele pode auxiliá-lo a se concentrar no banho em vez de ficar pensando sobre a origem da fauna sanitária ou gastar o próprio tempo a escrever despautérios sobre pensamentos alheios absurdos da hora do banho e ainda publicá-los em um blog.

Importante: O Diário da Tribo não se responsabiliza por reações adversas de professores de Biologia que porventura encontrem o texto acima num trabalho escolar.

30 outubro 2007

O fiscal - Capítulo II

Dando continuidade à nossa relação lingüística d'além mar, segue o segundo capítulo de O fiscal, a novela publicada simultaneamente nos blogs Diário da Tribo e Belgavista, e escrita por um brasileiro e uma portuguesa. Ana Pessoa segue a história escrevendo do Velho Mundo, eu cá vou representando os lusófonos terceiromundistas e assim continuamos a ponte aquática Tejo-Tietê ou Tietejo.

Aos amigos que conhecem minhas brincadeiras deixo claro que Ana Pessoa existe mesmo, em pessoa e em Bruxelas. Ela não é meu pseudônimo, meu alter ego, minha segunda personalidade, amiguinha imaginária e tampouco uma personagem de minha criação.

Do Fernando fingidor ela é descendente, não daquele que esculhambou o Brasil, mas do que fingia a dor que o poeta sente.

E estamos cá nós
a reescrever a quatro mãos
a língua de Camões.

Manda bala, Ana...

O fiscal
Capítulo II - Ana Pessoa

A palavra autoria explodiu no ar como um fogo de artifício. A mulher gostava que a tratassem por autora e por isso respondeu prontamente "Sim, sou eu a autora!".

O fiscal não a ouvira muito bem porque entretanto a mulher resolvera desembaraçar-se da porta e havia trincos e chaves tilintando contra a madeira. As mãos da mulher eram cheias como balões mas certeiras no toque: em dois segundos estava escancarada a porta e a autora surgia inteira.

Dizia: "Aqui é tudo legal, senhor fiscal!" oferecendo o perfil ao homem para que ele entrasse. E enquanto ela se admirava com a sua frase rimada, ele estava ocupado em interpretar a autora (ainda nem tinha tirado o chapéu nem guardado o seu título de fiscal). Era difícil entender aquela mulher e o homem precipitou-se para o seu bloco de notas, onde escreveu: "má dicção". A mulher repetia "Tudo legal!" e o som do último compasso vinha de um lugar secreto – entre a ponta da língua e a dentição. Era fechado, misterioso, irreproduzível.

Já estavam na sala. A mulher não perdia tempo por o tempo ser dinheiro. Tinha chegado ao Brasil havia anos, morava na Rua Atlântica desde então e logo aprendera a lidar com os brasileiros: não podia falar-se muito com eles, eram demasiado conversadores para o que queriam dizer e a senhora aprendera a ouvir apenas as palavras essenciais dos seus discursos. Naquele caso: "fiscal".

Repetiu muito alto as duas frases do pedaço de papel ("De facto, um óptimo negócio. Compre.") e era como se o som viesse do bolso do homem, pois ele saltou assustado com as palavras da mulher. Não só na escrita mas também na fala, a senhora dizia "facto" com o fonema oclusivo "k" a meio. Estava realmente estupefacto mas, de repente, esqueceu-se deste fenómeno, pois a mulher dissera ainda: "Sente-se, senhor fiscal!". O homem derreteu devagar até ao sofá, vaidoso com o seu novo título de senhor à frente de fiscal, ensenhorando-se no seu lugar. O homem gostava da forma como a mulher dizia "senhor", a vogal vinha fechada e a última nota vibrava discreta, nem a mais nem a menos, um "r" verdadeiramente elegante, impossível, inimaginável.(continua no Capítulo III)

29 outubro 2007

A Greve das Vacas

Era um país em que se mamava muito. Mamavam nas ruas, nas calçadas, nas repartições públicas, nas privadas, nas praças, nos bancos, nos cofres dos bancos, nas câmaras e nas antecâmaras, nos palácios dos governos e até nos tribunais. Era senador mamando em jornalista que mamava em empreiteiro que mamava em cofre público que mamava no povo. Cada um contava com as suas respectivas tetas que, para o cumprimento do ato de mamar, não eram as próprias, logicamente, mas as de outrem ou “outrens” dependendo da capacidade sugadora do mamífero.

Um senador, por exemplo, podia contar com um rebanho leiteiro gigantesco, enquanto um vereador de cidade pequena sugava no máximo umas oitocentas tetas por dia. Para ser prefeito, governador ou presidente o sujeito tinha que ser lactodependente a ponto de sugar quantidades exorbitantes em uma única mamada. As tetas mais magras eram a dos pobres os quais eram mais sugados do que sugavam. Por mais secas que fossem, as tetas dessa parcela da população sempre eram cada vez mais espremidas, graças às leis que vereadores, deputados e senadores inventavam para extrair sempre mais uma gota daqueles que não mamavam nada.

Tudo escorria muito bem para os grandes mamadores até que um empresário espertinho passou dos limites. Para garantir uma mamata maior, ele adicionou soro e soda cáustica ao seu produto que, por coincidência, era o leite. Não aquele leite que os poderosos sugavam, mas o líquido branco que saía do úbere das vacas e que de vez em quando parava na mesa dos pobres. Foi aí que o latão entornou. Inconformada com a adulteração do fruto de suas glândulas, a parte mais consciente e lúcida da sociedade resolveu reagir. As vacas se uniram e fecharam o fluxo de suas mamárias. Nenhuma gota seria outra vez ordenhada naquelas tetas.

Os mais afetados pela greve foram, é claro, os pobres. Os grandes mamadores contavam com tetas demais para sentir falta de um líquido branco calcificado. Enquanto isso, na outra ponta da cadeia alimentar, sem leite para beber e tendo que dar o seu ao governo, os pobres começaram a contar somente com a própria teimosia para sobreviver. Foi quando um desfavorecido (o governo adorava usar essa palavra para designar um pobre*) foi despertado pelo movimento bovino-feminista. Pela primeira vez em décadas, ele pensou e pensou firme: “e se seguíssemos o exemplo das vacas?”.

A idéia se espalhou mais rápido do que droga na Zona Sul, em poucos dias o povo sem acesso aos lactários de fato, fecharam as torneirinhas dos lactários de direito. Estavam decididos a não deixar mais ninguém meter a mão em seus bolsos. Que arranjassem outros mamilos! E começaram a pedir satisfação dos poderosos. Queriam saber por que as votações que beneficiavam certas figuras tinham prioridade na câmara; por que não existia cadeia para quem mamava muito, por que o empreiteiro pagava a conta do senador que pagava a da jornalista que colaborava com o banqueiro... por que..., por que..., por que... ????? As elites começaram a ver seu leite azedando e as antes gordas tetas da nação secando e secando. Chegou o dia em que a mamata finalmente acabou.

Sem acesso aos meios ilícitos, os corruptos perderam o interesse em ocupar cargos públicos e, pela primeira vez, o povo pôde ver governantes cumprirem o que haviam prometido em campanha. Os pobres ficavam cada vez menos pobres e os super-ricos tornaram-se apenas ricos. Podia-se dizer que aquela era uma nação feliz, com exceção da alta incidência de osteoporose, uma vez que as vacas nunca mais cederam o seu leite aos humanos daquele lugar.

Esta é uma obra de ficção. Qualquer semelhança com a vida real será mera coincidência, mas a maior esperança deste escritor continua depositada nas vacas.

* Por outro lado, ninguém chamava um rico de “favorecido”. Nota do pensador.

25 outubro 2007

Uma Relação de Língua

É com o coração enxaguado nas águas do Tejo e aromatizado com as essências da bacia do Tietê (onde os paulistanos tomam seus banhos tchecos durante as enxurradas de março), que vos anuncio a maior parceria Brasil-Portugal desde que Felipão colocou Portugal acima do Brasil na última Copa e que Zeca Baleiro se juntou a Sérgio Godinho para ficar cantando as velhas que ainda dão no coro.

Menos famoso que Baleiro, o sudestino que vos escreve, Fábio Reynol, uniu letras com a luso-portuguesa menos rica que Godinho, Ana Pessoa, escritora-blogueira e tradutora nas horas vagas. Nasceu assim o projeto Brasil-Portugal, Uma Relação de Língua.

Radicada na Bélgica, Pessoana alimenta fantasias e o blog Belgavista. O nosso primeiro trabalho em conjunto é o folhetim "O fiscal", no qual intercalamos as autorias dos capítulos para assim acabar de vez com o mito de que Portugal e Brasil falam a mesma língua.

E aí? Vamos ficar com a língua de fora ou com a língua de dentro? Com vocês, o primeiro capítulo de "O fiscal":

O fiscal
Capítulo I – Fábio Reynol


Reticente e incomodado foi o fiscal de palavras ter com a portuguesa que usava mal, segundo ele, o português. Muito mais incomodado do que reticente, a bem da verdade, a ponto de deixar as reticências ao largo para atravessar a Rua Atlântica a fim de tirar satisfações com a mulher. A pedra no sapato do homem era um pedaço de papel de pão no qual a mulher havia escrito: “De facto, um óptimo negócio. Compre.”

Eis a razão da hesitação do fiscal: ele não era o destinatário do bilhete. Esse fato o transformava num intrometido e o colocava na obrigação de explicar como o papel que não lhe dizia respeito havia parado em suas mãos. Seu dever de defender a boa língua portuguesa, no entanto, falava mais alto do que a vergonha de assumir a própria indiscrição.

Outro empecilho dessa empreitada era a sua bizarra profissão que, pelo simples fato de ela não ser reconhecida por ninguém com exceção dele próprio, era motivo de chacota e desdém por aqueles que eram interpelados por um dito fiscal de palavras. Mas quanto a isso, ele já estava acostumado e não seria esse o impedimento para cobrar o zelo esperado de uma mulher nascida no nobre berço da língua.

Abra-se um parêntese necessário. A nomeação de um fiscal de palavras se dá, naturalmente, a alguém que conheça a língua, mas principalmente a uma pessoa que acredite que terá autoridade sobre as demais para cobrar e ver cumprir o bom uso da palavra. Em outras palavras, um louco. Fechemos o parêntese.

Lá foi ele, chapéu na cabeça e prova do crime no bolso. Esta obtida de maneira vil e ilegal, como já frisado. Atravessou a Atlântica sem molhar os pés e bateu na porta da casa sentindo ares de uma autoridade policial. A porta entreabriu-se.
- O que deseja? Respondeu a própria suspeita colocando a cara na fresta.

- Minha senhora, eu sou fiscal de palavras da língua portuguesa. Disse ele mostrando uma folha amarela e surrada, a mesma que tinha sido carimbada em cartório e que havia sido rejeitada pela secretaria da Academia Brasileira de Letras e rechaçada pela Embaixada Portuguesa em Brasília, ambas as instituições se recusaram a dar mais combustível a tal insanidade.

- O que deseja? Repetiu a mulher sem se dar ao trabalho de ler o conteúdo da folha.


- Este bilhete é de sua autoria? (continua no Capítulo II)


22 outubro 2007

Perdeu o Rolex? Vá reclamar na mídia!

Tudo começou num cruzamento do Itaim-Fonfom, na capital paulista. Os dois sócios do ramo de comércio de produtos ilegais trafegavam felizes e quase tranqüilos quando foram instigados pelo brilho no pulso de um passageiro de um veículo topo de linha. Como bons businessmen, avaliaram na hora o produto e agarraram a mão do sujeito e a oportunidade do negócio. Encostaram a moto assim que o carro do cliente parou no semáforo:

- Por gentileza – chamaram o dono do relógio – o senhor não estaria interessado em trocar esse seu magnífico e caro relógio de pulso pela sua vida?

- Como não, meus senhores. Ei-lô aqui – respondeu o rapaz, quase satisfeito por trocar um Rolex de dez mil reais pelo direito de continuar vivendo e apresentando programas aos sábados à tarde.

Essa seria mais uma dentre milhares de transações criminosas na maior cidade do Brasil, não fosse o fato de o dono do humilde relógio ser um apresentador de TV famoso casado com uma também famosa apresentadora e pai de quase dois famosinhos ainda não-apresentadores. O caso foi parar nos jornais porque o apresentador disse que o relógio fora presente da apresentadora, a quem ele chamava de “meu bem” (a apresentadora, não o relógio, apesar de este ser inegavelmente um bem).

O bem subtraído (e não aquele com que se casou) virou moeda forte no mercado clandestino do pó, ajudando a movimentar o maior PIB municipal do Brasil. O apresentador voltou ao camarim onde recebeu cartas solidárias de todo o país e a promessa de que ganharia outro relógio idêntico, pois não seria por meros dez mil que ele deixaria de ver as horas. Mas àquela altura o angu já estava quente, a comoção popular foi às ruas exigir uma resposta das autoridades.

Vários outros proprietários de Rolex roubados se juntaram para fundar uma associação. A eles se uniram o Clube dos Abonados com Cartiers Furtados e a Fundação das Vítimas de Montblancs Desaparecidas. Não demorou muito para o movimento agregar os Ex-proprietários de Calotas de Jaguars Roubadas e os integrantes da DNDD (Donos de Nikes Deixados Descalços). A alta sociedade logo percebeu que se não fizesse algo, ela continuaria sendo assaltada tal qual a patuléia. Uma inaceitável falta de respeito com aqueles que consomem todo o caviar Beluga e todas as garrafas de Chateau Le Pin importados pelo país.

Pressionado, o governo decidiu agir. Assim nasceu a primeira Delegacia Especializada em Operações contra Roubo de Abonados (DEORABO). Ao contrário das demais delegacias que não têm dinheiro nem para o cafezinho, na DEORABO a vítima presta depoimento tomando um pró-seco italiano e petiscando um legítimo foigrois francês. Na DEORABO os milionários são atendidos por outros endinheirados, os únicos que sabem o que é perder um Rolex de dez mil reais, uma caneta Montblanc de 50 mil dólares ou um par de chinelos de 80 mil. Perdeu sua LandRover de 400 mil e não quer prestar queixa entre os que perderam um fusquinha? DEORABO. Ficou sem a tela de plasma de 55 polegadas do iate? DEORABO. Um catamarã fechou o seu jetsky em Angra? DEORABO. Graças a essa maravilhosa iniciativa, o cidadão comum brasileiro e assaltado pelo bandido e pelo governo pode aconselhar o milionário que choraminga na mídia a perda do Rolex querido: “DEORABO”!

27 setembro 2007

Santa Ignorância, sai deste mundo que te pertence!

Santa Ignorância nasceu na África, foi companheira íntima do primeiro homem nascido sapiens. Ela não descendeu de símios, mas do próprio sopro humano. Por isso, seus devotos acreditam que suas árvores genealógicas nada têm a ver com a dos macacos, talvez porque os chimpanzés tenham demonstrado muito mais sabedoria ao não descer das árvores.

Ignorância teve uma vida tranqüila, pois nunca deixou de encontrar quem a acolhesse. Com o tempo, o número de seus devotos aumentou exponencialmente. Parideira que só ela, sua descendência faz a explosão demográfica chinesa parecer um ridículo traque. Viajou o mundo levando paz aos conformados, colo aos preguiçosos, tibieza aos indiferentes e alento aos cansados de pensar. Fundou instituições no Oriente Médio, Ásia, África e Europa. Arregimentou povos da América e da Oceania. Agrupou seus fiéis sob as mais diversas bandeiras. Conhecida pelos gregos como Santa Apedeuta, ela quase chegou a ser banida da Grécia Antiga, até Sócrates admitir que quanto mais ele aprendia, mais Ignorância aparecia.

Santa Apedeuta é, de longe, a entidade mais adorada em todo o planeta. Ela continua viva e atuante até hoje e sendo cultuada até por religiões que não cultuam santos e por ateus que nem acreditam na existência da santa. Sua orgulhosa humildade a faz ser idolatrada por chefes de estado e é extremamente influente sobre os povos que neles votam. É autora dos maiores milagres da história, é capaz de ressuscitar preconceitos mortos há séculos; promover genocídios em nome do amor e guerras em nome da paz. Santa Ignorância tem muito de Satanás.

17 setembro 2007

Mamodecobra Parte V - Administração de Pizzaria

Mamodecobra Parte V
Capítulo 8.492
Administração de Pizzaria

No Brasil, corrupto que se preze deve ser também um ótimo pizzaiolo. Para o estrangeiro que lê este indeclinável manual cabe uma explicação. De modo diferente à Itália, a pizza por aqui é parte indissolúvel da cultura corruptiva brasileira. Nestas terras, todos (absolutamente todos) os desfechos processuais contra corruptos de alta classe ($$$) contam com a cheirosa iguaria italiana para encobrir o mau cheiro remanescente. Ações judiciais, processos de cassação e até multas de trânsito contra os poderosos ($$$) terminam numa gaveta e os indiciados numa pizzaria.


Um leitor do mundo civilizado, que só conhece o Brasil pelos jornais, chegou a me perguntar se a palavra “pizza” teria aqui o significado de “cadeia”. Ele queria entender a expressão “terminar em pizza”. Como explicar para ele que essa pizza significa pura e simplesmente pizza? Acostumado à física newtoniana, o nobre estrangeiro pensa de acordo com uma fórmula estrita: corrupção + julgamento = punição. A sofisticada criatividade brasileira (uma evolução da barbárie) gerou uma nova fórmula que não tem o compromisso com a lógica:


corrupção + julgamento + $$$ = calabresa com borda recheada de catupiry


Como essa impressionante fórmula, incompreensível aos cérebros mais privilegiados do mundo que bebe água sem germes, foi desenvolvida é uma longa história. O brasileiro não só acrescentou uma parcela ($$$) à equação original e inverteu seu resultado como também criou um ambiente propício para que ela fosse verdadeira em qualquer situação de temperatura e pressão, seja qual for o tamanho ou o peso do primeiro fator, a corrupção. Finalmente, a ciência encontrou um elemento mais imutável do que a velocidade da luz proposta pela teoria da relatividade de Einstein, a pizza brasileira!


É bom explicar que parte desses desfechos impressionantes vem do fato de os corruptos serem julgados por seus pares. Vale a máxima: ladrão que perdoa ladrão tem mais futuro na corrupção. Uma intrincada e emaranhada rede, bem maior que a internet, liga o rabo de cada corrupto a centenas de rabos de outros colegas. Quando um corrupto entra na berlinda, uma mensagem é enviada aos rabos dos corruptos a ele conectados informando que ele deve sair da reta. Para isso, o jeito mais seguro é tirar da mesma reta o rabo do parceiro em perigo por mais preso que ele possa estar.


Esse avançado sistema de defesa protege o maior patrimônio ecológico-artístico-científico-cultural do Brasil, a corrupção. A espécie que a pratica, por sua vez, degrada todo o patrimônio ético-financeiro-moral do país e destrói o ecossistema que permite que o chamemos de nação, uma vez que seu povo não goza desses direitos e os que gozam, não podem ser chamados de brasileiros.

29 agosto 2007

Admite

Admite
Fábio Reynol

Lamento admitir, mas o Nelson Rodrigues tem razão, o amor não morre. Nunca. Por mais que o enterremos, o afoguemos, tentemos esfaqueá-lo, esquartejá-lo ou incinerá-lo, ao contrário do frágil ódio, o amor perdura. O amor que foi continua sendo. Mesmo se a decepção, a traição, o rancor, o ciúme, o egoísmo ou a morte tenham destruído um relacionamento, o amor que um dia aconteceu é para sempre.

Podes sentir ciúme dos “ex”s de tua amada. Aqueles que passaram pela vida dela carregam um todo dessa mulher que tu nunca vais ter. Do mesmo modo, as ex-namoradas de teu marido das quais “roubaste” o cargo de esposa, roubaram de ti românticos capítulos da juventude desse homem que jamais terás. Mesmo que hoje ele as odeie, as despreze e nunca mais as veja, um todo de cada uma delas está presente nele. Para sempre.

Quem pode roubar de nós o primeiro beijo roubado? O primeiro é o primeiro. Se tu não foste o autor do primeiro, tu serás, no máximo, o primeiro de língua, o primeiro na padaria, o primeiro com aparelho nos dentes... O primeiro mesmo, meu caro, já foi e dela ninguém tira. Admite.

Admite o quão verdadeiros foram as confissões babacas ao pé-do-ouvido, as primeiras flores recebidas, as fugas e desculpas para ver o “grande amor da minha vida”, o beijo flagrado naquela tarde embaixo da mangueira e que só foi o que foi porque teve um beijo, um abelhudo e uma mangueira que jamais voltarão. Não precisam. São eternos. Ainda que o amado tenha sumido, o abelhudo, morrido e a mangueira, sido cortada.

Admite que teu amado de hoje foi aprimorado pelas outras mulheres que ele amou. Que as flores que recebes hoje são filhas do primeiro buquê que ele comprou cujo perfume ainda está nele. Admite que a paciência dele com tua TPM foi conquistada por outra menina que não contou com a mesma complacência. Que as delicadezas que ele hoje tem contigo não vieram das conversas com os amigos, mas de aulas práticas ministradas por almas do sexo feminino.

Admite que tua mulher não virou mulher em teus braços e que nem por isso é menos encantadora do que aquela primeira que te fez homem. Aceite o fato de que o olhar carinhoso que hoje te derrete foi ensaiado em outros rapazes e que os beijos que agora recebes são jóias lapidadas por outras bocas. Graças a elas, não recebeste um diamante bruto.

Admite que teu amado não é teu. Há nele algo tão “ele” que jamais terás, feito de partes que outras tiveram, feito de um todo que também levarás.

Admite que tua amada não é tua. Há nela um Bruno, um Carlos, um Luís tão dela quanto ela mesma. Amores verdadeiramente amados que nunca morrerão e que a fazem ser quem é, que fazem todos ser quem são.

Admitir isso é o começo do amor.

21 agosto 2007

A última grande sessão

Para quem nasceu na pequena Carnópolis na década de 1940, sem televisão, nem motel, o Cine Xavante era a opção para as descobertas do amor. Não dava para fazer tudo, mas chegava bem perto. O escuro da sessão proporcionava o único ambiente lícito privado o bastante para arrancar o primeiro beijo, arriscar as primeiras saliências e se aventurar nas voluptuosas reentrâncias. A depravação no Xavante deixava o filme num quarto plano, o que deve ter feito os Lumière sapatear na cripta ao ver o que fizeram de sua invenção.

A sem-vergonhice se desenrolava em silêncio. Isto é, na medida do possível porque ninguém controla um chilipi ao recolher a baba pós-beijo, ou o discreto nheque-nheque das poltronas de madeira ou até um intrigante funhé-funhé que provocava a mente da audiência desacompanhada que só imaginava os mais insólitos lugares de onde poderia ter partido aquele som.

Qualquer movimento mais ousado tinha de esperar uma cena de ação bem barulhenta. Por essa razão, os faroestes com seus tiroteios e os filmes de guerra repletos de explosões eram os preferidos dos assanhados. Foi numa dessas tentativas de encobrir um nhóinque-reinque seguido de um fichóinque que a coisa emporcalhou de vez e condenou a maior diversão da cidade.

Era uma daquelas matinês de sábado no Xavante. A sala estava lotada. Ademar e Berenice conseguiram o melhor lugar, na última fileira. Na frente deles, ficaram Ernesto e Dinorah, logo atrás dos namoradinhos Adelaide e Jair que estavam em frente às nucas de Lindaura e Rodolfo, que por sua vez sentaram no primeiro corredor antes do próximo bloco de poltronas. À frente destes só a cadeira de jatobá de Horário, o lanterninha.

Ademar foi o culpado. Mal as luzes se apagaram, ele já estava se atarracando à cintura de Berenice. A coisa foi esquentando, os outros casais, se aconchegando e a sala inteira se dividiu entre os que se lambuzavam e os que se divertiam assistindo a pouca-vergonha alheia. O filme só servia para mudar as nuances de luz sobre o verdadeiro espetáculo. Com a testosterona nas alturas, o descarado Ademar só esperou a primeira explosão na tela para aplicar o seu nhóinque-reinque-fichóinque sobre a pobre (mas não menos sem-vergonha) Berenice. O óinque foi perfeito; o reinque, razoável, mas na hora do fichóinque... Ademar – que era halterofilista – agarrou a poltrona de Berenice pelo encosto com tanta força que desengatou a fila de cadeiras. A fileira toda desceu a rampa até o primeiro corredor.

Com o barulho do filme, poucos notaram o incidente. Ademar beijou o ar e logo depois o carpete mofado do Xavante. Berenice escorregou para os braços de Ernesto que percebeu a mudança de mulher logo depois que lavou a orelha de Berê com sua língua e notou um brinco bem maior que o da namorada. Adelaide sabia que Jair não possuía dotes avantajados, mas de repente notou que havia muito menos por lá desde a última vez que ela havia visitado o local. O que ela apalpava era a intimidade de Dinorah, que por sua vez nunca tinha experimentado sensação tão boa.

O coitado do Jair foi a decepção de Lindaura. Acostumada com o volumoso Rodolfo, a moça viu aquela massa desaparecer de uma hora para outra. Pensou que o namorado havia perdido o interesse por ela. Dupla injustiça. Jair estava no auge de seu interesse e Rodolfo, sempre distraído, entregou-se de corpo e alma sem perceber que sua cadeira havia deslizado um degrau abaixo.

Horácio foi quem recebeu os cuidados de Rodolfo. O jovem fogoso agarrou a mão do lanterninha pensando ser a de sua amada e a trouxe ao alto da coxa. Levou uma lanternada em seu parque de diversões. Seu berro foi ouvido da praça. Seo Olavo, o projetista que dormia durante as sessões, acordou assustado e acendeu as luzes.

O constrangimento atingiu até os que não haviam participado da dança das cadeiras. Só se ouviam burburinhos, e zíperes subindo, camisas fechando e gente tentando se recompor. A descompostura no Xavante virou o assunto da cidade. O cinema viu a bilheteria minguar com as famílias proibindo os jovens de freqüentar aquele antro da sétima arte. Em pouco tempo fechou as portas. Os casais se recuperaram do incidente, com exceção de Dinorah que fez questão de terminar com Ernesto. A moça começou a se aproximar de Adelaide que passou a evitá-la a todo custo.

Nunca mais Carnópolis teve outra sala de cinema. Depois de mais de trinta anos, os novos jovens da cidade viajavam para a metrópole vizinha para apreciar a telona. Mas iam só assistir a um filme. Juventude esquisita.

13 agosto 2007

Mamodecobra Parte IV - O Sacrossanto Direito à Impunidade

Mamodecobra Parte IV
Capítulo 7.761
O Sacrossanto Direito à Impunidade


“Cadeia”, eis um vocábulo completamente desconhecido no métier corruptivo brasileiro. Afinal a Justiça do Brasil é uma máquina extremamente eficiente e automática, é colocar notas graúdas de um lado e obter a impunidade do outro, mas calma lá: não estamos falando de subornos ou propinas. Neste país, quem segue a cartilha processual e contrata bons advogados só conhecerá uma prisão: a de ventre.

Essa magnífica estrutura judiciária em prol da impunidade ainda é respaldada pela Constituição Federal. Na Carta Magna, o Legítimo Direito à Impunidade é chamado de Legítimo Direito de Defesa. A ampla defesa permite muito mais do que a pura e simples defesa. Aliada a uma infra-estrutura forense caduca e desinformatizada, ela gera o ambiente perfeito para a instalação e a proliferação da impunidade crônica.

Dinheiro, o melhor amigo do corrupto

Claro que isso tudo está condicionado àquele bom e velho amigo do corrupto, o dinheiro. A qualidade da defesa é proporcional à quantia investida em advogados. Não sai barato. É bom lembrar que é preciso manter advogados em todas as comarcas em que o processo for sendo arrastado com a barriga. Além disso, honorários advocatícios também incluem as quantias envolvidas nos processos. Em bom português: se você ganhou milhões superfaturando viadutos não pense que escapará da cadeia sem abrir mão de boa parte dessa fortuna.

Se quiser um investimento seguro anote: não invista em ilhas, apartamentos suntuosos ou carros caros, aplique seu suado dinheirinho desviado em advogados caros. Até hoje não vimos nenhum corrupto de alta estirpe morando no xilindró ou debaixo das pontes que ele superfaturou. A mais austera pena que um rico já levou por aqui foi uma “prisão” domiciliar na própria mansão, essa atrocidade foi considerada uma falha no sistema.

O bom advogado conhece todas as ferramentas para protelar um processo até que os crimes prescrevam. Além dos tradicionais recursos, é possível ajuizar mais de uma centena de petições que vão desde documentos ligados ao processo até uma requisição para saber se a anágua da juíza ornava com a cor dos olhos do procurador geral; só para ganhar um tempinho até a petição ser indeferida.

Porém os louros não vão só para o advogado. O Judiciário contribui bastante para que a penitenciária seja um pesadelo impossível para o corrupto brasileiro. Há fóruns em que ninguém sabe onde enfiaram o processo, quando o encontram já está na época do recesso dos tribunais e o corrupto ganhou alguns meses sem ter que pagar nem um centavo a mais por isso.

Privilegie o seu foro

Outro ótimo negócio para o bom corrupto é tornar-se uma autoridade com foro privilegiado. Isso significa que você só poderá ser julgado pelo Supremo Tribunal Federal ou pelo Superior Tribunal de Justiça, dependendo da bocada que você conseguiu. Encabeçando as instâncias finais de todos os processos do país, o STF e o STJ não conseguem acelerar as ações movidas contra as autoridades, pelo contrário, a tartaruga processual engata a marcha reduzida. Virar juiz, vereador, deputado, prefeito, governador, presidente, etc. não é só uma maneira de você ampliar o seu poderio corruptivo é também um caminho tranqüilo para escapar da punição. É o céu para a ladroagem VIP.

Você não tem foro privilegiado? Não se preocupe: roube com quem o tem! Se o processo do VIP for para Brasília, o seu poderá ir junto. Há como alegar que instâncias diferentes não devem julgar os mesmos fatos. Desse modo, se você for co-réu num processo que envolve também uma autoridade de foro privilegiado, há muita chance de você ter sua ação promovida para a capital, onde será mantida em geladeira federal até estragar.

Punição, como acabar com esse mito

Vamos à nossa tradicional seção de exemplos:
Você construiu um Fórum e usou nessa obra dinheiro suficiente para fazer cinco Taj Mahals com domos de ouro maciço. Selecione entre os réus quem têm foro privilegiado. Peça o foro especial e então entupa o STJ e o STF com mais de 70 petições dos mais variados temas. Você ficará impressionado com o número de crimes que irá caducar antes mesmo de você ser intimado a depor.

Consegue foro privilegiado e serão salvos tu e tua família

Enquanto era prefeito você construiu um túnel sob um rio que custou mais do que três Eurotúneis sob o Canal da Mancha. Se você ainda tiver popularidade, lance sua candidatura a vereador, deputado estadual ou até mesmo federal. Ao ganhar a eleição, seu processo será transferido para Brasília. Até que o STF decida se família unida escapa unida ou separada, sua mulher e seu filho envolvidos na lavagem do dinheiro estarão tranqüilos e o processo contra eles, suspenso.

E lembre-se: corrupto idoso tem atendimento preferencial. Acima de 70 anos, os crimes prescrevem na metade do tempo. Nada mais respeitoso a quem tanto contribuiu para a instauração da mais rica de nossas culturas: a da corrupção.

07 agosto 2007

Gafanhoto vai ser papai

Fiz esta fábula sob encomenda para o Dia dos Pais para a Scritta . Ficou bonitinha, postei aqui.

Gafanhoto vai ser papai
Fábio Reynol

No mundo dos insetos, o besouro é o guru e o gafanhoto, um embrutecido soldado. Explicado isso, entenderás o seguinte diálogo travado entre indivíduos dessas duas espécies num jardim qualquer da existência:
- Nunca pensaste em ser pai, gafanhoto? – indagou maliciosamente o besouro.
- Fui pai de mais de sessenta filhotes. Isso é mais filho do que muitas espécies sonhariam em ter, senhor besouro. Inclusive a tua.
A alfinetada não tirou o inseto gorducho do sério. Pelo contrário, iniciou a fogueira da passionalidade que o besouro pretendia alimentar com mais provocações:
- Pois digo, ainda que tivesses mais de cem filhos não saberias nem de perto o que é ser pai.
O gafanhoto perdeu as estribeiras:
- Quantos filhos tiveste, besouro? Cinco? Sete? Não consegues povoar nem o próprio ninho e estás querendo me dar lições de como ter filhos?
A discussão estava ficando do jeito que o besouro queria:
- Tu sabes melhor do que ninguém como ter filhos. Estou dizendo que tu não sabes o que é ser pai. Tive somente seis rebentos em toda a minha vida. Preferi a qualidade à quantidade. Sei onde estão esses seis, o que fazem, conheço meus netos. Garanto que não sabes nem se os teus filhos estão vivos. Mais da metade já deve ter sido engolida ainda na infância por algum pardal.
- Pois eu posso cuidar de uma prole melhor do que tu, com certeza. E meus filhos...
- Falar é fácil... - interrompeu o besouro a reação furibunda do gafanhoto.
- O que queres dizer? Estás falando isso porque estou velho para ser pai novamente e não poderei provar isso, não é?
O besouro deu um sorriso. O gafanhoto chegou exatamente no ponto pelo qual o besouro estava esperando.
- Estás confundindo a paternidade com tuas funções reprodutivas. Se te consideras um bom pai, sempre há como prová-lo.
- Se estás pensando que vou atrás de meus filhos só para ganhar uma aposta, pode ir tirando tuas mandíbulas do orvalho...
- Não é preciso ir muito longe. Há uma criança sem pai nem mãe neste jardim que só precisa de um gafanhoto que dela cuide.
Quando o gafanhoto percebeu, já tinha caído na armadilha do besouro. Se rejeitasse a missão, estaria provada a sua incompetência como pai. O jeito era conformar-se:
- Tu és muito esperto, besouro. Onde está o gafanhotinho?
- Não há gafanhotinho algum. A criança é uma joaninha que teve os pais devorados por um canário do reino.
- Uma joaninha?! – berrou o gafanhoto – Estás de brincadeira? Não vou ser pai de bicho de outra espécie.
- Exatamente. É nesse ponto em que a paternidade mora: proteger e ensinar uma criança seja ela gafanhoto, joaninha ou centopéia. E, como eu pensava, você não nasceu para isso...
O besouro sabia cutucar o ponto frágil do gafanhoto, o brio. A contragosto e extremamente irritado, o velho gafanhoto aceitou a missão e o besouro conseguiu se livrar da pentelha joaninha que não o deixava em paz.
A joaninha deu um trabalho estafante ao gafanhoto. Ela não sabia voar, nadar, pular nem se defender como os gafanhotos. Para mantê-la viva, o gafanhoto tinha de estar ao lado dela durante o dia inteiro e às vezes lutar com predadores bem maiores do que ele. Para livrar a filha dos perigos futuros, o gafanhoto ainda lhe ensinou tudo o que sabia sobre a vida. Todo o esforço tinha de ser feito para que a joaninha chegasse à idade adulta.
Quando esse dia chegou. O gafanhoto foi orgulhoso apresentar ao besouro a filhota já crescida para se despedir do grupo. Assim que ela bateu as asinhas vermelhas e desapareceu entre as folhas, o gafanhoto sentiu uma tristeza profunda.
- Acho que agora tu és pai – declarou o sábio besouro.
O gafanhoto nem respondeu. Com a deliciosa sensação do dever cumprido, morreu poucos dias depois porque, como já foi dito, ele estava velho. No enterro não apareceu nenhum de seus filhos gafanhotos.
A joaninha? Bem, ela também não compareceu porque tinha um chá-de-panela de uma amiga libélula... Mas o fato é que ela foi mais filha do que os outros e ponto final.

02 agosto 2007

O Chilique dos Chiques


Milionários do Brasil uni-vos e esperneai! Tirai vossos Rolexes e Cartierzes das gavetas, arrancai dos closets vossos paletós Armanis, com coletes Hugos Bosses e calças Pierres Cardins. Fardai-vos com vossas estolas de vison e taillers Christian Diors e borrifai nas faces vossos Cocos Chanéis calçando Guccis e Giannis Versaces. Façai uma carreata de Ferraris, Maseratis, BMWs, Jaguares e Mercedes Benzes e estacionai vossos SUVs em frente ao Palácio do Planalto e no espelho d´água do Congresso! Pois o tempo é de protesto!

A corrupção acaba de bater às portas dos condomínios de alto padrão. Que corrupção é essa, meu Deus, que não respeita mais nem os ricos? Foi-se o tempo em que havia consideração pelos que tinham muito. Agora a Infraero está tirando os jatinhos da rota e o buzanfã da reta. Não se viaja mais com classe – nem na econômica! E até as balas, que costumavam se perder só na Zona Norte, estão passeando pelo Leblon. Inadmissível! Bordai com Swarovskis em vossas t-shirts Yves Saint Lauren, o vosso garrafal e chiquérrimo: CANSEI!

Mostrai ao povo que não são só os excluídos que sabem gritar, mas bon vivants, playboys e socialites também podem dar os seus berrinhos histéricos. Provai que muito mais elegante que o Grito dos Excluídos é o Chilique dos Endinheirados. Num país em que se ganha no grito, todos acabam surdos. Com exceção da Justiça, que no Brasil é cega, surda e muda de nascença.

26 julho 2007

Mamodecobra - Parte III - Sabendo roubar...

Mamodecobra - Parte III
Capítulo 5.842
Sabendo roubar, não vai faltar

Caro corrupto júnior, não se engane: nem todo o dinheiro sujo vem de fontes ilegais. Boa parte dele é 100% legitimada por decretos e leis (mesmo porque são muitos os corruptos que se dedicam a fazer decretos e leis). Conhecer as fontes de enriquecimento, sejam elas legais ou clandestinas, é importante para manter-se fiel a um dos valores mais importantes da profissão: o valor financeiro. Guarde esta máxima: a um corrupto pode faltar tudo, vergonha, caráter, sinceridade..., mas jamais poderá faltar a razão de sua existência: o dinheiro.

Aos corruptos de outras áreas cabe aqui uma breve introdução ao processo legislativo orçamentário. Todos os anos, parlamentares dos três níveis (municipal, estadual e federal) votam o orçamento do ano subseqüente a ser gasto pelo Executivo. O chamado “orçamento aprovado” é um pedaço de papel no qual estão escritos as quantias que seriam teoricamente gastas em cada setor. Na prática, os números do papel não têm nada a ver com o que é realmente destinado aos setores lá discriminados.

Entra aqui a figura do “contingenciamento”. Em miúdos, é como se o governo dissesse: “tá escrito aí R$10 milhões, mas eu só dou cinco!”. O dinheiro que o governo não segurou é direcionado ao seu respectivo destino não sem antes passar por várias mãozinhas, cada uma cobrando o seu "pedágio". Com um pouco de sorte, o setor receberá alguns trocados e ainda sobrará algum para tapar as goteiras. O destino da diferença contingenciada pouco importa: pode ser para fazer superávit primário ou mesmo um superávit do salário, o importante é administrar a merda que vai ser quando o setor desfalcado entrar em crise por causa da falta do dinheiro previsto.

Atenção, corrupto iniciante! Nessa hora nem pense em cobrar as verbas que não foram investidas nos últimos anos e muito menos retomar as fortunas pagas em propinas e otras cositas porcas. Anote esta outra máxima do mundo corrupto: “Verbas desviadas não voltam aos cofres.”

E faça-se (um imposto para) a luz!
O que fazer, então? Simples: crie um novo imposto ou uma nova tarifa. Vamos supor que o governo não tenha investido o que deveria no setor de energia elétrica, por exemplo. Com o passar dos anos, a tendência é o país voltar à idade média usando a luz de velas e tomando banho de cachoeira. Para que as indústrias não retornem à Era do vapor, faça uma cara de quem foi pego de surpresa (vide Capítulo 1.357 sobre Dissimulação) e anuncie uma nova tarifa na conta de energia elétrica. Dê ao novo tributo um apelido simpático: “seguro apagão” e deixe claro que é um investimento para o “progresso do país”.

Vamos a outro caso hipotético. Suponhamos que durante anos o setor aéreo sofreu contingenciamentos. Quando os aviões começarem a cair, não perca o rebolado. A primeira reação deve ser negar, imediata e peremptoriamente, o contingenciamento. Anuncie uma reforma geral no setor patrocinada, é claro, por um "módico" aumento das tarifas que resultará no encarecimento das passagens aéreas. O cidadão terá o prazer cívico de pagar por elas “em nome da segurança em primeiro lugar” (não se esqueça de incluir este argumento).

Criar impostos não é difícil para quem sabe fazê-lo. Só é preciso ter todo o cuidado para não gerar animosidades na opinião pública. Há métodos muito eficazes e praticamente indolores de arrancar dinheiro da população sem causar rebuliço. Siga os seguintes passos:

1º - Invente uma finalidade nobre para o imposto.
Por exemplo, jure de pés juntos em frente às câmeras: “será 100% destinado à Saúde”.

2º- Amenize os efeitos da facada com mentirinhas.
Diga, por exemplo, que o imposto será provisório e troque a palavra feia “imposto” pelo eufemismo “contribuição”.

3º - Mantenha esse discurso durante o primeiro mês de vigência e não se preocupe com os efeitos futuros.
A memória coletiva brasileira retroage, quando muito, ao período de uma semana. Quando o povo se der conta de que o imposto tem uma transitoriedade eterna, ninguém mais se lembrará de onde, e nem como, ele surgiu.

4º - Jamais saia de casa sem a boa e velha cara-de-pau
Se algum espertinho tentar ressuscitar a história, alegue amnésia. Negue o que você já disse, escreveu ou pensou e, no conforto de seu palacete, dê uma banana para essa gentalha. Mas, pelo amor de deus, feche as cortinas! Há muitos corruptos pés-de-chinelo fazendo na vida pública, o que deveriam fazer na privada. É esse amadorismo que está denegrindo a imagem da profissão!

(não perca os próximos capítulos do Mamodecobra)

24 julho 2007

Denúncia anônima

Exmo.Sr. JC,

Protocolei esta denúncia diretamente com teu secretário especial. Por razões de segurança, preferi não deixar nas mãos do porteiro, Simão Pedro. O caso é grave e envolve aquele episódio na praia com o papo de “edificação”, “ovelhas”, “pedra”... tás lembrado? Pois é. Eu fiquei na minha até agora, fingindo que estava tudo bem, mas a coisa está ficando pra lá de preta. Se tu não tomares uma providência logo, vais ter que descer de novo para botar ordem na casa.

O fato é que no começo deste mês o Joseph, que substituiu o Karol na presidência, emitiu um decreto declarando que só ele cantava de galo em teu nome. No documento, ele declara inválido todo mundo que não tiver o crachá da empresa. Ele ainda decretou “falsas” todas as tentativas de comunicação contigo que não sejam feitas pela operadora dele. E o mais grave: ele disse que foste tu que autorizaste o monopólio do serviço, bem naquela conversa da praia quando o Simão recebeu o nome fantasia.

Os problemas, porém, não param por aqui e vêm de mais longe. Há algum tempo, ele demitiu sem mais nem menos todos os homossexuais. Este ano, atacou quem casou mais de uma vez. Antes disso já tinha arranjado uma baita briga por ter ofendido a concorrência. Na época, o pessoal de Maomé queria encher a gente de porrada. E enquanto questões sérias passam ao largo, as pautas de discussão da diretoria ficam no sexo e na camisinha.

Até hoje, fiquei vendo tudo isso sem falar nada. Mesmo porque tu havias dito que nem um fio de cabelo desviado escapava do teu Serviço de Inteligência. Imaginei que seria uma questão de tempo para uma operação da Interpol, uma força tarefa, um raio ou outra forma menos branda de correção chegasse à matriz européia. Como nada aconteceu, imaginei que as coisas poderiam não estar chegando aos teus ouvidos. Por isso, esta carta.

Por fim, Sr.JC, o maior mistério pra mim são tuas escolhas. Entendo Pedro, simples, pescador, bruto, quase sincero. Mas não poderias ter escolhido hoje alguém mais parecido contigo? Ladrões, prostitutas, pobres, gays nem chegam perto da matriz. Se tu deres uma descidinha aqui, duvido que consigas uma audiência sequer com o ajudante do secretário do porteiro da entrada dos empregados. O negócio ficou muito elitizado. A salvação virou coisa de rico. Longe de mim querer meter o bedelho em assuntos do alto escalão, mas não seria o caso de uma intervenção daí de cima? A sugestão tá feita!

Atenciosamente,

Um servidor na corda bamba

20 julho 2007

"Só não fizemos sexo!", ACM

Grande Bira Dantas!

"Só não fizemos sexo"
Quando disse o dito acima, o hojemente falecido Toninho Malvadeza Magalhães se referia à sua relação intra-conjugal com o então presidente FHC. Eles formavam um raro casal que gerou centenas de filhos sem ter dado nenhum créu (no bom sentido da palavra). Essa prole promissora (no pior sentido da palavra) continuará alimentando o Mamodecobra com o que há de mais refinado em matéria de corrupção de grande monta (de monta ni nóis).

Sr. ACM, o seu legado será lembrado e ensinado aos pupilos de sua incrível arte.
Editores do Manual da Moderna Corrupção Brasileira (Mamodecobra)

Mamodecobra está de luto
A Bahia está sem um deus
O baiano está sem um puto.

19 julho 2007

Mamodecobra - Parte II - Dissimulação

Pincei do comecinho do Mamodecobra (Manual da Moderna Corrupção Brasileira) este importantíssimo capítulo que trata de uma questão premente no cenário corruptório atual: a dissimulação.

Capitulo 1357
Dissimular é preciso
dizer não é preciso

Eis um predicado indeclinável do corrupto desde o tempo em que a corrupção é corrupta, a dissimulação.

A cara-de-pau ou cara-lisa vai sendo endurecida com o tempo e deve ser conservada com vernizes especiais de falsos pudores e com chiliques moralistas convincentes.

A verossimilhança que a dita cara deve apresentar tem que ser diretamente proporcional à falcatrua que ela vai esconder. Desse modo, uma cara de "não-pedi-para-o-lobista-pagar
-o-táxi-dessa-senhora" não convence se for utilizada no lugar de outra de "não-tenho-nada-a-ver-com-os-milhões-desviados-dessas-plataformas". Do mesmo modo uma cara de "fiz-minha-fortuna-enquanto-ainda-era-engraxate" soa exagerada, e portanto suspeita, quando empregada no lugar da "a-licitação-do-cafezinho-foi-feita-dentro-dos-trâmites-legais". Níveis diferentes de roubalheira exigem diferentes graus de dissimulação.

Vejamos alguns exemplos:

- Como o senhor explica o caos aéreo brasileiro?
Resposta verdadeira:
- Nossa incompetência gerencial aliada ao desvio crônico de verbas do setor, somados ao acúmulo de omissões dos governos passados e agravada pela falta de vontade política atual explicam perfeitamente o quadro.
Resposta correta:
- Nossa nação atingiu tamanho grau de desenvolvimento que, de repente, todos resolveram viajar de avião ao mesmo tempo sobrecarregando o sistema.

- O que a senhora tem a dizer aos passageiros que esperam horas nos aeroportos?
Resposta verdadeira:
- Não se sintam culpados. As opções na última eleição não eram tão melhores do que este governo.
Resposta correta:
- É o custo do progresso. Daqui pra frente mais gente vai viajar de avião e deixar os obsoletos automóveis nas garagens.
Resposta de um especialista (em sexo):
- Já que o estupro é inevitável...

Unindo o útil ao prazeroso
Quando falta matéria-prima dissimulatória é recomendável encobrir uma falta legal com outra, de cunho moral. Expliquemos:
Se for desviar quantias propinatórias vultosas, torna-se interessante usar uma relação extra-conjugal como cortina-de-fumaça. Caso descubram a falcatrua, jogue no ventilador a pulada de cerca.
- O dinheiro da pensão era do senhor ou foi pago pela empreiteira?
- Foi um momento de fraqueza, a moça se insinuou...
- Como o senhor explica o caso com essa moça?
- Minha mulher já me perdoou por isso.
- E de onde veio o dinheiro de sua fortuna?
- Minha mulher já me perdoou por isso também!

E atenção: se descobrirem a dissimulação, não pense duas vezes, dissimule novamente:
- O senhor acha correto usar favores de lobistas?
- Meu Deus do Céu! Agora eu vou ser julgado por ter dado uma bimbadinha fora do casamento?

Se você estiver do outro lado, na bancada da oposição, é crucial comentar a questão como se nunca tivesse sido governo. Vista aquela cara de inconformismo:
- Isso é uma pouca vergonha jamais vista na história deste país!

18 julho 2007

Da Al Qaeda

Da seção de classificados de um jornal árabe de hoje:

Al Qaeda contrata:
Diretores da Infraero para administrar reformas em aeroportos nos Estados Unidos.

12 julho 2007

Manual da Moderna Corrupção Brasileira

Queridos leitores diatríbicos, é com incorruptível orgulho que anuncio a publicação do primeiro folhetim deste respeitável periódico eletrônico: o Manual da Moderna Corrupção Brasileira.

Nesta semana, vocês vão ter que se contentar com o prefácio. Nas futuras, publicarei capítulos descontínuos e fora de ordem. Também não serão todos publicados no site por óbvios motivos capitalistas: quem vai comprar um livro que está 100% na internet? Ainda mais quando o público alvo é especializado em fraudes, rombos e desvios!

Aos apressadinhos vou logo dizendo que não adianta procurar nas livrarias. A impressão se encontra em fase de licitação na qual ganhará a editora que oferecer a melhor propina (até agora a Gráfica do Senado está na frente). Infelizmente, não consegui enquadrar esta obra nas leis de incentivo à cultura por se tratar de material didático. De qualquer forma, a necessidade imperiosa deste povo de adquirir conhecimentos ilícitos será o maior catalizador de sua publicação.

Enquanto o supercatatau literário não entra nas rotativas, os corruptos que se prezam terão que absorver as gotas de conhecimento publicadas no Diário da Tribo ou aprender na raça, ou seja, lendo os jornais diários.

A você, leitor honesto, mate a sua curiosidade sobre o supramundo da corrupção enquanto ele mata você aos poucos. De minha parte, só roubarei o seu tempo.

Boa leitura.

Manual da Moderna Corrupção Brasileira

Prefácio

De início peço desculpas ao leitor deste pioneiro manual. Tentei com fervor e afinco, todavia não encontrei um corrupto ilustre para prefaciar esta edição. A bem da verdade, corruptos famosos encontrei muitos, entretanto nenhum disposto a honrar com uma mera rubrica o primeiro grande manual da corrupção brasileira. Corruptos são assim mesmo, humildes demais para se admitirem como tais. Talvez pelo mesmo motivo nenhum deles dignou-se a escrever duas ou três linhas que fossem para abrir esta inédita obra com chave de ouro superfaturado.

Tampouco se debruçaram a engendrar um guia tão útil aos iniciantes do ignóbil mundo corruptivo. Coube a mim, mero pensador amador e jornalista profissional que nunca teve a oportunidade de mamar nas copiosas e impudicas tetas do poder, deitar em papel reciclado este verdadeiro compêndio catalográfico da metodologia corruptiva nacional.

A maior dificuldade nesta empreitada pessoal não foi escrever sobre o assunto (posto que há abundante material publicado diariamente pela imprensa em volume suficiente para compor a enciclopédia corruptiva mundial ou quiçá uma nova biblioteca de Alexandria), o pior obstáculo foi definir o nome mais adequado a tão inusitado livro.

Pensei em “Novíssimo Manual da Corrupção Nacional”. Se o Cegalla publica a sua “Novíssima Gramática” desde a década de 30, por que o meu manual não seria mais novíssimo ainda? Porém, pensando melhor (tenho permissão para pensar no meu trabalho), percebi que os mais incautos poderiam imaginar que o novíssimo se refere à corrupção, e se tem um adjetivo que não tem relação nenhuma com corrupção é justamente “novo”. Pelo menos aqui no Brasil, a corrupção precede em quase cinco séculos a gramática do Cegalla.

Depois pensei em Grande Manual da Corrupção Brasileira. Não foi por modéstia que descartei o “grande”. Foi para evitar pleonasmo. Afinal, o que seria maior neste mundo do que um manual da corrupção brasileira? Só mesmo o seu próprio objeto de estudo. Descartei então o óbvio.

Por fim, veio o “Manual da Moderna Corrupção Brasileira”. Ficou bem. Afinal é muito mais moderno você tramar desfalques pelos sofisticados blackberries antigrampos, do que ser apanhado em conversas telefônicas trepado com o fio na mão no poste da esquina. Para reforçar o nome, é realmente uma das funções deste manual apresentar os métodos de fraudamento eletrônico para o corrupto moderno que precisa desviar verbas licitatórias pelo laptop ou até fraudar um painel eletrônico de senado.

À guisa do esclarecimento

Antes que perguntem. Por que me autodenomino pensador amador? Primeiro: porque no Brasil não dá para viver pensando. O pensamento é o único artigo raro neste país que tem o seu preço em declínio. Aqui, os pensadores profissionais estão sendo obrigados a comer as próprias elucubrações para não morrerem de fome.

Além disso, estou impedido de exercer profissionalmente a função de pensador uma vez que já sou oficialmente registrado como jornalista, uma função (como milhares de outras no país) incompatível com o exercício intelectual, especialmente quando você trabalha para um grande grupo comunicacional que pensa por você. Esse não é o meu caso, por isso consigo dar umas pensadinhas rápidas enquanto trabalho. Meu codinome tem o prefixo ‘PP’: permissão para pensar. Como no caso de 007, a credencial dá certo status no início, mas expõe você a riscos em trabalhos muito mais perigosos.

Bem, foi durante essas pensadinhas que acabei descobrindo que o mundo não é tão redondo quanto tentam nos vender, que nem todos os peitos são obras da natureza, que as cores dos cabelos femininos não nascem na cabeça de ninguém, que discurso e prática não freqüentam o mesmo ambiente (o primeiro é próprio de palanque a segunda, de gabinete), que a amnésia é doença crônica transmitida pela faixa presidencial brasileira, que a maior extravagância que um milionário pode adquirir no Brasil é um senador e que não é normal que os delinqüentes pobres sigam para a cadeia enquanto os ricos tomam o rumo de Brasília. É para estes últimos que dedico este livro de valor inestimável aos que querem evoluir na arte de roubar, renunciar e voltar na próxima eleição (não necessariamente nessa ordem).

Não perca a continuação nas próximas edições do Diário da Tribo.

27 junho 2007

Tristes crônicas de um país sem graça

1997
Era uma noite quente de abril quando cinco estudantes bem alimentados e educados sob os auspícios da fina flor da sociedade brasiliense se cansaram de seus videogames e resolveram sair às ruas à caça de brinquedos mais emocionantes. Os mimos dados por papai e mamãe não mais satisfaziam os impulsos desses meninos sapecas e cheios de energia.

Um deles ofereceu o carro – outro brinquedinho patrocinado por papai – e os demais embarcaram. Não demorou para a capital federal lhes apresentar uma diversão digna de gente de alta estirpe. Avistaram uma construção pública que lhes era completamente estranha. Sabiam que chamavam aquilo de “ponto de ônibus”, para eles algo absolutamente inútil. Como podem gastar dinheiro público com coisas assim? Pensavam. Aquilo só servia para oferecer abrigo a quem se utilizava do transporte público, outro conceito que eles não conheciam nem de perto. Ademais, nunca se imaginaram colocando seus abonados buzanfãs tratados a talquinho italiano num banco de concreto tão nojento.

Naquela noite estrelada, eles descobriram que o dito equipamento público tinha outra função que era muito mais nociva à sociedade dos meninos educados. O ponto também servia de abrigo a indigentes que, como o próprio nome diz, são menos que gente. Essa espécie se enquadra numa categoria entre os cachorros e os ratos, uma vez que muitos cães encontram abrigos quentes e sociedades que os protegem e os ratos se escondem nos esgotos para não se exporem em pontos de ônibus. Imagine a indignação experimentada pelos rapazes ao encontrar naquela parada de ônibus um desses indivíduos que emporcalhavam a cidade com a própria existência.

Numa atitude patriótica e de cunho sócio-saneador, o grupo que estudou nas mais caras escolas da cidade decidiu cauterizar aquele cancro social. Imbuídos desse nobre dever cívico, espalharam combustível o mais uniformemente possível sobre aquela subpessoa que ousara nascer num mundo muito mais educado do que ela. Riscaram um fósforo e observaram com atenção (como convém aos que conhecem o método científico) como se comportava o fogo ao queimar um material tão vil e de tão pouca serventia. Satisfeitos, voltaram para casa com a sensação do dever cumprido e admirados com a própria capacidade de unir prazeres e obrigações. Dormiram tranqüilos.

No dia seguinte, o mundo desabou sobre suas iluminadas e endinheiradas cabecinhas. Só metade de sua contribuição à sociedade havia se completado. O alvo tinha sido eliminado, é certo, só que ele não era um indigente, mas um índio o que o colocava numa categoria ligeiramente superior aos moradores de rua, ainda que não gozasse do status de “gente”. Claro que além do amparo dos poderosos papais que vieram em seu socorro, havia também a eloqüente justificativa que pesou em seu favor: “Foi mal! Pensamos que fosse um mendigo!” A “Justiça”, que por cinismo ou deboche gosta de usar esse nome no Brasil, nem considerou homicídio, preferiu classificar a estripulia como “agressão física”. Afinal, o que matou o índio foram as queimaduras não o ato dos marotos.

Quatro passaram pouco tempo em pseudo-prisões de onde saíam para tomar cerveja e fazer faculdade (afinal eram educados!). Desde 2004, estão sob liberdade condicional, ou seja, condicionada a que não cometam mais diabruras nem gestos de crianças mal-educadas. O quinto nem foi incomodado porque era menor (ops!) criança!

2007
Cinco capetinhas da crème de la crème carioca, satisfeitos por viverem num país em que há “Justiça” (eles nunca notaram a sutil piadinha por trás dessa palavra) também saíram à noite a brincar e a gastar a mesada que os papais lhes davam. Eles se esbaldavam numa fresca madrugada de junho na Cidade Maravilhosa, quando se depararam com aquela aberração que o governo insistia em manter nas vias públicas: o ponto de ônibus. Sob o abrigo, identificaram outra subespécie que não deveria jamais conviver com seres humanos: a das prostitutas. Cheios de altivez moral, não pensaram duas vezes em sair de seu carro e limpar o quintal de casa dando uma boa surra nessas criaturas que tinham a petulância de se intitular “mulheres” e ainda mais “da vida”.

Pecaram pela desobediência. Lembra quando a mamãe falava para não deixar os brinquedinhos largados por aí? Pois é. Deixaram o carrinho de ferro solto na rua e enquanto brincavam de defender o bom nome da high society carioca, um taxista anotou a placa do dengo que papai havia dado. Por absoluto azar, uma das mulheres espancadas resolveu prestar queixa. Para o espanto da molecada, aquela pessoa (agora podemos chamá-la assim) tinha um status mais elevado em seu ranking sócio-biológico das espécies. Era uma empregada doméstica! Daquelas do mesmo tipo que eles tinham em casa e que lavavam as suas cuequinhas. “Mil perdões! Foi mal! Pensamos que fosse uma prostituta!”

2017
A madrugada chegou fria e úmida numa metrópole brasileira. O governo já eliminara o mal que um dia havia gerado tanta revolta e indignação popular: o ponto de ônibus. Agora não existia mais abrigo para as criaturas economicamente rastejantes que emporcalhavam o cenário urbano. Cinco meninas bem maquiadas da classe média-chique da cidade, felizes por viverem num país em que funcionava a Justiça (naquela época o termo já havia adquirido outro sentido o que eliminou de vez a jocosidade e as aspas) saíram para a balada a se divertir e a exibir as novas Pradas e Louis Vuittons combinantes com os seus novos tons capilares de Loreal Paris. Uma delas, em meio ao barulho da boate, não conseguia falar com a amiga pelo celular, por isso foi à calçada tentar escutar melhor o seu MotoBlackBeltBerryExibition de oitava geração.

Por pura ironia do acaso, a moça parou sobre aquilo que um dia havia sido um ponto de ônibus. Por um azar só explicável pela conjunção astral daquela noite, passavam naquele exato momento cinco garotos recém-foragidos do Gueto Fluminense (ex-Baixada). É bom explicar que o governo, numa sábia decisão em prol do saneamento público, houve por bem murar todas as favelas e áreas periféricas consideradas de alto risco (leia-se: baixa renda). Só saíam delas os oficialmente credenciados, o que não era o caso dos garotos em questão. Pensando que se tratava de um brinco caro, os rapazes arrancaram num puxão o MotoBlackBeltBerryExibition da moça. Na verdade, o microaparelho era muito mais caro do que a maioria dos brincos caros, pois era cravejado de pedras preciosas e ainda fazia projeções holográficas com progressive scan. Todavia, os rapazes não estavam nem aí para o progressive scan da menina e também arrancaram a Prada Snobation de US$3.800,00, uma das poucas da cor fúcsia vivant que a garota possuía. Não contentes com a feira já garantida, os garotos sentiram um ímpeto não se sabe de onde de espancar a moça. Deixaram-na semimorta sobre aquele ex-ponto de ônibus.

Foram todos presos. Desta vez, não haveria perdão. Iriam pegar 15 anos de cana cada um numa penitenciária com grades, carcereiros e superlotação. Não eram meros meninos sapecas, mas marginais formados pela escola do crime (já que a escola pública não lhes abrira as portas). Os pobres ainda tentaram, em vão, lançar mão de um antigo atenuante: “Desculpa aí! Foi mal! Pensamos que era uma socialaiti!”