11 dezembro 2008

Gabriel e as pilhas

– Por que você tem tantas pilhas, dindo? – perguntou Gabriel, de três anos, olhando para a minha montanha de pilhas usadas no balcão da cozinha as quais eu jurava levar um dia ao descarte. Minha mulher já havia perdido as esperanças de vê-las fora de casa. Eu não era relapso. Eu só não me lembrava de pegá-las quando saía. Só isso. E elas ficavam lá, amontoadas ao lado do microondas, entre o galheteiro e o pote de biscoitos.

– É que a gente não pode jogar pilha no lixo, Gabriel.

– Por que não?

– Porque o lixo que vai no saco é enterrado. Aí, vai sair uma aguinha suja das pilhas. Essa aguinha vai sujar a terra, vai escorrer para o rio e matar todos os peixes – disse eu orgulhoso de estar inculcando a última palavra em consciência ecológica naquela cabecinha fresca.

– Deixa eu ver – respondeu o pequeno estendendo uma mãozinha bolachuda pedindo um objeto para análise.

Dei-lhe a mais colorida de todas, imaginando que ele iria fazê-la de brinquedo, talvez um foguete espacial ou um canhão laser para o seu carrinho de polícia. Em vez disso, ele segurou a pilha, olhou-a por todos os ângulos girando-a com a mão fechada e finalmente juntou-a ao ouvido dando uma chacoalhadinha. Franziu a testa decepcionado:

– Mas eu não estou ouvindo nenhuma água aqui dentro!

Fiquei congelado olhando aquela carinha brava ansiosa por resposta. E agora, Fábio, seu jumento? Explica para ele como é que os metais pesados se decompõem e contaminam o solo. Como uma pilha seca, sem nenhum barulho de líquido dentro, pode soltar um xixi mortal para o planeta? Por que eu não chacoalhei uma pilha na orelha da minha professora de química do colégio? Essa saia-justa era para ser dela! Tive vontade de responder: “pergunte para a mãe da sua amiguinha Júlia que é PhD em Química! Ela vai provar pra você que eu não sou mentiroso!” Também pensei em: “vá procurar no Google, seu espertinho! Você sabe melhor do que eu que é lá que estão todas as respostas do mundo!” Mas por fim optei por uma saída adulta:

– Vamos brincar de carrinho?

– Vamos!!!

Ainda sinto que devo uma aula de química ao meu afilhado. De qualquer maneira, entendi finalmente o aviso das embalagens de pilhas: “mantenha longe do alcance de crianças”.

09 dezembro 2008

Os reverendos do calendário

Um desses ainda vai pegar você no confessionário e arrancar um a um todos os seus pecados!

Esqueça os bombeiros com suas mangueiras jorrantes. Quem vai apagar o fogo das moçoilas (e simpatizantes!) nos calendários de 2009 são doze padres saradões especialmente treinados pelo Vaticano para atrair uma multidão de fiéis que erguerão as mãos (só as mãos!) para dar glórias.

O calendário foi uma decisão prafrentex da Santa Sé que com isso deve atrair não só as moças à Igreja, mas uma imensa comunidade gay até então discriminada pelo santo führer. Os reverendíssimos aparecem em poses canônicas e com olhares penetrantes que estimulam a conversão. Trajam batinas negro-asfalto desenhadas pelo estilista Armando Pepino no século XVI. O talento desse artista é notado pelo corte das peças que deixam transparecer o alongado desenho de Pepino.

As beatas que já adquiriram o calendário dizem que será impossível chegar até abril sem ter sonhos proféticos com os padres de janeiro e março. A fiel Giovanna Peluzzo, por sua vez, não vê a hora de chegar novembro de 2009, mês da graça do padre David, “aquele monumento do altar! Um corpo desses salva qualquer alma,” medita a devota.

O Diário da Tribo lança agora uma campanha para que freiras-gatas posem descalças em cenas de penitência. O novo calendário ajudaria a preservar um segmento da sociedade em vias de extinção, o dos heterossexuais do sexo masculino. De quebra, os olhares inconfessáveis das madres Teresas vão reacender o desejo de voltar ao seio da madre Igreja. Jogue o calendário da Pirelli no lixo, e encha com santidade a sua borracharia! Amém e aleluia!

04 dezembro 2008

Diálogo do Natal Passado

- Papai, por que neste ano eu não ganhei presente do Papai Noel?
- Filho, aconteceu uma tragédia. O seu presente estava num trenó que desapareceu enquanto sobrevoava a região amazônica no caminho para cá. Parece que o transponder do trenó era de brinquedo e, por isso, o Papai Noel não percebeu que um avião Bandeirante vinha em sua direção e...
- O trenó bateu?!
- Isso mesmo, meu filho, o Bandeirante está inteiro, mas o lote de presentes se perdeu na floresta. Ainda não se têm notícias do Papai Noel.
- Não!!! E o meu presente? Você não pode comprar o meu presente numa loja? Este ano eu tinha pedido o Banco Imobiliário!
- Infelizmente eu não posso, meu filho. A lei é clara: quem dá presentes no Natal é o Papai Noel. Eu não tenho autorização para dar presentes pra ninguém nesta época do ano. O papai poderia ser preso por exercício ilegal da profissão de Papai Noel. É isso que você quer?
- Não. Quer dizer... mas se você for preso depois de me dar o presente, eu vou poder ficar com ele, né?
- Só se eu já tiver pagado a loja! Se eu estiver na cadeia, não vou conseguir pagar as prestações do Banco Imobiliário.
- Mas, papai, não é justo! Devia ter uma lei deixando a gente comprar presentes se o Papai Noel não puder trazer. Como um juiz pode deixar na cadeia um pai que compra um presente pro filho?
- Meu filho, preste atenção no que eu vou dizer: um dia você dará um jeito de ter o seu próprio banco. E quando isso acontecer, você vai fazer as suas leis e nenhum juiz do mundo vai dizer que você está errado e nem vai deixar te prenderem.
- Mas eu quero o meu banco agora...
E saiu contrariado pensando nas hipotecas, aluguéis e multas fictícias que deixaria de ganhar em seu joguinho novo por causa de um estúpido acidente aéreo.
E o pai ainda gritou pra ele:
- E não espere muito nos próximos anos! Parece que as chances de encontrarem o Noel com vida são muito pequenas...
A mãe, que ouvira toda a conversa atrás da geladeira, aproximou-se do marido:
- Você tem certeza que fez a coisa certa?
- Claro! Fique tranqüila. Isso vai fazê-lo ficar mais forte. Nosso filho ainda vai aparecer nas capas de todos os jornais! Anote isso! Esse Danielzinho Dantas vai nos dar muito orgulho!
__________

Mensagem de Natal do Diário da Tribo:


Para que o seu capetinha de hoje não se torne o salafrário de amanhã, presentei-o com o bestseller "O Vendedor de Palavras", à venda nas boas redes mundiais de computadores.

27 novembro 2008

O Diário da Tribo virou livro!!!

Olha eu na estante!
Queridos leitores, chegou enfim o livro que vai encabeçar as listas dos mais vendidos, admirados e lidos da atualidade.

O lançamento mundial está marcado para a semana que vem e as encomendas já podem ser feitas pelo site da editora Baraúna.

São 40 das melhores crônicas humorísticas que já fiz entre publicadas neste nobre Diário da Tribo e outras inéditas.

O Vendedor de Palavras - Crônicas de um país de tanga na mão e corda no pescoço é o Diário da Tribo feito para você ler no ônibus, no metrô, na fila do supermercado ou no conforto e tranquilidade do seu vaso sanitário. Compre já o seu! Apenas R$19,50.

14 novembro 2008

Os cadernos da contrabdução

Os cadernos da contrabdução
Depoimentos de ETs vítimas de terráqueos

Era uma tarde estrelada de domingo. Estávamos passeando por Orion XT 4753 quando papai percebeu que o reator de seu novo Zébulon Ralóide estava ficando sem antimatéria. Ele nos avisou sobre o problema e avistou pelo retrovisor uma região periférica da Via Láctea que lhe parecia amistosa (para papai, todo o universo era amistoso!). “Vamos lá”, disse ele todo ansioso por conhecer um sisteminha planetário novo.

De longe avistamos uma bolinha azul pouco esfumaçada. Mamãe achou um tanto azul demais para o gosto dela e chegou a pedir para que papai estacionasse numa bolota vermelha um pouco antes. Papai lhe respondeu que era bobagem, que o azul era bem mais bonito e que o vermelho deveria ser superpopuloso, violento e todo poluído, problemas típicos da formação de vida não-inteligente. Não foi a primeira vez que papai se meteria em problemas por não escutar mamãe, mas com certeza foi a última.

Papai decidiu pousar numa zona de transição entre as áreas azul e bege do planeta. Esse é um procedimento padrão para avaliar de perto qual a superfície mais segura para descer. Foi aí que ele cometeu seu segundo erro, ele escolheu a área bege. Depois descobri que a azul era 100% líquida e habitada por seres inofensivos. A bege, bem menor, abrigava criaturas esquisitíssimas cuja impressionante periculosidade nós ignorávamos completamente.

O Zébulon pousou sobre uma elevação de onde se avistava uma espécie de antena branca em formato de cruz. Focando melhor o paraventoestelar do Zébulon, descobrimos depois que a antena era, na verdade, uma reprodução ampliada da espécie que habitava o planeta em uma pose de braços abertos.

Percebemos isso quando saímos do veículo. Umas doze criaturas, parecidas com a antena branca, cercavam a nave. Começaram a emitir sons muito estranhos e mamãe, sempre muito esperta, deduziu que aquilo era algum tipo de linguagem. “Não fale asneiras, mulher”, respondeu papai à hipótese de mamãe. “são só animais com fome. Pegue a caixa de lépigos crocantes e jogue para eles”.


Sempre mais sensata, mamãe não obedeceu e ligou o tradutor multiuniversal paralelo que sempre levava dentro da bolsa. Mesmo assim, só conseguiu receber palavras sem sentido: “Perdeu! Perdeu, mano! Passa a chave. A barca é nossa!” [a transcrição completa e precisa encontra-se anexada aos autos]. Ao ouvir a tradução, papai abriu um risinho de deboche, “Ainda tentando contato com a vida selvagem? Eu disse que são apenas grunhidos”, e jogou um pacote de lépigos na direção da cabeça daquele que imaginou ser o chefe do bando. Foi aí que a coisa ficou feia.

O bando começou a disparar rajadas de mini-setas metálicas. Papai teve o corpo inteiro atravessado por elas e vi mamãe levar uma no tórax e ter todos os seus três dedos da mão esquerda arrancados por uma das setas. Eu voltei assustado para o banco da frente do Zébulon, e apertei o botão de emergência. O veículo abriu o portal de retorno e disparou de volta para casa.


Nunca mais vi meus pais. Anos mais tarde, recebi um relatório da última missão de observadores que passou pela região. Dizia que mamãe estava bem e tinha sido eleita deputada estadual com a ajuda do pessoal que atirou nela. Papai estava respirando por aparelhos num lugar chamado Souza Aguiar. Em sua ficha, ele estava identificado apenas como “desconhecido. Integrante do bloco Caras do Outro Mundo”.


Depoimento de Galigórnion Y Zptxon Jr., filho de Landríktcia Y e de Galigórnion Zptxon.


Se você também tem algum parente ou amigo vitimado pelas criaturas abomináveis da Terra, envie sua comovente história para a gente.

30 setembro 2008

O porco do Cansado

No meio da rua passeava um porco. Caminhava pachorramente com seu olhar suíno semicerrado arfando o focinho redondo sempre a farejar comida e podridão vinda dos lixos das casas. A vizinhança o sustentava porque seu dono, Cansado, não queria saber de cuidar do porco nem de seus cinco cães e dois gansos. Toda a fauna de Cansado era mantida pelos vizinhos que se apiedavam dos bichinhos que viviam soltos a pedir comida e só voltavam para casa à noite para dormir e trocar pulgas com o dono. A esta altura da história não precisarei explicar a origem da alcunha do Cansado, só esclarecerei que o apelido lhe caiu tão bem que ninguém mais da rua lembrava do nome de batismo do capiau.

Pois voltemos ao porco. Estava ele a caminhar pela rua e arfar o focinho sem, contudo, abanar o pequeno rabo espiralado. Não sei do conhecimento de anatomia suína do leitor, mas talvez seja adequado esclarecer que, devido ao formado da cauda ou quiçá à ausência de musculatura específica para tal fim, os porcos não costumam contar com uma grande coordenação rabial. Por isso, o rabo balança apenas com o chachoalhar do lombo ao qual se prende sem nenhuma interferência voluntária do animal. Feita a explanação biológico cultural, o fato é que o porco, ao contrário dos outros animais do Cansado, despertava não somente a piedade dos vizinhos, como também a gula de um deles.

Pança, que também tinha outro nome de batismo esquecido pelo tempo, começou a lançar olhos para o porco. Foi quando o bicho começou a crescer e a engordar com os cuidados do povo. De leitão magro de cofrinho de quermesse, o dito criou bochechas e dobrinhas tornando-se um belo e rechonchudo porco, digno de entupir as artérias do mais glutão americano comedor de bacon. Há semanas, Pança só enxergava um lombo com farofa passar em frente de sua varanda todo fim de tarde. Aquilo era tentação demais para quem não tinha nem para o colchão-duro do açougue da esquina.


Um belo dia, o gordo Pança decidiu atrair o belo e gordo porco. Pegou os melhores restos de comida do almoço colocou-os numa lata e a esquentou para que cheirasse por todo o quarteirão. Em pouco tempo, uma silhueta suína apontou no horizonte, no começo da rua, e aproximou-se saltitante, sem perder, porém, a pachorra indispensável à peculiar porquice. Bem em frente à casa do Pança, o focinho arfou frenético, parou o porco que vinha bem atrás dele e o direcionou ao portão do Pança, que estava aberto. O larápio levou o porco para os fundos da casa. E ninguém mais soube do porco do Cansado. Daquela noite em diante, a vizinhança ouviria uma gritaria infernal entre o Pança e a sua mulher. Ninguém entendia por inteiro as frases do arranca-rabo, mas entre um palavrão e outro eram nítidas as palavras "porco" e "cansado".

Por fim, numa madrugada sem lua nem estrelas, um grito estridente, rápido e contorcido foi ouvido da casa do Pança. Ninguém foi ver o que era. Alguns fizeram uma prece de despedida e até choraram pelo porco do Cansado. Naquela noite não houve gritaria. Na manhã seguinte, a mulher do Pança passou de porta em porta avisando que haveria feijoada no almoço, que todos estavam convidados e que não, ela não precisava de ajuda, faria tudo sozinha na cozinha, mas que não faltasse nenhum vizinho porque a comida era muita.

E lá estavam todos. Sentados em uma longa mesa no meio da rua, os vizinhos se acomodaram fitando a mulher do Pança com olhares acusadores, mas sem falar nada para não perder aquela refeição de aroma inebriante que já invadia todas as casas. Nada menos do que cinco panelões cheios foram enfileirados na mureta da casa do Pança. Quando todos se sentaram, uma criança foi a única que notou uma ausência na mesa e perguntou à cozinheira: "onde está o Pança?" A mulher virou a cabeça como se olhasse para a própria casa: "ele se foi! Estou comemorando a minha separação!" respondeu a mulher com descaso. E ninguém mais no bairro soube do homem.

No mesmo dia à tarde, alguns vizinhos foram à casa do Cansado motivados pela estranheza de ele não ter ido reclamar do assassinato de seu porco e nem ao menos reivindicar seus restos mortais na feijoada. A porta, como sempre, estava aberta. Bateram nela. Ninguém apareceu. Entraram e o cheiro de fezes de animais quase os derrubou. Encontraram no quarto um esqueleto em cima da cama. Estava perfeitamente limpo e com várias marcas de dentes que pareciam ser de um porco. "Enfim, descansou!" foi só o que um deles disse.

Dias depois da inesquecível feijoada de despedida do Pança e da descoberta arqueológica na casa do Cansado, um berro foi ouvido na casa que patrocinara o regabofe. A ex-mulher do Pança havia saído para o trabalho, de modo que a casa deveria estar supostamente vazia, e os gritos, supostamente extintos. Os vizinhos mais intrépidos encostaram o ouvido na porta da casa do Pança e bateram: "tem alguém aí?" Como resposta, ouviram um nítido e indefectível "óinc!".

25 setembro 2008

O Saci

Como bom brasileiro, o Diário da Tribo vai dar uma força à cultura popular e resgatar as raízes tubérculo-macachêiricas do nosso folclore. A Enciclopédia Diatríbica Brasileira, ou em bom português: Tribopedia (lê-se tribopídia, para os que não sabem ler bom português), traz em seu primeiro fascículo um velho desconhecido dos tupiniquins, o saci.

Saci (Pernetus pulantis)
Originário das florestas supra-tropicais e meso-equatoriais de altitude mediana do Brasil, o saci é uma criatura afrodescendente enquadrada como portadora de necessidades especiais por lhe faltar um dos membros inferiores – geralmente uma das pernas.

A espécie se caracteriza por uma carapuça rubro-sangue da cor vermelha viva puxando para o escarlate. O saci é tabaco adicto consumidor de grandes quantidades de nicotina e de outras ervas maneiras que auxiliam na descontração e no desanuviamento das idéias sacízicas. Como entidade folclórica espada, ele jamais enrola (ou leva) fumo, prefere socá-lo no pequeno orifício de um cachimbo que não sai de sua boca nem durante o exame de próstata.

Até meados do século XX, suas comunidades viviam de atividades assombrativas rurais quando passaram a receber direitos pelo uso de imagem nos livros de Monteiro Lobato. Com a adaptação dessas obras para a TV, alguns sacis entraram para a folha de pagamento da Rede Globo como figurantes ou intérpretes de si mesmos. Conhecida como época áurea do sacizado, o fim da década de 1960 colocou os “coisa-cuisins” globais nas baladas no Leblon e em bundalelês nos apês de Walter Clark, acompanhados por Dona Benta, Sinhá Anastácia e Tio Barnabé.

Com o encruamento da ditadura militar, os sacis entraram para a lista de perseguidos por comunismo do SNI, especialmente por causa da cor de sua carapuça. Muitos foram torturados e obrigados a ficar de três sobre tampinhas de Grapete. Outros foram extraditados para a Europa onde lecionaram na escola de Magia e Bruxaria de Hogwartz, na periferia de Londres, e acabaram servindo de inspiração para outro extraditado folclórico compor a canção London, London.

De volta ao Brasil, após a anistia, os sacis jamais conseguiram se recolocar. A Rede Globo já era dominada pelas mulas-sem-cabeça que narravam jogos de futebol, corridas de Fórmula 1 e apresentavam programas dominicais de auditório com meninas de biquíni equipadas com peitos balançantes. Para piorar, as novas leis anti-fumo, que proíbem a tragada em locais públicos e privados, igrejas, casas de tolerância e de burlesco, áreas de proteção ambiental e regiões tombadas pelo patrimônio histórico e arquitetônico, deixaram aos sacis pouquíssimos habitats disponíveis para a sua procriação. Refugiados em comunidades quilombolas, esses encarapuçados sobrevivem hoje com o auxílio bolsa-família-perneta. Os que se abrigaram nas periferias dos grandes centros vivem de pequenos furtos e de uma vergonhosa aposentadoria por invalidez.

15 setembro 2008

O banco que é a cara (do trânsito) de São Paulo

Não tenho nada contra os bancos. Na verdade, eles rendem excelentes crônicas. Principalmente quando não atendem a gente. Pena que eles não gostem tanto assim de mim. Não é nada pessoal. Creio que eles até me amem, porque são os que mais escrevem cartas pra mim. O que eles não suportam é a quantidade de dinheiro que eu deixo neles. Acho que isso os irrita tanto que os únicos "seres" que costumam me atender é a internet ou a voz eletrônica do telefone. Via de regra, não há uma vivalma para falar comigo.

Esta crônica é fresquinha. Nasceu hoje à tarde na fila do banco. Eu tinha muitos outros serviços para fazer, sim senhor. Graças à Nossa Caixa, eles acumularam para amanhã e vocês ganharam isto:

(Fábio Reynol - De uma agência da Nossa Caixa) - Acabo de completar meia hora de espera no banco Nossa Caixa. Estou na fila do atendimento tentando encerrar a minha conta corrente. Se eu não fizer isso agora, corro o risco de entrar para o rol de devedores que não pagaram tarifas as quais eles nem sonhavam que existiam. Este mês, por exemplo, perdi vinte reais a título de "recadastramento". Culpa minha. Esqueci de fechar a conta a tempo.

Por falar em tempo, agora já são 40 minutos de cadeira. O suficiente para eu digitar este texto no teclado minúsculo do celular. A demora seria por falta de atendentes? Não creio. No momento há apenas uma mesa ocupada com um cliente, porém, existem outros cinco funcionários para “atender”. A atendente que está à minha frente sentou em sua cadeira há 20 minutos, passou dez organizando uma papelada, dois atendendo o próximo cliente da fila, mais dois rabiscando papéis e até agora está falando ao telefone.

Ao lado dela trabalha um rapaz. Quando eu cheguei, ele estava com uma cliente, mas a mulher saíra de sua mesa há 20 minutos. Ele foi então à impressora, do lado oposto da agência, olhou a pilha de senhas e voltou para a sua mesa onde rabiscou três folhas de papel, passou mais cinco minutos digitando algo no computador e sacou o telefone. Juntou-se à sua colega e ficou ligando para clientes. Por sinal, a maioria dos destinatários não estava. “Posso ligar em outro horário?” “Será que ele pode me retornar?” “O senhor não sabe se ela se interessaria em...” foram algumas das conversas que eu consegui ouvir. Parece que os clientes que não se dirigiram ao banco não estavam querendo ser atendidos. Enquanto eu e mais três panacas que estavam precisando do serviço éramos magnificamente ignorados pelo setor.

Além desses, havia uma terceira atendente que conversava com uma senhora quando eu cheguei. Quando a cliente foi embora, a funcionária se perdeu no fundo da agência. Voltou há cinco minutos, sentou um pouquinho, rabiscou também alguns papéis (deve haver algum bônus oferecido pelo banco por isso) e, como num milagre, chamou a próxima senha, ainda bem longe da minha.

Porém, entre os funcionários do atendimento, a que mais me tem chamado a atenção é uma quarta mocinha que, durante esses 45 minutos em que eu estou aqui, está... atendendo! Tudo bem que ela está com o mesmo cliente durante todo esse tempo, mas mesmo assim é reconfortante ver um trabalhador fazendo o seu trabalho. É como ver um padeiro fazendo pão e a polícia prendendo bandidos. Coisas raras no Brasil. Se entre cada quatro brasileiros, um fizesse digna e honestamente o seu trabalho, estaríamos com a cadeira do Canadá no G8. Mas não posso dizer se a moça era realmente esforçada ou se o caso era difícil demais para ela dispensar o cliente e se juntar ao atendimento telefônico - modalidade muito mais tranqüila do que olhar para as caras feias dos clientes da agência.

Desde que cheguei só ouvi chamarem a primeira senha após 15 minutos de cadeira. O pior: cantaram o número “336”; o meu era o “444”! Se eles demorassem quinze minutos para chamar cada cliente eu seria atendido em duas horas! A coitada que esperava ao meu lado me acalmou: “a maioria já desistiu e foi embora!”, avisou-me aliviada. Ufa! Sorte minha que os bancos de hoje são somente para os heróis da resistência ou para os caras-de-pau que ficam digitando crônicas no celular.

Opa! Acabaram de chamar a minha senha, 50 minutos cravados!

“Eu gostaria de encerrar a minha conta, por favor.”

“Mas por que o senhor quer fazer uma coisa dessas???”

“Posso responder por escrito?”

26 agosto 2008

As pessoas e as coisas

Um colega de trabalho queria comprar um celular sofisticado e que não existia no país. Pensou em encomendar de uma importadora, mas era extremamente caro. Sugeri que pedisse a algum viajante ou que esperasse o aparelho ser vendido por aqui. Quando foi anunciada a venda no Brasil, por um valor bem em conta, fui informá-lo. “Não quero mais. Agora todos vão poder ter um!” foi a sua resposta. O afã acabou porque ele não estava nem um pouco interessado em adquirir um aparelho telefônico móvel com dezenas de recursos ultramodernos. O que ele pretendia comprar era um fetiche, uma fonte de status, um objeto que o fizesse ser admirado e até invejado por outros, algo que lhe dissesse ao ego que ele era diferente e superior, de certa forma, a todos os demais que não possuíam aquilo. Nesse sentido, o celular poderia ser substituído por um par de tênis de novecentos reais, uma caneta tinteiro de mil euros ou um relógio de cinco mil dólares que... mostra as horas!

Essa atitude de consumo pertence a uma multidão que vai às lojas semanalmente tentar tapar buracos interiores com as últimas novidades do mercado. O fetichismo cresce pari passu com o aumento do número de quinquilharias à disposição nas vitrines. Em tudo o que compramos existe algo que a publicidade não conta e que não vem discriminado na nota fiscal, é por que compramos. Por trás de cada produto adquirido ou serviço contratado há um motivo único e pessoal que ultrapassa a finalidade prática daquilo. Uma calça é muito mais que uma calça se ela vier com uma etiqueta vistosa de uma marca famosa. A qualidade do produto em si fica para um segundo ou terceiro plano. Quer fazer um teste? Você compraria uma calça de grife e retiraria a etiqueta externa? Afinal, a calça é a mesma, a qualidade, idem, mas o fetiche estaria desfeito.

A distorção do consumismo, poucos percebem. Só usamos a calça jeans de dois mil reais para mostrar aos demais passantes que temos poder para ostentar aquela etiqueta na nádega. A publicidade prega que a marca lhe empresta o prestígio global da empresa. Porém, o que ocorre é o oposto. A corporação usa gratuitamente o seu espaço glúteo-publicitário, e até o seu prestígio que você não acredita possuir, para vender um peixe que não é seu. O pior, você pagou caro para disponibilizar a sua bunda-propaganda. Muito mais do que o “excelente corte” e o “maravilhoso tecido” que você usa como argumentos para justificar a compra, você está atrás é do valor que a marca comercial poderia agregar à sua imagem.


E por que nos sentimos “mais” se estamos com um tênis “X” ou com a camisa da grife “Y”? A resposta é simples: porque não conhecemos o nosso próprio valor. O mercado nos ensina que competência é dirigir um conversível, respeito é o que se tem ao vestir etiquetas famosas e admiração é o que você recebe ao ver as horas num mostrador de platina e diamantes. Sem essas coisinhas fundamentais, você é apenas uma pessoa como outra qualquer, mesmo que não exista no mundo inteiro uma pessoa igual a outra qualquer.

Preferimos acreditar que compramos sempre aquilo de que precisamos, mas isso não é verdade na maior parte das nossas expedições aos shoppings centers. Por trás de muitas bolsas novas estão relacionamentos mal resolvidos, por trás de carrões caros e potentes estão inseguranças inconfessáveis, por trás de trajes vistosos estão frustrações recalcadas e quantas inutilidades eletrônicas servem de catarse para dores que não queremos enfrentar?


Você não consegue se livrar disso? Pelo menos olhe para o último supérfluo que você adquiriu e reconheça o que realmente quis comprar. Com o tempo, você vai aprender a dar o devido valor a cada coisa e a distinguir poder aquisitivo de caráter. Se tiver perseverança, vai encontrar tesouros reais e, se tiver sabedoria, não os perderá. Se esse dia chegar, um celular será apenas um celular, mas você será muito mais do que apenas uma pessoa.

12 agosto 2008

Arrumando as malas

Ficou sabendo de chofre que iria logo morrer. O médico não fez cerimônia, lhe deu três meses, quatro no máximo, de uma existência quase normal até que o anjo da morte lhe desse um beijo de língua, “que nojo!” exclamou ao imaginar a cena. No princípio, ficou cabisbaixo, revoltou-se, voltou a ficar sorumbático, irritou-se novamente e, por fim, conformou-se. Afinal, ele iria de qualquer jeito, mesmo. Ele só não esperava partir com hora marcada, mas já que seria assim, que assim fosse. Realmente era uma pena, tinha só 52 anos, mas lamentar-se e reclamar aos céus só iria dar um fim triste a uma vida que não tinha sido assim tão ruim. O jeito era arrumar as malas.
Olhou para os objetos de sua casa e pensou o que seria daquilo tudo que juntou ao longo de seu meio século de vida. Mulher, já não tinha mais. Os filhos moravam longe e não dariam tanto por sua falta. Talvez no Natal ou no Dia dos Pais, mas superariam bem. Pensou nos únicos seres vivos que ainda dependiam dele no mundo, duas samambaias, três violetas e uma espada-de-são-jorge. As daria todas à vizinha do apartamento em frente. Olhou para a sua enorme coleção de livros, lembrou de quando comprou ou ganhou cada um deles e jamais havia imaginado que um dia ele mesmo teria de dar um destino a tudo aquilo. Doou-os todos. Olhou para a mobília, a TV, o aparelho de som, o computador, o que faria com tudo aquilo? Uma feira de garagem! Vendeu tudo, até a cama e o colchão em que dormia. Afinal, dormir no chão por quatro meses não iria matá-lo, e mesmo o que iria matá-lo não fazia mais parte de suas preocupações.

Olhou para o apartamento vazio e viu que ainda tinha muito. Abriu uma conta conjunta com o seu filho mais velho. Tirou todo o dinheiro que tinha em sua própria conta bancária e a encerrou. A nova conta o sustentaria pelos próximos quatro meses e o que sobrasse, o filho daria cabo. Pôs à venda o próprio apartamento, impôs como única condição que desocuparia o imóvel depois de seis meses. Encontrou um comprador interessado que lhe adiantou metade do dinheiro, passou esse valor à moça da faxina do condomínio, para que terminasse de construir sua casa. A moça chorou quase sem acreditar no que estava acontecendo. A metade final do pagamento, dizia o contrato, deveria ser dividida em partes iguais e paga diretamente aos filhos.

Olhou para o seu amado carrinho, que por tanto tempo o acompanhou. O pequeno bólido foi reformado, pintado, recondicionado, todo forrado em couro e minuciosamente lavado e cuidado. O que faria com ele? Encontrou um colecionador metódico que cuidaria dele e por um bom preço o vendeu. Doou o valor a um asilo, para que acalentasse os que não tiveram a mesma sorte de poder morrer na melhor fase da vida.

Estava, enfim, sem amarras nem apegos. Completamente livre e preparado para o seu destino e, como nunca antes em toda a sua vida, estava imensamente feliz. Ficou imaginando por que só agora ele havia descoberto a verdadeira felicidade. “Tanto tempo perdido!”, pensou. Mas o prazo para a morte chegar passou e ela não veio. Resolveu então voltar ao médico para saber se ainda haveria um ou dois meses de prorrogação de seu restinho de vida. Qual não foi sua surpresa quando o médico voltou com seus exames e disse que a doença mortal simplesmente desaparecera de seu corpo. Ficou esfuziante, completamente feliz, tinha encontrado enfim, o sentido da vida e, com mais anos à disposição, poderia falar disso ao mundo e fazer as pessoas felizes. O mundo seria outro quando descobrisse a alegria que ele sentiu. Saiu do consultório em disparada, olhou para a sua vida toda que passava diante de seus olhos, mas não olhou para os lados ao atravessar a rua. Foi atropelado por um caminhão sem freio que descia em disparada. Morreu na hora. O motorista do caminhão estava sóbrio, mas o mecânico que reparou os freios, não.

11 julho 2008

Extraordinário: Brasil está com um banqueiro na cadeia!


Inacreditável! O Brasil acaba de completar 19 horas mantendo um banqueiro atrás das grades. Acusado de falcatruas há mais de uma década, Daniel Dantas jamais tinha visto um xilindró por dentro. Sua fortuna, na casa dos bilhões, o torna completamente impunível pela justiça brasileira. Uma multidão de curiosos se aglomera em frente ao prédio em que Dantas está hospedado para tentar ver essa raridade. O ministro da Justiça convocou fiscais do Guiness Book para registrar o tempo que Dantas ficará na prisão. O ministro torce para que eles não demorem muito, pois a atração pública deve terminar a qualquer momento, quando o Supremo conceber o próximo habeas corpus.

13 junho 2008

As celebrações da vida

Ontem, pleno Dia dos Namorados, parei atrás de um senhor na fila de frios do supermercado. Pediu salsichas. “Não. Coloque menos, por favor”, disse à pessoa que o atendia e virou-se para mim: “Só a minha mulher comia salsichas comigo. Ela morreu há dois anos depois de vivermos 51 anos juntos. Minha filha que mora comigo prefere não jantar. Faz dois anos que não tenho companhia para comer salsichas.”

O que eu poderia dizer? 51 anos é mais do que eu já vivi. Por um instante me imaginei partilhando a vida e salsichas com alguém por mais de meio século, mas o homem voltou a desabafar comigo: “Não tem nenhum dia em que eu não pense nela. É duro, viu? Não é só a salsicha, ela fazia uns doces maravilhosos. A menina que trabalha lá em casa também faz, mas não é a mesma coisa.”

Não, não é. Ele sabe que não são doces nem salsichas que lhe fazem falta, mas a pessoa a quem essas coisas remetem, alguém com quem partilhou 51 anos de caminhada e que não voltará. Mesmo assim, ele precisa jantar salsichas e comer doces para celebrar os momentos que ele teve e que atestam que ele viveu.

Todos nós precisamos de celebrações próprias para marcar alegrias e tristezas, celebrações de chegadas e de adeus. O problema é que não temos esse costume. A internet, o telefone, o shopping center acabam se tornando os altares para expurgar nossas dores. Não temos uma celebração para o fim de um namoro, para um divórcio, para a perda de um emprego nem para os pais que sofrem um aborto, por exemplo.

Quando sofri o fim de um lindo namoro, minha amiga Beth percebeu o tamanho da minha dor e se ofereceu para, no Dia dos Namorados, fazer sua especialidade na minha casa, uma lasanha com manjericão. Com a minha mãe, compramos juntos os ingredientes e cozinhamos aquele prato. Em volta de uma bonita mesa, comemos e bebemos. Sempre debochada, Beth tirou sarro da minha situação, fez piada da vida e nos empanturrou com uma maravilhosa massa. Ela foi a sacerdotisa daquela celebração que marcou o fim de uma bela parte da minha vida. Revigorado, recobrei esperanças, realimentei sonhos, continuei a vida e vivi histórias ainda mais belas do que aquela que havia deixado para trás.

A partilha do pão com os amigos é a nossa maneira de agradecer aos céus por tudo de bom que vivemos, tudo de belo que somos e tudo de importante que perdemos e tivemos de deixar para trás. Levantar uma taça de vinho serve também para encerrar algo maravilhoso que vivemos e já não temos, não para lamentar, mas para transformá-los em tinta a fim de escrever capítulos ainda melhores que os passados, mesmo que nunca iguais. Nossos banquetes de despedida devem celebrar a vida e dizem mais a nós mesmos do que a qualquer outra pessoa. Por isso, o prato principal pode ser caviar, pizza, lasanha ou salsicha.

10 junho 2008

A assombração de J. Anhaia

Uma bela noite, o senhor José Divino vestiu um belo pijama de uma bela seda bege pontilhada com bolotas azuis não tão belas. O traje de gosto duvidoso não vem ao caso e não tem nada a ver com a trama dessa história. Voltando àquela bela noite, após vestir o sedoso pijama bege-anis-embolotado, seo J. (abrevie-mo-lo) apagou a luz como fazia todas as noites, ou pelo menos, daquela vez, tentou fazê-lo. Ao cutucar o interruptor com a ponta do indicador direito percebeu que a luz se foi, como devia ser. O bizarro ocorreu quando sua buzanfa sedosa encostou na colcha de matelassê da cama. Naquele exato momento, a lâmpada começou a piscar em diversas intensidades luminosas, do modo mais assustador que uma lâmpada eletrônica de sua categoria consegue ser.

Na mesma hora, seo Jota fez o que qualquer pessoa faria naquela mesma situação: tentou um contato telepático com a lâmpada. “Dizei o que quereis!” perguntou à ditacuja. Estava meio envergonhado, pois há muito não conjugava nada na segunda pessoa do plural. Acabou se sentindo orgulhoso por ainda lembrar como se fazia isso. Sabia que um dia na vida usaria aquela forma verbal que a maioria dos colegas achava inútil. Ele, porém, o mais esperto da turma, sabia que aquela era a conjugação adequada para se falar com Deus e com o Além. Como o Todo Poderoso não tinha muito tempo para prosear com ele, precisou desse contato sobrenatural para seo J. desenferrujar o verbo. Sem obter resposta, repetiu: “Dizei o que quereis!”. A lâmpada respondeu como toda lâmpada de fino trato responderia, com o mais absoluto silêncio. O leitor há de convir que eu não me daria ao trabalho de escrever essa história se ela terminasse por aqui. De fato, não termina.

O caso é que, na noite seguinte, um pouco menos bela do que a sua antecessora, a rotina de cutucar, deitar e piscar se repetiu. Mais uma vez, seo J. tentou conversar telepaticamente com a lâmpada, porém, agora de um modo mais eloqüente: “Dizei o que quereis, oh lâmpada!” O “oh lâmpada” era outro resquício dos tempos de grupo escolar. Até se lembrava do nome daquilo, “vocativo”. Jamais esquecera a sua mestra nas primeiras letras, dona Elzinha, dizendo que o pomposo “oh” era coisa de linguajar chique e sempre indicava o tal vocativo. Mirando a lâmpada, sentiu-se imensamente feliz por ainda estar afiadíssimo no português a despeito das décadas que passou longe dos bancos escolares. Foi bem quando ele estava nesse êxtase lingüístico, sintática e semanticamente relaxado que a lâmpada, que dessa vez deve ter percebido que era mesmo com ela, resolveu responder. “A tua alma!”, disparou a marota enquanto ainda piscava quase estourando os cátodos de tanto rir.

Seo José quase teve uma parada cardíaca. Com o coração disparado, fitava o teto piscante esperando ver a qualquer momento o anjo da morte. A essa altura, a lâmpada já sentindo sua consciência luminosa pesada, não respondeu às demais tentativas de comunicação de seo J. e até parou de piscar. Sem mais nenhuma novidade, seo José resolveu apelar para o bom senso e pensar que aquilo era coisa da própria imaginação. Virou de bruços e dormiu. Uma semana depois, cansada do marasmo, a lâmpada resolveu voltar a piscar só para espantar o tédio. Seo J. já recomposto do primeiro susto, sentiu-se determinado a encarar o próprio destino, e fez a mesma pergunta sem dispensar os rococós lingüísticos: “Dizei, novamente o que quereis, oh lâmpada!” “Tua alma, oh José!” (a lâmpada também havia gostado desse negócio de vocativo). Com o coração na mão, seo José enfrentou o medo e começou a perguntar à lâmpada o porquê daquilo, quando seria a sua hora e todas aquelas perguntas que qualquer pessoa faz quando a lâmpada do seu quarto avisa que chegou a sua hora. Por sua vez, a lâmpada se divertia dizendo que se conformasse, que a vida era daquele jeito mesmo, que ninguém fica para semente, que não estava autorizada a revelar a data e a hora exata da partida e por aí afora. Uma bela amizade telepática estava nascendo.

Quando a lâmpada já achava que finalmente tinha encontrado um amigo, a coisa degringolou. Na noite seguinte, a neta de seu José entrou no quarto para pegar os chinelos do avô. Ao apagar a luz, a menina notou o pisca-pisca frenético da lâmpada e gritou na hora para seo J.: “Vovô, essa é uma daquelas lâmpadas vagabundas que a companhia de energia distribuiu?” “É, minha filha, por quê?” “É que lá em casa essas porcarias também nunca apagam. Ficam piscando a noite toda!” Na mesma noite na hora de dormir, a lâmpada, magoadíssima por ter sido chamada de vagabunda e de porcaria, resolveu botar um fim naquele relacionamento. “Morrerás hoje, José Anhaia!”, disparou sem dó, a ofendida. “Anhaia?!” Respondeu seo J. assustado, “mas meu nome é José Divino!” A lâmpada emendou: “Desculpe, foi engano! Assombrei a pessoa errada!” E, sem dar mais explicações, ela parou para sempre de piscar e de teleprosear.

27 maio 2008

Ao contrário de seu trânsito, Sampa não pode parar

Com mais quilômetros de carros do que de vias, a capital paulista tem solução para o seu trânsito: utilizar a maior frota automobilística do continente como moradia. De quebra, também estaria liquidado outro sério problema da cidade, o déficit habitacional. Espaço a cidade tem de sobra, só é preciso demolir os milhões de imóveis residenciais que impedem as vias de passar livremente.

Mais imóvel que os imóveis
Morar no carro não seria tão ruim. A estado poderia extinguir, por exemplo, o IPVA na capital, já que o “V” do imposto refere-se à palavra “veículos” o que passa a idéia errônea de locomoção. Os carros paulistanos passariam a pagar IPTU, o imposto que incide sobre os imóveis. Esse tributo está tão desatualizado que na época em que foi criado os carros realmente andavam, inviabilizando a cobrança. Hoje, porém, eles costumam se mover menos que as balançadinhas das construções durante o último terremoto.

Em São Paulo, encontrar uma pessoa no trânsito é mais fácil do que achá-la em casa. Primeiro porque qualquer paulistano que ponha o nariz para fora de casa passa mais tempo no meio de transporte do que em casa. Depois, no caso de cobranças, é impossível falar com o morador em sua residência. Por outro lado, no trânsito de São Paulo, ele não tem para onde fugir e pode ser rapidamente localizado pelo motoboy cobrador. Caso o devedor não pague, o motoboy ainda leva o retrovisor como garantia.

Os endereços seriam práticos e diretos: “Monza preto, DTW 7903, trajeto Moema-Vila Carrão, Capital.” Sem casas de alvenaria, haveria mais espaço para mais carros ficarem parados no trânsito. Os donos de kitnets mudariam para um Fusca, os milionários trocariam suas coberturas por amplas Kombis motor-homes e a classe média sonharia em morar num Corolla Fielder dentro de um estacionamento fechado com portaria 24 horas.

A única construção residencial a ficar em pé seria a mansão de Nicolau dos Santos Neto. Impedido pela Justiça de enfrentar o trânsito infernal da cidade, Lalau é obrigado a se virar da melhor maneira que pode nos 18 hectares de sua propriedade. Ele poderia substituir sua casinha por uma limusine com piscina e ofurô, mas ele iria se sentir numa prisão, coitado!

08 maio 2008

Ronaldo e os travecos: mais um caso de comoção nacional

Após o desfecho entediante do caso Isabella, sem sangue, suicídio ou linchamento para ilustrar nossos meigos telejornais e dar conteúdo às nossas doces revistas semanais, eis um episódio que merece toda a nossa atenção e reflexão e que deve parar o Brasil por três meses: Ronaldozinho, o Feromônio, foi o primeiro craque brasileiro a trocar cachorras por pseudo-mulheres da vida.

O nosso ídolo foi encontrado com três travestis totalmente equipados com munição real e sem medo de usá-la. Os contratados afirmaram que o atleta demonstrou de maneira magistral a sua já famosa intimidade com a bola. Naldinho, por sua vez, disse ter dado pra trás assim que viu o grande problema em que se metera. Já os três vestis responderam que foi justamente ao perceber enormidade do problema em que fora metido que ele optou, por livre e espontânea vontade, em dar pra trás.

Ronaldo segue tranqüilo, ciente de que fez a coisa certa. Enquanto seres iningravidáveis, os travestis podem meter o jogador em muita saia-justa, mas jamais lhe meterão um DNA. As cachorras de plantão podem tirar seus ovulinhos da chuva e suas perseguidas da reta. Lucianta Gimenez está inconsolável, terá que sobreviver de programas intelectuais de auditório e da ridícula pensão de Mick.

O mais fabuloso dessa história é a revista Veja ter dado uma capa para discutir para que lado Ronaldo gosta de dar e a Globo ter conseguido uma exclusiva para ouvir o arrependimento e as dores provocadas pelas boladas. E o País se comoveu ao saber como seus ídolos se divertem e onde a imprensa vai buscar assunto para discussões tão cruciais para o destino da nação.

24 abril 2008

O equivocado despertar do Inconformismo

Era um país muito estranho. A democracia era tão grande que o povo elegia os seus próprios tiranos. Estes se revezavam no poder enquanto aquele só assistia tudo de longe entre uma eleição e outra. Os de cima fingiam defender o povo. Os da baixada faziam de conta não enxergar. Os do poder só governavam para manter o poder e a água quente de suas hidromassagens. Os do porão punham água suja em latões e na cabeça levavam. O Inconformismo continuava em seu hibernal sono profundo.

Os poderosos roubaram ambulâncias, construíram palácios, criaram impostos, desviaram dinheiro, tiraram vidas, mantiveram privilégios. O povo doente foi a pé aos hospitais falidos, construiu barracos, tapou buracos, juntou as sobras e na cabeça levou. O Inconformismo deu uma roncadinha e virou para o outro lado.

Os poderosos criaram uma guerra dentro do país. O povo ficou na linha de fogo. Chacinas viraram rotina. Granadas e balas cruzaram as cidades. O Inconformismo quase acordou com os tiros, esboçou um bocejo, mas voltou a ressonar.

Quando tudo estava dado por perdido e a Esperança já estava na sala de embarque do aeroporto, algo surpreendente aconteceu. Uma criança branca da classe média foi morta. Não pela guerra das ruas, mas por uma muito particular e mal resolvida. Dessa vez, num só movimento, o Inconformismo saltou da cama e correu para a rua.

Muitos que nunca haviam gritado na frente dos palácios em defesa da própria dignidade, tiraram o pijama, saíram de suas casas e foram à porta da delegacia só para gritar “assassinos” a dois desconhecidos condenados pelo senso comum.

Furibunda, a Sensatez, que nunca havia conseguido acordar o marido, olhou pela janela e berrou:

- Que raio você está fazendo aí fora?

Com a cara mais lavada do mundo, ele respondeu:

- Te troquei por outra!

A Sensatez morreu na hora enquanto o Inconformismo e a Incoerência se enlaçaram num beijo apaixonado.

18 abril 2008

Casas Abadia

- Menina você viu a promoção de cuecas das Casas Abadia?
- Que cueca que nada, o Amador que se vire com as dele, eu fui é atrás de uma plasma, mas saí foi com um prendedor de roupa da Nike fabricado na China. Quando eu entrei já não tinha nada que prestasse.
- Eu saí com duas cuecas Pierre Cardin que devem ser carérrimas na França! Fiquei até com dó de dar pro Nivaldo. É muita cueca para pouco recheio.
- É ruim, hein! Eu é que não agasalho aquela mixaria do Amador. Vou é esperar a liquidação da Maria do Pó, deve ter muita calcinha de responsa por lá.
- Sério? Me avise que eu vou também, as minhas estão com mais rombos que a Previdência! E o Nivaldo que encasquetou que quer o saca-rolha do Cafofo do Reitor, pode? Eu é que não vou pra Brasília só para comprar um saca-rolha, né? Ele que espere a promoção do Rombo da Unifesp pra ver se sobra um por lá.
- Você já faz demais pro seu marido, se eu fosse você, mandava ele se virar com um abridor elétrico de lata do Nando Beira Mart.
- Eu vi um desses no shopping outro dia. Quase comprei.
- Você tá louca? Os preços de lá são um crime!

11 abril 2008

Terceirização de mentes

Querido brasileiro, vai aqui uma ajuda para você administrar melhor essa massa gosmenta e subutilizada guardada dentro de sua cachola, o cérebro. Não é de hoje que você terceiriza suas faculdades lógicas por comodismo, negligência ou pura preguiça. O que me incomoda, no entanto, não é a terceirização em si, mas os valores aviltantes que estão cobrando por ela. Há várias maneiras de deixar os outros pensar por você, por isso pelo menos pechinche na hora de escolher quem vai tomar as suas decisões. Veja aqui algumas das milhares de alternativas de terceirização cerebral. Pense bem e escolha a sua. Ou melhor, deixe que outra pessoa pense, apenas escolha a mais barata!

Igrejas

Preço: de 10% a 100% dos seus rendimentos

O serviço de salvação de almas é um dos mais dispendiosos para administrar a sua cabeça. O problema é que a maioria das denominações religiosas pratica a venda casada: só salva sua alma se você abrir mão de pensar por si. Muitas se baseiam numa alegada incompatibilidade fé x raciocínio, entendendo-se por fé a crença cega em tudo aquilo que a autoridade religiosa disser que é verdade.

Por esse motivo, a maioria delas também pratica outra irregularidade comercial, o monopólio da verdade. Como esse monopólio é o único praticado por várias empresas simultaneamente, o CADE não toma providências a respeito

Televisão

Preço: Obesidade, letargia, perda de capacidade analítica e de julgamento

Eis uma máquina perigosa. Se você ficar na frente dela por muito tempo vai notar (ou melhor, não vai nem perceber) que suas roupas, seu cabelo, seu almoço, seu modo de agir, suas gírias e até o seu ponto de vista saíram de dentro dela. Você já se sentiu inconformado com um escândalo de dossiês sem nem saber o que é um dossiê? A TV já dominou a sua mente. Já sentiu aquela inexplicável compulsão por uma blusa lilás? Dê uma olhada nos trajes da heroína da novela das sete. Você acha que o carro dos seus sonhos foi escolhido por você? Pare de assistir comerciais e o seu gosto vai mudar rapidinho.

Formadores de opinião

Preço: Injustiças civil e social, submissão e conformismo. País em posição de decúbito ventral.

Essa entidade amorfa e nebulosa que atende pelo nome de “formadora de opinião” faz exatamente o que o seu nome diz. Ter uma opinião própria exige um esforço mental descomunal para a maioria dos cidadãos desta terra. A solução mais prática é comprar uma opinião pronta. Sim, comprar. Ao contrário do que a maioria da população acredita, pegar a opinião alheia não sai de graça.

Escolher em quem votar, discernir o que você considera justo ou injusto e criticar informações em vez de absorvê-las são tarefas que não cabem mais a você, mas aos seus formadores de opinião. Políticos demagogos, donos de jornais e revistas, seus amigos e até o seu cunhado chato podem assumir o controle de suas decisões. Você nunca se perguntou por que aqueles que dizem representar você no Legislativo nunca defendem os seus interesses? Simplesmente porque eles estão trabalhando para os legítimos donos da sua opinião.

Você não quer mais ser explorado? Não existe milagre, terceirização sai caro mesmo. Avise seus contratados que você não precisa mais de seus serviços. Vai dar mais trabalho? Claro que sim. Agora você vai ter usar o livre arbítrio e tirar a bunda do sofá. Quando paramos de comer em restaurante, temos que começar a cozinhar em casa. Prepare a sua própria informação. Não aceite NADA pronto. Analise, julgue, debata e... pense! Isso dói menos do que você imagina. Você vai ver que a opinião feita em casa, dentro de sua própria caixa craniana, cheira melhor e é bem mais saudável.

Lição de casa

Dê uma espiadela na Argentina. O grau de autonomia intelectual também pode ser medido pelo número de panelas chacoalhadas nas ruas sempre que há uma decisão pública contra os interesses da maioria. Não foi na TV que os vizinhos do sul aprenderam que bater nas panelas é um modo de botar feijão dentro delas.

27 março 2008

Disque-Pentágono lidera reclamações no Procon

O setor de delivery do Pentágono (a Delegacia de Polícia do Mundo) acabou de descobrir um pequeno engano. Há um ano e meio, seus motoboys entregaram em Taiwan quatro detonadores de mísseis nucleares em vez da encomenda original: baterias de helicópteros. O erro só foi descoberto agora quando o garoto da entrega leu o recibo, coincidentemente, apenas um dia após a eleição em Taiwan de um presidente pró-China.

Um bilhetinho de desculpas foi enviado da Casa Branca ao novo presidente: “O senhor poderia por gentileza, nos devolver os detonadores? Estão na segunda gaveta do criado-mudo presidencial, atrás da caixa de lencinhos umedecidos. Se não for incômodo, é claro, e se não for mais usá-los em Pequim. Certo da compreensão, seu amigo, George. PS: Parabéns pela vitória.”

Enquanto isso, numa creche em Bagdá, marines tentavam há dezoito meses acionar quatro mísseis nucleares com baterias de helicóptero. Teerã escapou por pouco. E essa não foi a primeira reclamação contra o Delivery Pentagon. Há poucos meses, uma senhora que serve café no palácio presencial em Caracas recebeu pelo correio um lança mísseis terra-ar com meia-dúzia de projéteis. “Eu pedi apenas uma ampola de cianureto para eu diluir no café”, reclamou, “como eu vou entrar com esse trambolho na cozinha?” gritava ela enquanto chutava o equipamento bélico.

Para evitar mais trapalhadas, o Pentágono vai terceirizar os serviço de entregas para o Delivery Habib’s que além de ter trânsito livre no mundo árabe, não cobra o serviço se demorar mais de 28 minutos.

25 março 2008

Cafetinagem brasileira ensina sacanagem a políticos dos EUA

Deu no New York Times, na New York City e pro governador do New York State - O Brasil finalmente começa a exportar um produto abundante e de alto valor agregado, o proxenetismo. Também conhecido como cafetinagem, o proxenetismo nada mais é do que a administração de proxenecas ou proxecas com fins comerciais. Essas verdadeiras minas de ouro jamais receberam a devida atenção dos MBAs de Harvard e coube ao maduro e avançado mercado brasileiro da sacanagem administrar as perseguidas ianques.

O empresariado tupiniquim acertou em cheio ao oferecer seus serviços nos EUA ao ramo irmão da sacanagem, a política. Ao contrário do Brasil, os Estados Unidos ainda separam (oficialmente) a política da sacanagem. O que os proxenetas brasileiros fizeram foi mostrar aos políticos americanos que aquilo que eles fazem com as prostitutas não é muito diferente do que costumam fazer com o povo. O governador de Nova York entendeu bem essa lição, mas o povo não. Enciumada por perder sua posição para prostitutas de luxo, a população corneada pediu a renúncia do governador.

Mas como punir alguém por fazer na privada o que sempre fez na vida pública? Imbuído dessa lógica, o novo governador de Nova York assumiu o cargo abrindo o jogo, “já chifrei, fui chifrado, fiz swing, suruba e furunfei na praia com a Cicarelli”, disse ele em seu discurso de posse. O governador do estado de New Jersey também entrou na onda. Afirmou em coletiva que fez ménage com a própria esposa e o seu motorista particular. A esposa pediu separação e o motorista ganhou projeção e experiência para iniciar sua carreira política.

Graças ao trabalho dos proxenetas do Brasil, a política americana está se tornando mais sincera, menos sisuda e muito mais gozada. O proxenetismo exportado ainda contém mecanismos de auto-perpetuação. Os políticos engravidam as prostitutas que dão à luz novos politiquinhos ainda mais hábeis na arte de sacanear. Eles, por sua vez, crescem e pegam o povo e as prostitutas que embucham e perpetuam a espécie e a pouca vergonha não tem mais fim. Se alguém ainda duvida da eficiência do sistema, há um showroom na América do Sul que funciona há mais de 500 anos! Esqueça o café. Nossa vocação é a cafetinagem!

11 março 2008

Bento lança sua nova coleção de pecados primavera-verão 2008

Das passarelas de Milão para os confessionários de Roma – Bento XVI, papa e estilista espiritual do IV Reich, acaba de lançar sua coleção de pecados 2008, muito mais moderna e alinhada às tendências deste início de século. O Diário da Tribo traz em primeira mão esses pecaminosos lançamentos que você vai encontrar numa paróquia perto de você.

Manipulação genética – Esse pecado tem tudo a ver com você que é antenado na ciência moderna. Se você for do tipo manipulador, fique longe do DNA da soja, da batata e dos embriões em tubos de ensaio. Mexer com isso é brincar de Deus e só Deus brinca de Deus. Um dos objetivos com o lançamento desse pecado é evitar que o ser humano interfira no processo evolutivo de seleção natural no qual a Igreja Católica não acredita. A imprevisibilidade dos resultados é outro argumento eclesial contra a manipulação dos genes. Bentão acha importante para a humanidade que a batata continue sendo batata e que a soja permaneça em seu estado sojal enquanto ela mesma até que Deus determine o contrário.

Uso de drogas – Esse traz um tom pastel de nostalgia e chega meio atrasado, no mínimo umas quatro décadas. Apresenta contornos rebuscados e deixa questões em aberto. Essa coleção inclui somente as drogas ilícitas*? Se assim for, Deus está descaradamente tomando partido na velha disputa maconha X cigarro e estendendo as fronteiras do Céu ao mundo de Marlboro. Dar um tapinha na macaca é passagem para o inferno, mas morrer com o santo enfisema pulmonar do tabagismo é o destino dos mártires da nicotina.
E se o critério é proibir só as drogas nos deixam doidões, o álcool também vai entrar na dança? Ou os católicos continuariam na graça se bebessem abaixo dos limites permitidos por lei? Poderia o confessor aplicar o bafômetro eclesial no confessante? E se o álcool em geral for enquadrado nesse pecado, não seria de bom tom Bentão lançar um novo dogma para atestar que Jesus só bebia vinho sem álcool e mudar os fornecedores da bebida da santa missa? (Conselho: comece a comprar ações da Maguary!)
* Desconsiderar a Holanda

Desigualdade social – O mais chique de toda a nova coleção, o Pecado da Desigualdade Social é um verdadeiro presente aos brasileiros que se sentiam injustiçados. Os multimilionários tupiniquins conseguiram comprar todo o Congresso brasileiro para evitar as leis que pudessem prejudicá-los, mas vão acabar caindo na malha-fina do Todo-poderoso graças a esse maravilhoso lançamento de Bento XVI. Com esse pecado, assim que baterem as botinhas Pradas, os ricaços vão ter que explicar para São Pedro por que o salário de seus empregados eram mais baratos que a gasolina aditivada de seus Mercedes. Bento ainda não explicou se o pecado retroage para os pecadores que morreram antes de sua promulgação nem se a desigualdade social será medida comparando-se índices globais ou nacionais. Este último item é crucial uma vez que ele mesmo calça sapatos Prada e anda de Mercedes.

Poluição ambiental – Feito de antigos pecados 100% reciclados, essa violação coloca a Igreja Católica na onda verde. Você joga papel pela janela do carro, não recicla o seu lixo e descarta óleo velho no ralo da pia? Já estava mesmo na hora de você ir para o inferno. É exatamente isso que o pecado da poluição ambiental vai trazer para você! Todavia, a Santa Sé precisa dizer se vai considerar o uso de catalisadores nos automóveis e de vasos sanitários econômicos como atenuantes das penitências. Também é necessário esclarecer se uma pessoa terrivelmente feia será considerada uma poluidora visual sem esperança e, portanto, um pecador imperdoável o que abriria a primeira exceção na até hoje universal misericórdia divina.


Há sempre um pecado que combina com você. Escolha o seu!
Ou seja original: apenas nasça e o pecado de Eva e Adão será seu inteiramente grátis!

06 março 2008

Mulher – Manual de Preservação da Espécie

Queridos leitores, este texto foi feito a pedido da Mônica Waldvogel durante o programa Saia Justa, GNT, pegando o gancho do Dia Internacional da Mulher. Ela pediu a colaboração para a elaboração de um manual sobre a mulher.
Como as mulheres estão desaparecendo aos poucos, a tradicional consciência ecológica do Diário da Tribo me fez lançar uma campanha de preservação muito mais importante que a do mico-leão-dourado, do tubarão branco ou da baleia azul.
"Salvem as Mulheres!"
Participe preservando a sua!

Mulher – Manual de Preservação da Espécie
Fábio Reynol

O desrespeito à natureza tem afetado a sobrevivência de vários seres e entre os mais ameaçados está a fêmea da espécie humana. Tenho apenas um exemplar em casa, que mantenho com muito zelo e dedicação, mas na verdade acredito que é ela quem me mantém. Portanto, por uma questão de auto-sobrevivência, lanço a campanha “Salvem as Mulheres!”. Tomem aqui os meus parcos conhecimentos em fisiologia da feminilidade a fim de que preservemos os raros e preciosos exemplares que ainda restam:

Habitat
Mulher não pode ser mantida em cativeiro. Se for engaiolada, fugirá ou morrerá por dentro. Não há corrente que as prenda e as que se submetem à jaula perdem o seu DNA.
Você jamais terá a posse de uma mulher, o que vai prendê-la a você é uma linha frágil que precisa ser reforçada diariamente.

Alimentação correta
Ninguém vive de vento. Mulher vive de carinho. Dê-lhe em abundância. É coisa de homem, sim, e se ela não receber de você vai pegar de outro. Beijos matinais e um “eu te amo” no café da manhã as mantém viçosas e perfumadas durante todo o dia. Um abraço diário é como a água para as samambaias. Não a deixe desidratar.
Flores também fazem parte de seu cardápio. Mulher que não recebe flores murcha rapidamente e adquire traços masculinos como rispidez e brutalidade.
Pelo menos uma vez por mês é necessário, senão obrigatório, servir um prato especial. Música ambiente e um espumante num quarto de hotel são muito bem digeridos e ainda incentivam o acasalamento o que, além de preservar a espécie, facilitam a sua procriação.

Respeite a natureza
Você não suporta TPM? Case-se com um homem. Mulheres menstruam, choram por nada, gostam de falar do próprio dia, discutir a relação... Se quiser viver com uma mulher, prepare-se para isso.
Não tolha a sua vaidade. É da mulher hidratar as mechas, pintar as unhas, passar batom, gastar o dia inteiro no salão de beleza, colecionar brincos, comprar sapatos, ficar horas escolhendo roupas no shopping. Só não incentive muito estes últimos pontos ou você criará um monstro consumista.

Cérebro feminino não é um mito
Por insegurança, a maioria dos homens prefere não acreditar na existência do cérebro feminino. Por isso, procuram aquelas que fingem não possuí-lo (e algumas realmente o aposentaram!). Então, agüente mais essa: mulher sem cérebro não é mulher, mas um mero objeto de decoração.
Se você se cansou de colecionar bibelôs, tente se relacionar com uma mulher. Algumas vão lhe mostrar que têm mais massa cinzenta do que você. Não fuja dessas, aprenda com elas e cresça. E não se preocupe, ao contrário do que ocorre com os homens, a inteligência não funciona como repelente para as mulheres.

Não confunda as subespécies
Mãe é a mulher que amamentou você e o ajudou a se transformar em adulto. Amante é a mulher que o transforma diariamente em homem. Cada uma tem o seu período de atuação e determinado grau de influência ao longo de sua vida. Trocar uma pela outra não só vai prejudicar você como destruirá o que há de melhor em ambas.

Não faça sombra sobre ela
Se você quiser ser um grande homem tenha uma mulher ao seu lado, nunca atrás. Assim, quando ela brilhar você vai pegar um bronzeado. Porém, se ela estiver atrás, você vai levar um pé-na-bunda. Aceite: mulheres também têm luz própria e não dependem de nós para brilhar. O homem sábio alimenta os potenciais da parceira e os utiliza para motivar os próprios. Ele sabe que preservando e cultivando a mulher, ele estará salvando a si mesmo.

Salvem as mulheres! Uma campanha do Diário da Tribo sem o apoio do Greenpeace nem do WWF.
http://www.diariodatribo.com.br/

03 março 2008

Socialaites na hora do chá

- Menina, não sei o que eu faço com o Júnior. Esse menino está impossível.

- O que aprontou o seu capetinha?

- Arrebentou o carrinho novo que eu tinha acabado de comprar pra ele.

- Faça como eu, diga-lhe que nada de Miami no fim de semana, deixe-o de castigo na ilha em Angra.

- E o carrinho, menina! Tão bonitinho, ficou todo arrebentado!

- Você tem que ser dura com ele, deixe-o um dia inteiro sem presentes.

- Já fiz. Não adiantou. É o terceiro carrinho só este ano.

- Mas então não é tão mal assim. Você já compra um carrinho por mês pra ele...

- É que desta vez ele passou dos limites, ele acabou também com um postinho de gasolina.

- Esse menino está se tornando um sapequinha, não? Bem, pelo menos ele não é como o meu Mauricinho, que adora bater nos outros.

- Ah, não, isso o Júnior não faz. Nunca bateu em ninguém. Só atropelou. Quando destruiu o postinho, ele passou por cima de um frentista, você precisa ver o estado em que ficou o carro! Era novinho, novinho...

- Acho que o problema do seu filho são as más companhias. Fale pra esse sair com o meu Mauricinho. Ele já combinou com os amigos de espancar umas prostitutas e queimar alguns mendigos neste fim de semana, vou pedir para ele convidar o Júnior.

- Ah, isso vai ser ótimo, amiga. Porque o importante nessa vida é construir amizades e mostrar às crianças o valor das coisas... Esses carrinhos não saem de graça!

21 fevereiro 2008

As sete maravilhas da corrupção moderna

Elas podem não ser nenhuma maravilha, mas são nossas e estão pagas e superfaturadas graças ao suado dinheiro de cada brasileiro (com exceção dos que as construíram).

Brasília
O solo sagrado do planalto central brasileiro foi escolhido para assentar a maior metrópole mundial dedicada à corrupção. Superfaturada desde os seus primórdios sob as ordens do faraó JotaKamón, Brasília foi tão bem arquitetada que até hoje nenhum homem honesto conseguiu governar em seus palácios. Concebida originalmente sem esquinas, Brasília não permite jamais que a falcatrua encontre a punição nem que o povo encontre a justiça. Esse verdadeiro patrimônio da humanidade tombado pela Unesco é mantido pelo patrimônio dos brasileiros que vivem na desumanidade.

Prédio do TRT de São Paulo
Construído pelo imperador Lalau, o Liberto, no fim do século XX, essa magnífica obra custou o equivalente a quatro Dubai Al Arab, o hotel mais luxuoso do mundo. Feito em honra ao deus romano Larapius, utilizou mão-de-obra semi escrava com contratos que davam para pagar 532 PhDs de Harvard como mestres de obra. Lalau foi mandado às masmorras por causa da construção, mas permaneceu lá por pouco tempo. Acabou encarcerado em seu próprio palácio de 20 hectares, onde é torturado 24 horas por dia entre uma partida de tênis e uma duchada na Jacuzzi.

O Propinoduto
Orgulho da engenharia brasileira, esse duto levou toneladas de dinheiro vivo do Rio de Janeiro até à Suíça. Fiscais corruptos o projetaram de maneira que ele pudesse ter uma vazão maior que a Bacia do Amazonas. Ao contrário dos oleodutos da Petrobras, o Propinoduto jamais vazou um centavo de seu conteúdo, mesmo atravessando o Atlântico diagonalmente de ponta à ponta. É ou não é de se tirar o chapéu?

O Valerioduto
Obra do conselheiro Marcus Valerius, o Flagelo dos Justos, esse duto alimentou uma multidão de deputados, senadores, ministros e altos funcionários do império durante mais de uma década. Sua mais admirável característica foi o seu gigantesco alcance. Atingiu políticos de todos os partidos sem fazer distinção de cor, credo ou legenda. A obra alimentou diretamente o maior setor comercial brasileiro, o da compra de deputados e senadores.

O Buraco do Serra
Maior canyon urbano do mundo, o Buraco do Serra tornou-se a grande atração turística da cidade de São Paulo. O mais impressionante é que a cratera de 30 metros de profundidade foi feita sem a ajuda de nenhum grama de dinamite. Com isso, o buraco inaugurou uma nova técnica de demolição que, no lugar de explosivos, utiliza um serviço superfaturado, mal fiscalizado e de quinta categoria. Apesar do nome, emprestado do governador da época, a obra foi iniciada pelo antecessor Geraldus Alckmins um especialista na arte de gerar rombos de grandes diâmetros.

O Túnel do Maluf
Todas as vezes que você passar pelo túnel Ayrton Senna em São Paulo, sinta orgulho de ser brasileiro. O metro construído à sua volta custou 50% a mais que o Eurotúnel que passa sob o Canal da Mancha e liga a Inglaterra à França. Só para se ter uma idéia, com o valor dessa megaconstrução sob o Parque do Ibirapuera daria para transformar o Tietê num rio propriamente dito, formado apenas por água e peixes.

O Palace 2
É a única aberração do mundo que virou pó sem a ajuda de um terremoto. Construído no Rio de Janeiro como castelo de areia, o Palace 2 foi vendido como obra de alvenaria sólida com a finalidade de servir de habitação humana. Seu construtor, o deputo-empreiteiro Sérgio Canaya chegou a receber uma proposta de contrato com a multinacional Al Qaeda interessada na técnica de Canaya que não utiliza aviões na demolição de torres.

15 fevereiro 2008

Salve o planeta: troque oito dimenores por uma criança

Consternado leitor, não sei se o Jornal Nacional já lhe avisou: o mundo está sendo destruído. É isso mesmo. E o culpado disso é o homem (não aquele de barba e turbante), mas esse aí que está sentado no seu sofá, minha senhora, enquanto a senhora navega pela internet para ser informada de que o mundo está acabando. Porém, bem diferente de seu concorrente televisivo, o Diário da Tribo não só informa a tragédia, mas também dá a solução para essas fezes que solaparam e revestiram nosso meigo planeta.

Aos fatos.

As crianças dos países ricos
Equivalem aos chamados “dimenores” dos países pobres, mas devido à região onde nasceram e ao complexo alimentar nutritivo que receberam, elas ganharam o título de “crianças”. De fato, crianças e dimenores são tão diferentes entre si quanto é o Real da Libra Esterlina. Explico: uma criança dos nacos ricos do mundo polui o mesmo montante que oito dimenores terceiromundistas. Elas vão oito vezes mais ao shopping, à escola e ao Mac Donald’s - talvez por causa deste último elas também defequem oito vezes mais, o que explica a montanha de fraldas oito vezes mais alta do hemisfério norte.

A solução:

A venda de Créditos de Criança
Os especialistas do Diário da Tribo propõem que as famílias dos países endinheirados enviem seus rebentos para serem criados nos países periféricos. Em troca, esses casais ricos receberiam oito Créditos de Criança, ou seja, o direito de poluir o equivalente a oito dimenores. A criança rica seria absorvida por um casal periférico do hemisfério sul, o qual deixaria de produzir oito dimenores e ainda se comprometeria a conter as emissões de carbono do novo pequerrucho.

Para que as famílias cá de baixo parem de fazer dimenores, as mulheres tomariam um anticoncepcional barato e abundante, a água de Campinas. A cidade paulista tem altos teores de hormônio feminino em seu precioso líquido (não minto). Essa descoberta recente explicou por que os homens da cidade têm a voz mais fina, desenvolvem seios e são campeões costumazes de concursos de alegoria e adereços. A progesterona encanada campineira vai ajudar mulheres de todo o mundo subdesenvolvido a não gerar dimenores e ainda transformar a cidade na maior estância hidrohormonal da América Latina (ela ainda perderá para São Francisco).

As pipas e os brinquedos de material reciclável vão substituir os videogames e os eletrônicos chineses de última geração. As roupinhas Huguinho Boss, os tenisinhos Nike, as jaquetinhas Adidas e as golinhas pólo Lacoste dariam lugar a uma prática e versátil tanguinha que seria arriada na hora do aperto e o subproduto infantil enterrado na hora, poupando fraudas plásticas biodesagradáveis e ainda fertilizando o solo.

Aos 18 anos de idade, as crianças seriam devolvidas aos seus países de origem e contribuiriam para a paz mundial. Subnutridas e raquitiquizadas, elas não teriam condições de ser empregadas em invasões no Oriente Médio, Ásia Central, África Subsaariana nem em qualquer outro show room da indústria bélica mundial.

Contribua para salvar o planeta: você, do subsolo do mundo, substitua seus oito dimenores por uma criança! Você, da cobertura triplex com vista pra tragédia global, mande sua criança pro país que não a pariu!

07 fevereiro 2008

As pessoas mudam... de sexo

Poucos vão se lembrar, mas no tempo dos nossos avós (acho que bisavós), as pessoas nasciam com o sexo definido. Eram chamados de “meninos” os que vinham com bibius e de “meninas” as criaturas que saíam do forno com a pélvis rachadinha. Tempos tranqüilos aqueles em que o só havia o branco e o preto, o côncavo e o convexo, o masculino e o feminino. Hoje, as matizes do arco-íris vão do rosa-fúccia ao azul-esmeraldado e com uma ajudinha da ciência e das bebidas light e diet o número de sexos multiplicou-se assustadoramente. Você já tentou explicar para uma criança a diferença entre um gay, um travesti, um transexual e um metrossexual? Cuidado: se você falar que o metrossexual é um homem, poderá atingir de frente o conceito que seus avós tinham desse sexo.

A forma não tem mais nada a ver com o conteúdo e mudar de um sexo para outro passou a ser um esporte popular em todo o mundo. “Nasci mulher, mas no corpo de um homem. Operei! Hoje sou uma mulher no corpo vaginado de um ex-homem.” Em formulários serão comuns os campos: “Sexo: ‘masculino’. Desde quando? ‘Uns oito meses, comecei a sair com a Marli e acabei gostando da coisa...’”

Para os nascidos homens (conceito clássico) é interessante a mudança para o sexo feminino em vários aspectos. A licença maternidade é bem maior que a da paternidade, a aposentadoria pode ser feita mais cedo e as partes anatômicas extirpadas podem contribuir para a redução da fome mundial.

Já para os indivíduos tradicionalmente catalogados como mulheres, a mudança para ala dos machões também pode ser bem vantajosa. Nas sociedades machistas pós-modernas, é bem capaz que um neo-homem receba aumento de salário somente por ter avolumado a sua região pélvica. Além disso, a fabricação de milhões de próteses biláuvicas vai alavancar a indústria da reciclagem de lixo. Imagine a admiração da(o) parceira(o) ao usufruir do longue-dongue reciclado: “Querido, essa garrafa PET jamais proporcionaria tanto prazer se fosse prum aterro sanitário!”

Para os vestibulandos é um drama a mais. Além de terem de optar por uma profissão antes dos vinte anos, eles têm também de escolher o sexo em que irão atuar até terem grana para a próxima cirurgia. “Dúvida cruel: não sei se quero ser um advogado ou uma arquiteta!” Nos adolescentes, a mudança repentina de sexo está provocando conflitos familiares como faziam as tatuagens nos tempos da vovó. “Qualé, pai? Você sempre me deixou ficar até altas horas na balada!”, grita a garota, “Isso era no tempo em que você era menino, minha filha!”

Em nossos tempos modernos poucas coisas nos assustarão no campo da sexualidade. O pansexual conquistará em breve o direito de se casar com uma samambaia, o zoófilo terá autorização do IBAMA e conivência do Greenpeace para montar seu harém de seriemas, catetos e marrecas e o cidadão comum vai poder deixar em branco o campo ‘sexo’ de sua carteira de identidade e optar pelo que lhe for mais conveniente (ou prazeroso) a cada momento. Mas ainda haverá aquele terrível momento em que o filho entra na sala para fazer a mais bizarra das revelações: “Papai! Mamãe! Eu sou heterossexual!”

“Onde foi que erramos, meu Deus?!?!?”

01 fevereiro 2008

Inacessível mundo novo

Um triboleitor me perguntou se quando eu enricar ele vai continuar podendo ler meus textos de graça. Respondo plagiando aquele cara que nunca se hospedou num hotel cinco estrelas: “as melhores coisas da vida são de graça”.

Inacessível mundo novo

É pura sorte nossa termos nascido numa época tecnologicamente atrasada. Chegará o tempo em que engarrafarão a luz do sol, venderão brisa com cheiro de mato e MP30 com trinados de pássaros. Quem usar a lua em poesia pagará royalties à NASA e o gajo que assobiar canções no trânsito receberá multa por infração de direitos autorais. Haverá pedágios para quem entra e para quem sai deste mundo, com visto de permanência provisório emitido por autoridade cobradora competente e renovado periodicamente, mediante módicas tarifas.

Quem viver pagará aluguel por chamar de casa este planeta. Pagará por pisar na terra e por respirar seu valioso oxigênio. Pagará por cada miligrama de O2 inalado e de CO2 exalado. Os puns motivarão processos indenizatórios por atentado à película de ozônio, que um dia fora uma grossa camada. As palavras serão patenteadas e terão de ser escolhidas com cuidado para não gerarem expressões famosas consagradas em hinos e canções, se isso acontecer o direito de pronúncia atingirá valores estratosféricos. Tudo terá seu preço, mas nada será tão caro quanto a água. Banho será privilégio de super-ricos e os demais terão de se virar com uma lavagem a seco. O cubo de gelo valerá mais do que o uísque doze anos à sua volta e os pingos de chuva ácida serão disputados a tapa.

Aquele que achar bonita uma poesia, guardará o fato para si, sob o risco de ter de pagar tarifas admiratórias. Bem poucas áreas estarão livres do alcance dos preços e o que não for taxado, será tarifado ou negociado em bolsa. Ficará tão caro existir que muitos já nascerão penhorados. Os mais feios terão a sorte de virar atração de circo e serão mantidos e alimentados pela indústria do entretenimento. Os mais fortes servirão de força motriz nos lugares que forem insalubres demais para os robôs. Aqueles que não tiverem nada de útil a oferecer passarão a vida comendo capim e tomando purgante para fornecer esterco para a agroindústria.

E pensar que tudo começou com um pedágio na Anhangüera...

Bem, meu amigo, num mundo assim, um texto meu será a última coisa que você vai querer pagar.
Ou não.
Um abraço gratuito, sem frete nem custo adicional!

25 janeiro 2008

Vaquinha TetraPak

Vaquinha TetraPak
Fábio Reynol

Para as crianças da cidade
a vaca se chama TetraPak
e tem tetas de papelão.
O tomate é fruto do quitandeiro
e a alface brota na Kombi do verdureiro.
O atum é irmão da sardinha
e os dois nascem dentro da latinha.
Frango é um bicho sem pena nem cabeça
que nunca ciscou nem fez porcaria
e que só sabe ficar rodando
na porta da padaria.
Coxas e asinhas não são dele.
Foram feitas pela Sadia.
Os ovos nascem de doze em doze
filhos das caixas de papelão
que os pintam da cor da fábrica:
branco, bege ou marrom
O figo nasce dentro do plástico
e a jabuticaba nunca teve gosto de árvore.
Morango é invenção da Danone,
melancia é sabor de chiclete
pois a grandona é fruta falsa.
Tutti-frutti foi feito por Deus
e a fruta preferida é Sonho de Valsa.
Em seu mundinho azulejado,
o céu tem sanca de gesso
e o chão é todo asfaltado.
Elas andam sem pôr o pé no chão
por isso não têm bicho-de-pé,
só minhoca na cabeça.

19 janeiro 2008

Do Baú da Tribo: Os pênis de Magé

Essa é de janeiro de 2005 e nunca foi ao ar. Trata-se do intrigante caso do sumiço peniado do município de Magé (RJ). A prefeita recém-empossada não conseguiu consumar o seu primeiro ato no poder porque os dois bilaus oficiais não haviam comparecido ao trabalho. Eles haviam sido desviados e estavam metidos em esquemas escusos e envolvidos na maior sacanagem política já registrada fora de Brasília.
O caso tornou-se um exemplo de como a vontade política faz as coisas acontecerem neste País.
Divirta-se:

Onde foi que eles se meteram?
O misterioso caso do sumiço dos pênis de Magé

É pau, é pedra, é o fim da picada... A recém-empossada prefeita de Magé (RJ), Núbia Cozzolino, detectou um enooooorme desfalque no patrimônio público da cidade, assim que assumiu o cargo. Mais precisamente, 27 centímetros em pênis de borracha estavam faltando no sex-almoxarifado municipal.

Os dois bilaus, de 15 e 12 centímetros, eram exaustivamente utilizados em aulas de orientação sexual da antiga gestão. Ambos foram adquiridos na insinuante cor marrom bombom e eram suspeitos de manter outro emprego fora da prefeitura.
Fotos dos desaparecidos foram estampadas pela cidade em outdoors e em caixinhas de leite longa vida sabor chocolate. Mas o máximo que a prefeitura conseguiu com a campanha foi aumentar o consumo de leite na comunidade gaúcha de Magé.

Porém, bastou a nova prefeita ameaçar com uma CPI do Bráulio, para o vereador Darcizinho – com o Cozzolino na mão – sair à caça dos fugitivos. Em sua árdua tarefa de descobrir onde a dupla se meteu (ou foi metida), o pequeno Darci achou-os enfiados na sala de psicologia do Posto Municipal de Saúde. De lá, eles foram transferidos imediatamente ao gabinete da prefeita, onde permanecem sob observação e recebem cuidados intensivos.

Bibius achados, Cozzolino feliz - Os modelos penianos voltarão a entreter a municipalidade ao acompanhar uma réplica do tipo vaginal nas aulas educativo-sexuais da prafrentex administração de Magé. A prefeitura fez questão de informar que possui pênis e vaginas, mas não mantém réplicas de cozzolinos, já que o município tem uma administração espada.

O Diário da Tribo adverte: Cozzolino de bêbado, não tem dono, mas os bráulios de Magé têm!
www.diariodatribo.com.br

09 janeiro 2008

V de "Vai levar chifre"

Hillary reage ao avaliar as prévias dos candidatos a estagiários da Casa Branca.


O pimpolho Bush Júnior inaugurou a onda de revanchismo imperial contra os inimigos dos países do eixo do bem...endinheirados. Se eleita, Hillary manterá a tradição vingativa da Casa Branca lançando uma cruzada contra o seu maior inimigo, o Plinton de Bill, um eixo que já fez mal a muita estagiária!

Em seus oito anos de mandato, Clinton meteu os pés pelas mãos, as línguas pelas orelhas e peças anatômicas improváveis em orifícios indizíveis, faltanto apenas uma sodomia com camelos marroquinos e um banquete com anões bezuntados para o estadista se igualar ao imperador Calígula. Suas orgias chacoalharam o Salão Oral da Casa Bacanal. Em todo o seu reinado, nunca lhe faltou nheco-nheco. Quando as estagiárias se foram, vieram substitutos ainda mais dedicados como Tony Blair. Em suma: foi um presidente feliz.

Seu sucessor, no entanto, acometido por uma grave abstinência sexual que o atormenta desde que saiu do seminário, extravasa seus recalques bombardeando os vizinhos e ainda criou a campanha "Bombardear, sim! Bimbar, nunca!" Ganhou com isso uma cara de lombriga enrugada e uma atrofia cerebral.

Mas Plinton não escaparia impune por quebrar o monopólio que Hillary detinha nas relações com o chefe do chefe de governo. O futuro primeiro-damo do planeta deverá pagar com a própria testa por aquelas memoráveis noites de serão. A nova presidenta já prepara o seu plano maquiavélico. Seu primeiro ato ao assumir a presidência será a contratação de um estagiário gostosão e sarado direto das areias de SOS Malibu. (Na foto acima, a carinha de felicidade dela). Já o seu segundo ato será o sexual.

Cada Plinton terá o Mônico que merece!

07 janeiro 2008

No Cafofo de Jesus

Devido a problemas de ordem transcendental publicamos este emocionante documentário com um pouco de atraso. Mas não deixemos o peru esfriar, porque é sempre tempo de Natal...

No Cafofo de Jesus

A história de que Jesus nasceu no Oriente Médio é mais uma fraude da indústria cultural norte-americana para exercer sua influência naquela região dominada pelo islamismo. Especialistas ouvidos pelo Diário da Tribo descobriram a verdadeira terra natal de Jesus: o nosso verde-amarelado Brasil. É o que diz a quituteira Balbina Salgado e Doces, especialista em músicas e acepipes natalinos: “A letra da canção é clara: ‘pobrezinho nasceu em Belém’”, revela a merendeira. Foi por isso que fomos parar no Pará, terra na qual entre um pé de açaí e outro de cupuaçu Deus desceu seu rebento ao mundo.

Nossa expedição partiu de Nazaré, bairro onde Maria - a mãe do menino deus - nasceu, e percorreu todo o trajeto que ela fez grávida ao lado de José e no lombo de um jegue até o local do nascimento de Jesus. As dificuldades enfrentadas pelo casal são mais uma prova de que o local onde tudo aconteceu foi realmente o Brasil. Sem plano de saúde, os dois não encontraram leito em nenhuma maternidade devido à velha conhecida superlotação dos hospitais públicos. Para piorar, por causa de um overbooking nos hotéis e pensões da cidade, eles ficaram sem nenhum teto para se abrigar. E aí? Alguém ainda acha que Jesus nasceu fora do Brasil?


Posto na esquina da Castelo Branco com a José Malcher,
e
m Belém (PA), local do nascimento de Jesus


A caridade do dono de um posto de abastecimento de animais salvou o nascimento do salvador. Na estrebaria, espécie de lojinha de conveniência da época, o casal conseguiu se abrigar e Deus, nascer. Sorte dele ter chegado no Brasil daquela época, se fosse hoje teria de enfrentar os índices de mortalidade infantil e ficaria à mercê do leite com soda cáustica. Ou seja, dificilmente chegaria aos 10 anos de idade, e muito menos aos 33! O local do nascimento é hoje um posto de gasolina. Por causa disso, no Brasil muitos donos de postos comemoram o Natal o ano todo vendendo gasolina batizada.