07 Janeiro 2012

A nossa delícia na boca do mundo

A nossa delícia na boca do mundo

O que têm em comum israelenses e palestinos? Cristãos e muçulmanos? Religiosos e ateus? Barack Obama e Hugo Chavez? Justin Bieber e Yo Yo Ma? O Papa e o Dalai Lama? Eu respondo: todos já chacoalharam as ancas com o hit “Ai se eu te pego” consagrado por Michel Teló.

Esse fenômeno da fina expressão artística brasileira está unindo povos rivais e demolindo as fronteiras das diferenças e preconceitos.

Compatriotas, embebedai-vos, Michel Teló é o mais forte candidato de todo o planeta para o Nobel da Paz. O Brasil terá enfim um Nobel à altura de seu talento.

MST e Daslu dançarão juntos na Paulista, Chris Flores e Ana Hickmann sairão de mãos dadas, vascaínos e flamenguistas rebolarão no mesmo time e não haverá mais discórdia no novo mundo que abana as mãozinhas e canta: “delícia, delícia...”

Fabio de Melo e Marcelo Rossi formarão dupla para entoar uma versão do forrozinho feita pelo Padre Antonio Maria, especialista em converter hits pagãos: “Que missa! Que missa! Assim você me salva! Ai, se eu te prego, ai, ai se eu te prego...”

Não são as lágrimas ou o riso que nos fazem humanos. Tampouco o telencéfalo desenvolvido ou o polegar opositor. É a cafonice!

A breguice nos une e o mau gosto nos faz irmãos!!! Eu vou ouvir um “delícia” por isso????

Fabio Reynol*

*Esse não é um pseudônimo do Luis Fernando Veríssimo!

03 Agosto 2011

Lições de Klink

Hoje fui à Feira Literária do Tocantins e assisti à palestra do Amyr Klink.

Ele contou que uma de suas maiores aventuras foi dar a volta ao mundo contornando a Antártica. Foi a primeira vez que um barco deu uma volta no pólo sul sem escalas.

O seu maior medo eram as tormentas, muito comuns na região. Para realizar o feito ele teria uma janela de pouco mais de cem dias, coincidente com o ápice do verão, para que não houvesse blocos de gelo ameaçando a segurança da aventura.

Ironicamente, o maior problema da viagem foram as calmarias. Nessas horas, não batia vento e o veleiro não saía do lugar.

Bem na metade da jornada, ele viu seu plano indo por água abaixo. Ele não estava conseguindo fazer o tempo médio estipulado para cada dia e naquele ritmo não conseguiria terminar o contorno do Pólo antes de o inverno chegar e encher o mar de gelo.

Já pensando em parar na Austrália ou na Nova Zelândia, Klink recebeu um conselho leigo que mudou o seu rumo. Sua mulher, Marina (ele só poderia ter uma mulher com esse nome!), que nada entendia de navegação e o esperava em terra firme no Brasil, sugeriu pelo rádio que ele aproveitasse os ventos das violentas tempestades para cumprir o cronograma.

Só que ele precisaria de dados meteorológicos precisos para poder seguir as tormentas e ele não tinha isso.

A mulher então vendeu em 11 dias a casa que o casal tinha lutado 10 anos para conquistar. Com o dinheiro, ela contratou um sofisticado serviço de meteorologia baseado nos Estados Unidos que passava informações meteorológicas em tempo real do Pólo Sul.

Com os dados na mão, Marina foi guiando o marido, ajudando-o a apontar sua vela na direção dos ventos e a cumprir a sua mini volta ao mundo.

A travessura fez Amyr terminar a tempo a travessia e descobrir que o valor que a gente coloca nas coisas são tão voláteis quanto elas próprias. "Diante da emoção daquela conquista, a minha casa tinha o mesmo valor que um palito de fósforo", declarou o aventureiro dizendo ter comemorado em alto estilo graças também à esposa. Ela havia escondido duas garrafas de champanhe no barco, só reveladas quando a aventura terminou.

Para mim, casamento é isso: um maluco que toma para si a loucura de outra pessoa, chama isso de sonho e o ajuda a realizá-lo cometendo insanidades ainda maiores.

30 Junho 2010

As arenas de 2014

As arenas de 2014
Fabio Reynol

O Brasil acaba de divulgar a lista dos sete estádios que serão construídos com IPI reduzido para a Copa de 2014 e da bola oficial do torneio do país do futebol que deixará a Jabulani com vergonha de ser tão redonda:


Macumbowl
Salvador (BA)
Imitando uma imensa tigela de oferenda cheia de pipoca, o Macumbowl terá um espaço exclusivo para despachos aos orixás atrás de cada gol. Uma praça de alimentação especialmente montada vai fornecer galinhas pretas, velas, cachaça e quiabo para caruru. Máquinas automáticas fornecerão acarajé e vatapá.
Batizado por um clã local de "ACM Forever", o Macumbowl será carinhosamente apelidado pelo baiano de "Forévis do ACM". Está sendo construído sem nenhuma pressa.

Trembão
Piranguinho (MG)
Batizado de maneira a indicar de maneira inequívoca a sua localização, o Trembão será mais mineirim que o Mineirão. Ícone da mineirice nacional, esse estádio contará com uma bela fachada em formato de queijo meia-cura. Será a primeira arena do mundo com cobertura de doce de leite caseiro. Máquinas de cafezim espalhadas pelas arquibancadas manterão a torcida acordada em partidas emocionantes entre o XV de Jequitinhonha e o Atlético de Borda da Mata. Projetado pela iniciativa privada, será cem por cento financiado pela Casa do Pão de Queijo.

Piritubowl
Pirituba (SP)
Encravado no coração da borda extrema da periferia da cidade mais conurbada do Brasil, o Piritubowl será o orgulho de todo piritubano que poderá ceder sua garagem como estacionamento nos dias de jogo. A lonjura de sua localização permitirá a venda de pacotes turísticos aos torcedores que levarão de dois a três dias para chegar ao estádio se optarem pelo trem brasileiro de alta velocidade.

Beiramar
Bangu (RJ)
Ao contrário do que o nome sugere, o estádio fica a 80 km da praia mais próxima. Financiado pelas maiores empresas do Rio de Janeiro, o PCC e o Comando Vermelho, o Beiramar é uma homenagem a Fernandinho, um dos mais destacados homens de negócio do país. Será o único estádio de 2014 a contar com sistema de segurança particular. Vigilantes armados com granadas de mão, M16 e lançadores de mísseis garantirão a paz e a segurança dos torcedores segundo afirma o responsável pelo empreendimento, o gerente de operações Marquinho do Pó, “Num tem treta, manô, aqui é nóis!” garante o especialista.

Rombo Nacional
Brasília (DF)
Chamado de "Corruption City" pelos estrangeiros, o Rombo será totalmente construído com dinheiro desviado da Previdência Social. Símbolo da moderna gestão brasileira, custará o equivalente a três viagens a Marte ida e volta com escala na Lua. Dotado de revestimento em mármore carrara, terá lustres de cristal bacara e cinzeiros Prada especialmente escolhidos pela Reitoria da UnB. Toda a infraestrutura de acesso ao estádio será financiada pelo dinheiro obtido com a venda de deputados.

El Pinicón
Foz do Iguaçu (PR)
O primeiro estádio trinacional do mundo sairá de uma empreitada conjunta entre Brasil, Argentina e Paraguai com cada país fornecendo o que tem de melhor. A rigorosa pontualidade brasileira aliada à qualidade dos materiais paraguaios e sob a coordenação da simpatia argentina fará de El Pinicón a encarnação do retumbante sucesso do Mercosul.

Bomba Nacuia
Pelotas (RS)
Maior estádio de duplo sentido do mundo, o Bomba Nacuia será construído no formato de uma imensa cuia de chimarrão com uma ajumentada bomba encravada adentrando por sua abóbada. Será encimado por um gigantesco teto retrátil que abre e fecha, entra e sai, sobe e desce cobrindo e descobrindo a torcida e enchendo a gauchada de orgulho. Uma praça de chimarrão com bebedouros de água quente completarão essas nababescas instalações dos pampas.

As novas bolas Ardidas
Como reza a tradição mercadológica futebolística, em 2014 o Brasil terá a sua própria bola. Evolução da Jabulani, a verde-amarela Jabaculê será mais torta que a ética do Congresso Nacional em uma homenagem às saudosas pernas de Mané Garrincha. Será vendida com exclusividade por camelôs nos melhores semáforos do país. Falsificações poderão ser encontradas em lojas especializadas e adquiridas mediante módicas propinas.

16 Abril 2010

Coroinhas em risco: Igreja transfere padres pedófilos para o Brasil

Coroinhas em risco: Igreja transfere padres pedófilos para o Brasil

Fábio Reynol



Tirem seus coroinhas da reta e da sacristia. A Santa Sé deu uma lição nos padres que bolinavam crianças no primeiro mundo, mandou-os molestar as do terceiro e quarto. Tá certo. Na periferia não existem crianças, só dimenores.

E o Brasil, famoso por sua vocação sexyreligiosa, acolheu dois padrecos acusados de passar a tradição oral da igreja aos little kids da América do Norte. Não é piada, está na Folha de hoje (http://ow.ly/1ze4s).

Um desses sacerdófilos, da ordem dos xaverianos descalços de mãos peludas, foi parar no interior do Pará para catequizar curumins! Um revival da catequese colonial na qual jesuítas mostraram aos índios a retidão e a dureza necessárias ao afloramento da fé católica.

Outro padre que se aboletou em Salvador botou o pelourinho de fora e colocou suas crianças aos deleites de seus amigos. Num turismo sexual agenciado pelo religioso, seus catecúmenos eram oferecidos aos visitantes estrangeiros.
Isso sem contar os sacerdófilos 100% nacionais que em colégios e seminários ensinavam seus alunos a tocar órgãos.

Na Europa não era diferente. Enquanto a safadeza rolava solta na diocese de Munique, o arcebispo Ratzinger analisava bem analisadinho cada caso e em menos de vinte anos o padre molestador era sumariamente punido com uma transferência para um paraíso sexual onde poderia introduzir a fé em pagãozinhos que tinham ainda menos voz que seus irmãozinhos europeus.

Ainda bem que Ratzinger tornou-se infalível.

11 Fevereiro 2010

Amigos,

Abri aqui um espaço para divulgar o trabalho da minha amiga Betina Vansan, um jovem talento que desponta da literatura.

Ela tem 13 anos, lê compulsivamente, tem um papo inteligente e é judoca medalhista.

Este post é para que ela não possa negar que me conhece quando for dar entrevistas no Jô, na Marília Gabriela e estiver autografando na Flip ou na Bienal de Frankfurt.

J.K.Rowling cuide-se! Seus dias de magia estão contados...

Vem aí Betina Vansan.

Esta minicrônica é dela:


Diário de uma Barata

16 de Setembro, quarta-feira 21:30

Neste momento estou escondida de baixo do guarda-roupa da fêmea mais jovem. Escapei por pouco de uma baita chinelada ! Vou esperar um tempinho até entrar pelo ralo.

16 de Setembro, quarta-feira 21:45

Finalmente os humanos sem casca pararam de me procurar. Desci quietinha pelo cano de esgoto até o point da baratada, sabe? Aquele entre a curva da Caixa-D'água e a Rodovia Cano Partido? Esse mesmo. E adivinha só? O João Ratão (não sei porque diabos ele tem esse nome, afinal ele é um tremendo barato !) me convidou pra sair na sexta-feira ! Nesse instante estou indo pra casa me arrumar minhas anteninhas com Gel Antenor a base de xixi de cachorro,importado da França benhê ! Afinal, uma jovem baratinha merece o melhor.

17 de Setembro, quinta-feira 19:00

Amanhã é meu encontro com o João, mal posso esperar !

Má notícia: meu vôzinho Baratonildo, faleceu hoje. Os humanos o mataram com aquele maldito Raid Preto.

18 de Setembro, sexta-feira 00:10

O João Ratão é um tremendo de um porco ! Me tratou como se fosse lixo !
Já cansei de dizer pra ele que você NÃO é o que você COME !

Grrrrrr , odeio ele ! Odeio o mundo ! E já cansei de você diário estúpido ! Tchau mesmo !

25 Janeiro 2010

Espetáculo "O Vendedor de Palavras" está no Prêmio Açorianos

Caríssimos leitores,

A maravilhosa adaptação para o teatro da minha crônica "O Vendedor de Palavras" está rendendo cada vez mais frutos.

O espetáculo encenado pelo grupo portoalegrense Mototóti foi indicado para disputar o Prêmio Açorianos nas categorias: "Melhor Dramaturgia" e "Melhor Direção".

O Açorianos é uma premiação da Prefeitura de Porto Alegre destinada à produção artística local.

Torçam os dedos!

O espetáculo ficou um primor, e vamos tentar trazê-lo para o Estado de São Paulo este ano!

bjs,

Fabio

24 Novembro 2009

"O Vendedor de Palavras" completa 50 apresentações!

Queridos leitores, o espetáculo teatral "O Vendedor de Palavras" completou no último sábado a maravilhosa marca de 50 apresentações!

A peça, baseada na crônica deste humilde blogueiro segue fazendo sucesso no sul do Brasil, abrindo feiras literárias e arrasando no Brique da Redenção, na capital gaúcha.

A apresentação comemorativa de sábado mereceu até uma bela crítica da jornalista Helena Melo, que narrou a inefável experiência de assistir em seu blog Palcos da Vida e a reproduzo abaixo:

O Vendedor de Palavras: o conforto de um bom espetáculo
Teatro de rua, a princípio, não é confortável. Pode ser ótimo, pode ser divertido, mas confortável, não é. Porém, de nada adianta estar na melhor poltrona do teatro perfeito se o espetáculo não presta. Vamos acabar dando a qüinquagésima olhada no lustre para nos distrairmos. Aliás, era este o número de apresentações de O Vendedor de palavras, espetáculo de rua a que fui assistir no Parque Farroupilha.

Para mim, estar ao livre é sinônimo de liberdade. É verdade que em Porto Alegre não é fácil o clima não atrapalhar. Se não é a chuva, é um calor úmido bem desagradável. Pior ainda para os atores que até o último minuto não sabem se vai ser possível apresentar o espetáculo. Mas eles estavam lá. E, diferente do que eu imaginara, com cenário a ser montado. Poucas coisas, mas com uma característica que eu aprecio muito: objetos que se transformam em outros. Então, em poucos minutos estávamos olhando para uma estante cheia de livros que iria se transformar em um píer. Outros pequenos detalhes e as cenas estavam completas.
O nome do espetáculo, para mim que sou jornalista, já me atraia muito. Atiçava minha curiosidade. Haveria um jeito de pagar minhas dívidas só com palavras? Não precisaria ser contratada por uma grande empresa? Ser escritora? Bem, teria que pagar para ver, quer dizer, neste caso, só ficar para ver já que não cobravam nada. A peça é baseada na crônica de Fábio Reynol, jornalista também. Provavelmente por isso eu tenha gostado da idéia.
Levei o afilhado de minha irmã comigo. Ele não tem ainda o hábito de ver teatro, então, me perguntou quando começaria o show. Eu expliquei que não era um show. Que era um espetáculo. Uma palavra que também serve para show. Mas que nós íamos ver uma peça. É... usar as palavras não é assim tão fácil. Ainda mais, quando logo no início, um dos atores fala justamente que vai fazer um “show de teatro”. Fui desmentida.
O Vendedor de palavras começa com certa improvisação, chamando o público com música. Uma melodia agradável e comunicativa. Aos poucos vai sendo contada a história. Uma? Não várias. A dos avós, a dos pais e a do menino protagonista e sua amada. Dois atores fazem todos os personagens: Carlos Alexandre e Fernanda Beppler. E é um prazer ver que nenhum se destaca. Ambos são ótimos em cena. Confesso que me divirto muito com o sotaque alemão da Fernanda. Com certeza não é fácil manter esta fala diferenciada de um jeito tão bem feito, ainda mais quando se faz mais de um personagem. Já conhecia Carlos Alexandre da Comédia dos Erros, então, quando o vi, sabia o que podia esperar. Seus personagens são carismáticos e convincentes. Desculpem. Não sei falar de atuação sem usar adjetivos. Talvez, se eu pudesse comprar algumas palavras... Pronto! Nem achei clientela para vender as minhas e já estou pensando em comprar! Era só no que eu pensava quando começaram a oferecer o significado de “histriônico” a cinqüenta centavos. Claro que eu queria. Ainda bem que lá pelas tantas do espetáculo a palavra foi revelada. Por isso, passo adiante também de graça. Histriônico é engraçadinho!
As mudanças de figurino acontecem diante de nós. Nem por isso, eles deixam de nos convencer. Ao contrário. Todos os personagens estão definidos. São divertidos e inteligentes. Preciso dizer que adoro esta combinação. Algo que faça rir e pensar ao mesmo tempo, não é perfeito? E é justamente o que fazem algumas falas como: “Por que eu sozinho vou ler para o mundo se o mundo inteiro pode ler sozinho?”
A coordenadora do Instituto Estadual de Artes cênicas, Rosa Campus Velho, estava lá e agüentou firme os 40 minutos de espetáculo. Espero que ela tenha achado que valia a pena. Eu saí com uma palavra a mais e com certeza muito mais pensamentos. Bom, acho que devo dizer que histriônico pode ser também bobo, ridículo, comediante, charlatão...Desta vez, vou doar as minhas palavras, mas na próxima...
O vendedor de palavras é o primeiro espetáculo do Grupo Mototóti e foi contemplado com o Prêmio FUNARTE de Teatro Myriam Muniz 2008 – Ministério da Cultura.


Concepção e Atuação: Carlos Alexandre e Fernanda Beppler
Direção: Arlete Cunha
Dramaturgia: Rodrigo Monteiro
Trilha Sonora Original: Fernanda Beppler
Cenografia: O Grupo com a colaboração de Zoé Degani
Máscaras e Boneco - criação e confecção: Paulo Martins Fontes e Eduardo Custódio
Figurinos: Coca Serpa
Desing Gráfico: Carlos Alexandre
Produção e Realização: Grupo Mototóti