07 março 2007

Carta ao Arqueólogo do Futuro

O texto abaixo foi fruto de um desafio proposto pelo site Agência Carta Maior (http://agenciacartamaior.uol.com.br), escrever uma carta a um arqueólogo de um futuro distante, e me demandou um malabarismo mental viceral. Espero que o pessoal do site reconheça isso e pelo menos publique-o antes que o tal arqueólogo nasça.

O problema é que o site só propõe a tarefa a celebridades em geral. Escreveram ao arqueólogo Moacir Scliar, Jorge Furtado, Luis Fernando Veríssimo, Nando Reis, Frei Betto, Alfredo Bosi, Niéde Guidon, Maurício de Souza, Chico Anysio, Emir Sader, Ferreira Gullar, Soninha e outros expoentes e mentes famosas.

Claro que ninguém ainda entrou em contato comigo. Por isso, coloquei toda a minha pró-atividade (neologismo para cara-de-pau) em prática e enviei minha carta à Agência antes mesmo de me pedirem, e ainda melhor, antes mesmo de eu me tornar uma celebridade.

Que pelo menos a leiam!


Caro Arqueólogo do Futuro,

Se você está lendo isto é porque a nossa capacidade de destruição do planeta não era tão grande quanto pensávamos. Maior do que ela talvez só a nossa incompetência em completar um serviço que fazíamos tão bem: a aniquilação do nosso pequeno mundo.

Se sobrou alguma coisa da Terra, este texto deve lhe ter sido entregue por uma barata, espécie que julgávamos inferior a ponto de esmagarmos milhares de seus indivíduos debaixo de nossos pés. Por favor, não comente este assunto diante do bicho, apenas transmita-lhe nossas desculpas.

Como você obviamente não é terráqueo, aqui vai uma sinopse de nossa história. Nosso mini-planeta não tem nem cinco bilhões de aninhos. Apenas um menino perto dos 15 bilhões de anos do universo conhecido. No entanto, representantes desta espécie que lhe escreve só apareceram há apenas dois milhões e poucos anos.

A encrenca começou quando nossos pais decidiram descer das árvores, daí foi um pequeno passo para derrubá-las. Logo quiseram morar juntos em cidades para assim reunir os dejetos de todos e causar um impacto bem maior ao jogá-los no meio ambiente. Claro que toda aquela caca reunida só fez crescer os problemas e as doenças. Chegamos a descobrir pessoas que ainda viviam em florestas e em harmonia com a natureza. Dissemos a eles que eram atrasados e acabamos com eles e com suas florestas. Alcançamos enfim uma sociedade justa na qual todos comem, trabalham, têm acesso à saúde e à educação, contanto que preencham uma única condição: possuam dinheiro.

O que ninguém conseguiu me explicar é por que cientistas sérios chamaram esse processo de “evolução”. Se evoluímos até esta decadência, antes tivéssemos regredido ao sucesso. Mas a lógica nunca foi o nosso ponto forte. O fato é que conseguimos em menos de dois milhões de anos o que os dinossauros só obtiveram depois de 140 milhões, a extinção da própria espécie.

Escrevo do início do século XXI cristão - baseado no suposto ano do nascimento de um cara que demonstrou que era possível viver sem nos matar. Claro que nós o matamos. A adoção desse calendário foi mera formalidade prática. Dois terços de nossa população não dá ouvidos ao que o cara disse; o outro terço ouve, mas não pratica e ainda usa seu nome para arrancar dinheiro dos pobres.

Hoje, jogamos zelosa e diariamente seis bilhões de toneladas de dióxido de carbono na atmosfera. Por causa disso estamos sendo cozidos vivos. Esse gás ajuda a formar a tampa da panela que já começou a nos escaldar. A boa notícia é que descobrimos que alguns seres vivos absorvem o carbono expelido. São os vegetais, os quais fizemos o obséquio de arrancar de quase toda a superfície do planeta. Como resultado, a nossa jovem Terra é uma criança com um gigantesco enfisema pulmonar. Também gostaria de lhe dizer o que costumamos jogar em nossos rios antes de bebermos de suas águas. Porém não vou. Você não iria acreditar e ainda morreria de nojo de nós.

Podemos morrer por causa dessas coisas, todavia inventamos muitos outros meios de nos matar mantendo um mínimo de dignidade. Já detemos a incrível tecnologia de arrebentar o núcleo do átomo e estamos ansiosos por utilizá-la para arrebentar a cabeça de nossos conterrâneos inimigos, pulverizando o planeta deles. Sem nos importar (repare no nosso despojamento!) com o fato de que o planeta deles e o nosso são o mesmo. Assim que o primeiro artefato nuclear explodir, daremos início a um show pirotécnico de arrancar os cabelos, a pele e os membros. Não seremos destruídos por nenhuma espécie alienígena, civilização mais avançada ou chuva de meteoros. Morreremos de cabeça erguida (para aqueles que ainda a tiverem) orgulhosos por assumir as rédeas do próprio destino. De nossa aniquilação, cuidamos nós.

Caro arqueólogo, espero ter dado um panorama belo e suavizado de nossa rica e breve história. Para encerrar, atrevo-me a uma última observação científica. Não sou dado a obviedades, mas como você já pôde reparar, por aqui nunca existiu vida inteligente. Com exceção das baratas!

5 comentários:

ma disse...

preciso como sempre!! hehehe
muito bom!
abraço

Dan disse...

Muito Bom esse!!!!!! Se vc me permitir vou usar com meus alunos nas aulas de História, colocando sua assinatura claro... Adorei o texto!!!! Abs!!!!

Mariany disse...

se me permite gostaria de utilizar esse seu texto em uma apresentaçao de atividade do curso de pós Graduaçao em Gestao e Educaçao Ambiental. nao se preocupe citarei a fonte e darei a todos o endereço do blog. muiiito bom mesmo.
Um grande Abraço.
rose

Anônimo disse...

me serviu para entender a aula de hoje 09/08/10 e eu nem sei quem minha professora, não escrevi nehuma carta ao arqueólogo do futuro, mais vou ter ideias para discurtir, bom o importante é paRtiCIPAR e entender....vlw!!!

Maria Alves disse...

Essa carta é cada dia mais atual. Parabéns, Niéde, muitos anos de vida!
txay@uol.com.br