12 abril 2007

Um congresso de tirar o chapéu

O grau de desenvolvimento de um país pode ser medido pelos mais estapafúrdios indicadores como o tipo de vaso sanitário em que seu povo se senta ou os projetos de lei votados em suas casas legislativas. No Brasil, projetos de lei e vasos sanitários são bem diferentes quanto à forma, mas guardam impressionantes semelhanças de conteúdo. Deixarei as latrinas para uma análise posterior em um próximo ensaio econômico-político-escatológico que colocará O Capital de Marx no bolso. Trato aqui, pois, de como as pautas das assembléias de representantes eleitos indicam se uma nação atingiu ou não o pleno desenvolvimento.

Supõe-se que quando um povo elimina seus problemas mais elementares de saúde, educação, segurança, etc., seus deputados e senadores, a fim de justificar seus salários, comecem a se aventurar em novas searas legislativas como a criação de normas que regulamentem o penteado dos membros do senado, a tonalidade de batom das juízas federais em comparação às colegas estaduais e os perfumes sancionados para uso em repartições públicas.

E foi justamente neste indicador denominado “Ausência Laboral Parlamentar” (também conhecido como Falta de Serviço) que o Brasil acaba de alcançar o grau máximo de desenvolvimento. Nesta semana, passou na frente das demais pautas a serem votadas a lei que regulamenta os trajes parlamentares, o que demonstra o elevado nível de futilidade atingido pelo Congresso Nacional brasileiro.

O motivo da urgência da votação foi conter a ameaça representada pelo deputado baiano Edgar Mão Branca (PV). O cabra só aparece na assembléia com seu inseparável chapéu de couro no melhor estilo "rei do cangaço". Receosos de que o colega recebesse mais holofotes do que eles próprios, os demais membros da casa decidiram votar em regime de urgência a lei que restringe o traje parlamentar a terno, gravata, uma camisa por baixo desta, sapato e um relógio suíço. Roupas íntimas e meias ainda hão de ser regulamentadas a fim de que estas combinem com aquelas e ambas ornem com a tonalidade das calças.

O descumprimento dessa lei levará o parlamentar a enfrentar uma Comissão de Ética por quebra de decoro o que é, no mínimo, inadequado. O correto seria a criação de uma Comissão de Estilo e Etiqueta cuja presidência teria o nome do deputado Clodovil Hernandes (PTC-SP) como candidato mais indicado. Estilista de renome, Hernandes botaria a tão sonhada ordem na casa ao impor as combinações apropriadas traje-ambiente e promover a renovação dos tecidos que saírem de moda.

Fosse criada há mais tempo, a Comissão de Estilo e Etiqueta teria evitado aberrações como a Dança do Mensalão coreografada e interpretada pela ex-deputada Ângela Guadagnin (PT-SP). “Vossa Excelência desonrou esta Casa ao dançar sem ritmo e não sincronizar vosso traseiro parlamentar ao movimento das mãos”, diria o relatório da comissão, “dados os fatos supra-narrados não resta a este relator senão sugerir como punição o encaminhamento de Vossa Excelência a uma academia de dança onde debutará ao som da canção 'Tô ficando atoladinha'”.

A mesma comissão teria defendido os olhos da nação das tinturas capilares berrantes da ex-deputada Esther Grossi (PT-RS). “Vossa Excelência quebrou o decoro capilar desta casa ao tingir os cabelos em tom rosa-fúcsia em clara dissonância com as unhas purple-baby. Acrescente-se o agravante que a coloração capilar do momento é azul-bolor-metálico, tom que Vossa Excelência deixou de usar há três dias,” sentenciaria o presidente da comissão.

Enquanto essa importantérrima Comissão específica não nasce, nós, brasileiros, podemos nos sentir orgulhosos por termos um Congresso muito mais desenvolvido que a nação que o mantém. Enquanto as decisões cruciais tomam a pauta dos legisladores, o povo se atém a banalidades como o que comer, onde estudar e para onde correr em casos de balas perdidas. Somos um povo que perde o voto para não perder a piada. Agora, nossos eleitos vão nos matar de rir.

Guenta mais essa, Brasil!

Um comentário:

Thiago V. disse...

Os problemas devem estar todos resolvidos, não há mais nada para se disecutir nas reuniões e reuniões. Como o povo brasileiro está no 1° mundo, mesmo que da miséria, não tem mais preocupações... Pra quê! Não é?