01 fevereiro 2008

Inacessível mundo novo

Um triboleitor me perguntou se quando eu enricar ele vai continuar podendo ler meus textos de graça. Respondo plagiando aquele cara que nunca se hospedou num hotel cinco estrelas: “as melhores coisas da vida são de graça”.

Inacessível mundo novo

É pura sorte nossa termos nascido numa época tecnologicamente atrasada. Chegará o tempo em que engarrafarão a luz do sol, venderão brisa com cheiro de mato e MP30 com trinados de pássaros. Quem usar a lua em poesia pagará royalties à NASA e o gajo que assobiar canções no trânsito receberá multa por infração de direitos autorais. Haverá pedágios para quem entra e para quem sai deste mundo, com visto de permanência provisório emitido por autoridade cobradora competente e renovado periodicamente, mediante módicas tarifas.

Quem viver pagará aluguel por chamar de casa este planeta. Pagará por pisar na terra e por respirar seu valioso oxigênio. Pagará por cada miligrama de O2 inalado e de CO2 exalado. Os puns motivarão processos indenizatórios por atentado à película de ozônio, que um dia fora uma grossa camada. As palavras serão patenteadas e terão de ser escolhidas com cuidado para não gerarem expressões famosas consagradas em hinos e canções, se isso acontecer o direito de pronúncia atingirá valores estratosféricos. Tudo terá seu preço, mas nada será tão caro quanto a água. Banho será privilégio de super-ricos e os demais terão de se virar com uma lavagem a seco. O cubo de gelo valerá mais do que o uísque doze anos à sua volta e os pingos de chuva ácida serão disputados a tapa.

Aquele que achar bonita uma poesia, guardará o fato para si, sob o risco de ter de pagar tarifas admiratórias. Bem poucas áreas estarão livres do alcance dos preços e o que não for taxado, será tarifado ou negociado em bolsa. Ficará tão caro existir que muitos já nascerão penhorados. Os mais feios terão a sorte de virar atração de circo e serão mantidos e alimentados pela indústria do entretenimento. Os mais fortes servirão de força motriz nos lugares que forem insalubres demais para os robôs. Aqueles que não tiverem nada de útil a oferecer passarão a vida comendo capim e tomando purgante para fornecer esterco para a agroindústria.

E pensar que tudo começou com um pedágio na Anhangüera...

Bem, meu amigo, num mundo assim, um texto meu será a última coisa que você vai querer pagar.
Ou não.
Um abraço gratuito, sem frete nem custo adicional!

6 comentários:

Anônimo disse...

Em primeiro lugar,obrigado pela atenção de enviar e-mail avisando que havia texto novo.
Te tenho nos Favoritos,e a todo o momento com a satisfação de quem anda num jardim, dou uma olhada no Diário para ver se encontro algo(texto,ou algum comentário)novo.
Dei boas gargalhadas enquanto lia pela segunda vez o"Inacessível mundo novo",achei que demoraria mais para ter outro acesso de riso,após ler "A Vaquinha...".
Mas tu realmente és um mestre com as palavras e idéias,que usas e tem.
Não te assustes, com o tempo aprenderei a ser mais conciso, pois estarei "mais acostumado"contigo e tuas geniais idéias.
Só acho que(ainda bem)não veremos este mundo tão modificado,mas que caminhamos para construí-lo não tenho a menor dúvida.
Abraços JB
ps:Continúo postando como anônimo(e confesso)por não saber como deixar de fazê-lo.

Luis Hipolito disse...

Oi Fábio, tudo bem?

Do jeito que o mundo está tudo acabará sendo pago. Vamos aproveitar enquanto é gratuito. Um bom feriadão prá você! Um abraço!

Flávia disse...

Gostei do vendedor de palavras!Achei por acaso!Apareço mais!

Fábio Reynol disse...

Oi, Sr. JB. Para não postar mais como anônimo é só colocar um nome na opção "apelido" na hora de postar a mensagem.
De qualquer forma, não se preocupe, o senhor é o anônimo mais famoso deste blog!
Aquelabraço!

Fábio Reynol disse...

Oi, Luis Hipólito. Realmente, o preço da vida está pela hora da morte. Aproveitemos enquanto ainda temos um canto onde cair vivo.
Caia daí que caio daqui.
Um abraço remanescente dos tempos da fartura!

Fábio Reynol disse...

Seja bem-vinda, Flávia, e aproveite a promoção de palavras: você lê o Diário da Tribo agora e só paga quando eu tiver dinheiro para contratar um advogado para reivindicar meus direitos autorais...
Brincadeira, cobrarei só pelos adjuntos adnominais...
abraço