02 maio 2007

Eu quero a minha mãe

A história de que Deus enviou seu filho ao mundo em uma missão de resgate suicida foi apenas uma versão divulgada à imprensa para disfarçar um pequeno conflito familiar no Céu. A verdade é que o menino desceu por sua conta e risco por um motivo muito mais humano do que divino: a inveja.

Numa tarde de verão, enquanto Deus Pai descansava em sua rede, Deus Menino escapuliu cá pra baixo pegando carona num raio de sol. Ao acordar, o Criador do universo encheu-se da mais divina das cóleras. "Onde está o garoto?", perguntou ao seu querubim-governanta ao não localizar seu rebento. "Creio que está na Terra, Senhor. Foi se esconder dentro do ventre de uma mulher." Demonstrando sua enorme sabedoria, o Onipotente resolveu não interferir. "Deixe-o lá. Quando voltar, nós conversaremos," vaticinou.

O garoto retornou 33 anos depois. O Pai o esperava acordado.

- Como foi o passeio? Perguntou o Velho.

- Maravilhoso! Respondeu enquanto despia as roupas mundanas e vestia as celestiais.

- Por que resolveste descer tão de repente, sem avisar? Comentou o Pai de braços cruzados, mas mantendo a calma como convém a um Deus compassivo.

- Me desculpa, Pai. Fiquei mordido de inveja de todos aqueles que têm alguém para chamar de mãe. Resolvi ter uma também – Confessou o rapaz demonstrando uma humildade digna de um Filho de Deus, enquanto estendia uma xícara de chocolate quente para apanhar uma nuvem de chantili.

- Mas por que numa casa de carpinteiro? Tu poderias ter nascido príncipe! – Comentou o Pai olhando para todo aquele chantili.

- Queria aprender teu ofício, Pai. – disse o Rapaz com uma crosta de chantili no bigode - Como tu, queria saber fazer aquele magnífico berço que os homens chamam de mãe.

- E o que aprendeste?

- Que as mães são muito mais do que isso. Depois de carregar seus filhos no ventre, elas cuidam deles eternamente. Quando pequenos, elas acordam à noite para tratar suas dores, os alimentam mesmo quando elas mesmas não tenham o que comer, participam de suas brincadeiras e lhes dão aconchego. Depois que crescem, os filhos recorrem à mãe sempre que precisam de um colo.

- Aprendeste tudo isso com essas mulheres?

- Mãe não é apenas uma mulher, é um lugar para o qual as crianças de zero a 50 anos retornam quando querem saber o que colocar numa picada de abelha ou simplesmente para comer novamente a torta da infância. Aquele que guarda a memória da mãe, mantém viva em si a criança que é, mesmo que tenha 90 anos de idade.

- Foi tua mãe que te ensinou tudo isso?

- Ela agüentou minhas estripulias, puxou minhas orelhas, me educou, apoiou meus sonhos e esteve ao meu lado até nos piores momentos.

- E então? Sabes agora como projetei as mães?

O Rapaz Deus lambeu o enorme bigode de chantili olhando para o Céu, ou seja, para os lados. Ficou por um momento pensativo saboreando o chantili com o restinho do chocolate e arriscou:

- Suponho que aquilo que os homens resumem na palavra "mamãe" seja uma altíssima concentração do teu infinito Amor encerrada numa alma feminina. É isso?

- Tu o dizes!

- Hei! Essa fala é minha!

3 comentários:

Luis Hipolito disse...

Oi Fábio,

Descobri que você postou um link para o meu blog e estou muito feliz com isso. Estou postando um link para o teu blog também. Um abraço. Sucesso.

Luis Hipolito disse...

É sempre bom fazer uma nova interpretação dos fatos históricos. Você escreve bem. Um abraço!

Fábio Reynol disse...

Obrigado, Luis Hipolito. Considero o seu blog muito bom.
Grande abraço.